Como Havemos de Viver?
27 de Dezembro de 2003 ⋅ Ética

O sentido da vida

Desidério Murcho
Como Havemos de Viver? A Ética numa Época de Individualismo, de Peter Singer
Tradução de Fátima St. Aubyn
Lisboa: Dinalivro, 2006, 424 pp.

Para muitas pessoas que desconhecem a filosofia, o sentido da vida é o tema par excellence desta disciplina. Curiosamente, é um tema que ocupa um lugar menor na história da filosofia, embora os filósofos gregos antigos lhe tenham prestado alguma atenção. Apesar dos artigos seminais de Thomas Nagel ("Death", 1970, e "The Absurd", 1971), não abunda a bibliografia contemporânea nesta área. Uma excepção notável é Como Havemos de Viver?, de Peter Singer, autor de Ética Prática (Gradiva) e Libertação Animal (Via Óptima). Em onze elegantes capítulos, com linguagem clara e pensamento bem organizado, Singer defende a hipótese de que só a vida ética é uma vida com sentido último. A hipótese não é nova; é a ideia fundamental dos melhores filósofos gregos. A novidade está na sua aplicação à vida contemporânea, que parece tão alheada destas ideias.

Ou talvez não. Um dos aspectos importantes deste livro é o facto de mostrar o que é a tão falada "crise de valores" contemporânea — apesar de o autor ser demasiado sensato para usar uma expressão tão tonta. O que se passa hoje é a conjunção de dois fenómenos. Por um lado, a falência das religiões enquanto forças moralizadoras. Por outro, o modelo (falsamente) liberal de sociedade assenta numa teoria raramente explicitada da natureza humana: que todos somos egoístas e que está muito bem que o sejamos. Esta teoria tem vindo a ser refutada em diversas instâncias académicas (nomeadamente por Elliot Sober e David Sloan Wilson, no livro Unto Others), mas implantou-se na visão geral coisas. Ora, Singer mostra duas coisas importantes: que esta visão das coisas conduz à infelicidade; e que a correcta interpretação da solução do dilema dos prisioneiros mostra o que é uma vida de cooperação.

Singer apresenta os traços gerais da sociedade egoísta construída pela visão falsamente liberal do mundo e declara-a uma "experiência social falhada", à semelhança do comunismo. A história das ideias que fundamentam essa experiência social é traçada com algum pormenor. Este modelo sem saída é contrastado com um modelo verdadeiramente liberal: o modelo japonês. As diferenças deste modelo são apresentadas com cuidado, sem contudo esconder os seus aspectos negativos. O fundamental é que o desenvolvimento social, económico, científico, cultural e técnico não estão de modo algum dependentes da ideologia egoísta falsamente liberal. A célebre metáfora do "gene egoísta" de Dawkins é igualmente desmontada.

Recorrendo ao iluminante mito de Sísifo, os últimos capítulos apresentam o problema do sentido da vida e explicam qual é a natureza da ética, argumentando que o absurdo e o vazio que tantas pessoas sentem na sua vida, apesar do conforto material, resulta de uma vida indiferente à ética e ao bem-estar alheio. E esta é a razão da falência da falsamente liberal teoria capitalista da natureza humana: é uma teoria que procura o bem para o maior número de pessoas, incitando cada uma delas a não se preocupar com o bem do maior número de pessoas. O paralelo com o comunismo é óbvio: neste caso trata-se de procurar o bem para o maior número de pessoas sacrificando o bem de toda e qualquer pessoa em particular. Em ambos os casos, os meios estão em contradição com os fins.

Se há um livro de filosofia acessível ao grande público que vale a pena ler e reler e discutir, é este.

Desidério Murcho
Crítica publicada no jornal Público (31 de Maio de 2003)
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