Expresso do Médio Oriente, de Marc:
11 de Março de 2008 ⋅ Opinião

O espectro hitleriano na filosofia

Rolando Almeida
Escola Secundária Gonçalves Zarco, Madeira

Para quem, como eu, não tem a experiência de ter vivido num estado totalitário, é difícil imaginar o que tenha sido o nazismo. Como se não bastasse a sua crueldade mortífera, os totalitarismos são também os assassinos mais cruéis da verdade e da objectividade intelectual. Os pensadores pós-modernos, como Lyotard, entenderam o período do pós-guerra como aquele em que, esgotados os limites da razão, a verdade se espartilhou em múltiplas formas. Doravante não fazia mais sentido pensar na verdade e nas grandes ideias que com a razão e a verdade se podia procurar e produzir.

Segundo os pós-modernistas, as grandes ideias da razão foram as principais responsáveis pelo holocausto nazi. Mas hoje estamos cientes da ingenuidade destes pensadores. Ao contrário do que supunham, o nazismo não preconizou qualquer verdade consistente com os princípios universais que caracterizam a racionalidade. O nazismo foi exactamente o contrário disto — a elevação de uma verdade subjectiva, a do ditador, ao estatuto de verdade absoluta.

É evidente que o discurso pós-moderno teve maior impacto numa Europa fustigada pela guerra. Ao mesmo tempo que os grandes intelectuais se exilaram na Inglaterra e nos EUA, os que pela Europa ficaram e sobreviveram tiveram de cauterizar as suas feridas, proclamando em uníssono o seu anti-nazismo. O inimigo fora identificado e a destruição deixou chagas muito difíceis de curar. A verdade objectiva passou confundir-se com o próprio nazismo, pelo que havia que defender a subjectividade e o relativismo acerca da verdade, supondo confusamente que dessa forma se estava a defender a liberdade.

Hoje, mais distantes das feridas da guerra, atenuados os maiores e mais directos rancores, com o espírito mais livre, sabemos bem que ao defender o relativismo acerca da verdade, estamos a pressupor que é defensável algo como o nazismo. A guerra começa precisamente quando a racionalidade acaba e poderá levar décadas a retomar a racionalidade.

Não é de estranhar, pois, os comportamentos da academia portuguesa em relação à filosofia anglo-saxónica, com particular horror à chamada "filosofia analítica". Acontece que a filosofia é e sempre foi uma actividade crítica de análise. Só deixa de o ser quando se abdica da objectividade, clareza e, precisamente, da busca da verdade. O discurso da pós-modernidade anunciou a morte da razão, da filosofia, e mais uma série de mortes, pensando que assim estaria a afirmar a liberdade humana. Só que a liberdade humana cresce na razão directa do seu interesse pela verdade. Muitas vezes ao longo do meu curso ouvi professores referirem-se à filosofia de Russell como uma espécie de tecnocracia do pensamento. Sou frequentemente acusado no meu blog de defender uma filosofia tecnocrata, vazia, fria... fala-se da filosofia como se houvesse uma série de modelos diferentes e tivéssemos apenas de optar pelo que mais gostamos — e, já agora, dizer mal de todos os outros.

Acontece que a filosofia é uma actividade séria porque lida com problemas sérios e difíceis de resolver e não se compraz com brincadeiras desta natureza. Enquanto nos aborrecemos com chalaças e falamos mal deste e daquele, a filosofia produz, produz cada vez mais e a um ritmo verdadeiramente estimulante. A produção estonteante de filosofia nas democracias contemporâneas fez também que se ultrapassasse rapidamente estes estigmas. Hoje em dia, a discussão sobre se a filosofia é ou não é "analítica" não tem mais cabimento no meio académico pois já se percebeu de uma vez por todas que isso é pôr em causa o valor da filosofia e a sua capacidade de produção.

Como os comboios chegam mais tarde a Portugal, talvez a discussão venha com uns setenta anos de atraso, mas o facto é que ela aí anda num escorraço perfeitamente dispensável do que melhor se produz em filosofia. Seremos ainda muito pós-modernaços numa altura em que não faz qualquer sentido sê-lo? Melhor seria olhar para os erros dos outros e deixarmo-nos de pós-modernices.

Rolando Almeida
Escola Secundária Gonçalves Zarco, Madeira
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