criticanarede.com · ISSN 1749‑8457
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Crítica: revista de filosofia
Simon Blackburn
Simon Blackburn

A filosofia é inevitável

Entrevista a Simon Blackburn
Desidério Murcho

Simon Blackburn é um dos mais prestigiados filósofos contemporâneos. Autor de uma obra vasta na área da metafísica, filosofia da linguagem e ética, é actualmente professor na Universidade de Cambridge, depois de vários anos nos EUA. Ensinou também na Universidade de Oxford e foi Director da mais prestigiada revista internacional de filosofia, a Mind. É autor de Spreading the Word (1984), Essays in Quasi-Realism (1993) e Ruling Passions: A Theory of Practical Reasoning (1998). Em Portugal está editado o seu Dicionário de Filosofia, na Gradiva, e acaba de sair, na mesma editora, Pense: Uma introdução à filosofia. É raro um filósofo escrever um livro de introdução à filosofia para o grande público. E mais raro ainda é esse livro tornar-se um best-seller. Fui falar com ele.

A maior parte dos filósofos não escreve livros introdutórios para o grande público. O que o levou a escrever Pense?

Bem, toda a minha vida tive de apresentar a filosofia a estudantes. Descobri que alguns pura e simplesmente adoram desde logo a filosofia, e pensei que, se há estudantes assim, então deve haver também um público mais amplo. Mas poucos filósofos se deram ao trabalho de se dirigir ao grande público.

Por que razão pensa que isto acontece? Afinal, alguns dos melhores cientistas escrevem para o grande público.

É um problema relativamente moderno, claro. Nos séculos XVIII e XIX pessoas como Hume, Bentham ou Mill escreviam para o grande público e para os legisladores. A especialização da filosofia, e especialmente a importância crescente da lógica, conduziu ao isolamento da filosofia no princípio do século passado. Acho que ainda não ultrapassámos isso. Mas é claro que há autores como Kuhn e Rawls cuja obra extravasa para a praça pública. Mesmo assim, são sempre necessárias introduções claras à filosofia.

Como vê a filosofia? É algo sem qualquer ligação com o mundo e as preocupações das pessoas comuns?

Nem pensar. Concebo a filosofia apenas como algo que tem por ocupação reflectir sobre as categorias gerais com que pensamos — categorias como a verdade, a razão, a demonstração, o conhecimento, a liberdade e assim por diante. Penso também que a nossa reflexão sobre essas categorias pode alterar a maneira como as usamos. Por exemplo, se pensarmos que só a ciência produz conhecimento, iremos olhar de outra maneira para outras actividades, e politicamente podemos recusar-lhes fundos, etc., até que por fim é todo o perfil da nossa civilização que muda. Para referir um exemplo famoso, quando a Sr.ª Thatcher disse "A sociedade é coisa que não existe" estava a fazer uma observação filosófica (muito estúpida, por sinal), mas isso teve imensas consequências políticas, sociais e económicas.

Pense apresenta vários textos clássicos de Hume, Descartes, Kant e Schopenhauer, entre outros. Como vê a relação entre a filosofia e a sua história?

Excelente pergunta! Penso que as categorias que mencionei têm histórias, e sem compreender como chegámos onde estamos não teremos provavelmente uma ideia muito boa sobre que sítio é esse. Se pensarmos, por exemplo, na história de conceitos morais como o orgulho ou a honra, isso é perfeitamente óbvio. Mas é também verdade relativamente a outros conceitos mais gerais como a necessidade ou a racionalidade. Não vejo qualquer separação entre reflectir sobre as ideias e reflectir sobre a sua história. E é uma tolice fingir que podemos passar sem as nossas melhores tradições, o que implica estudar os seus melhores expoentes.

Mas o modo como apresenta as ideias desses grandes filósofos está longe de ser acrítica. Pelo contrário, entra em discussão crítica e racional com eles. Isso é habitualmente visto como um erro. Diz-se que cada filósofo tem razão no seu próprio domínio e da sua própria perspectiva. Tudo o que nos resta fazer é admirar a "coerência e a estética" dos seus sistemas de ideias.

Bom, e eu penso que isso é um erro. Do meu ponto de vista isso seria apenas uma tarefa de antiquário ou, na melhor das hipóteses, "história das ideias". Mas eu penso (como Dilthey e Collingwood) que não há uma boa história das ideias que não procure repensar as ideias — só compreendemos alguém quando nos imaginamos a fazer nossas as suas palavras. E isso exige comprometimento crítico e não desprendimento estético.

Mas isso implica fazer filosofia hoje. E não é isso uma ilusão? Não é a filosofia apenas uma coisa do passado?

Ilusório é pensar que podemos passar sem fazer filosofia. Excepto talvez a um nível muito básico da sobrevivência, as pessoas não podem passar sem auto-consciência, tal como não podem passar sem história ou literatura. Todas estas coisas fazem parte das nossas naturezas — se quiser, fazem parte das nossas tentativas de construir uma identidade para nós mesmos (e para os nossos países e povos, como é tão evidente na Europa hoje em dia). A única opção que temos quanto à reflexão filosófica é entre fazê-la bem ou fazê-la mal.

Mas como se pode fazer filosofia mal? É fácil ver como é possível errar em história da filosofia, dizendo que Platão escreveu as Meditações ou Aristóteles a Crítica da Razão Pura. Mas como se pode errar em filosofia? Não é a filosofia apenas "poesia conceptual", como Deleuze defendia?

Não — a menos que tomemos a poesia também muito seriamente, o que como é óbvio talvez seja realmente a melhor ideia. Mas a observação de Deleuze dá a ideia que a filosofia é uma actividade puramente decorativa, como os arranjos florais. Basta pensar no modo como os movimentos políticos tentam liquidar uma filosofia para ver que isso está errado. Considere, por exemplo, a enorme quantidade de filosofia que o movimento feminista tem produzido, para tentar compreender a construção dos géneros, as relações de poder, o essencialismo, a natureza diferenciada (ou não) da epistemologia feminina, tal como questões mais óbvias como a justiça social.

Não podemos então evitar a filosofia? Em que sentido?

Claro que em muitas ocasiões não estamos a filosofar, no nosso dia-a-dia. Mas nunca evitamos realmente o clima de ideias: ideias sobre o que é importante, sobre quem somos, sobre o que é apropriado, ou sobre o que tem valor. Se não reflectirmos sobre as nossas ideias, arriscamo-nos a ser escravizados por elas. Keynes disse que o homem prático, o homem de negócios, que se orgulha de não ser teórico, é na realidade escravo de um defunto economista qualquer. Analogamente, o céptico quanto ao projecto da filosofia arrisca-se a ser escravo de uma defunta ideologia qualquer: capitalismo, individualismo, libertarismo, ou outra coisa qualquer. Há sempre pessoas a dizer-nos como pensar, e a filosofia coloca as sugestões dessas pessoas em perspectiva.

Mas pode a filosofia realmente mudar alguma coisa? Afinal, as pessoas não aceitam ou rejeitam a existência de Deus ou o liberalismo só porque têm razões contra ou a favor dessas coisas. O que motiva as pessoas é o coração e não o cérebro.

Isso é muitas vezes verdade, e não há um antídoto simples para isso. Mas o hábito da reflexão e o escrutínio mesmo das nossas próprias ideias de estimação protege-nos contra algum pensamento caprichoso. Se pensar, por exemplo, em famosos exercícios de cautela como a discussão de Hume da crença em milagres, podemos ver como os hábitos mentais sóbrios e críticos podem contrabalançar emocionantes delírios e entusiasmos. A filosofia tem sido sempre dura relativamente ao dogmatismo e às soluções simplistas para os problemas da vida, mesmo quando gostamos de nos iludir com essas ideias.

Como vê o progresso da filosofia nos últimos 50 anos? Algumas pessoas pensam que é a idade mais produtiva e emocionante da história da filosofia.

Gostaria de pensar isso, mas eu seria também algo cauteloso, ao recordar a Atenas do século V a.C., ou a explosão de ideias no Iluminismo. Penso que o trabalho mais emocionante nos últimos 50 anos tem sido as férteis ideias sobre a verdade e o significado que se seguiram à morte do positivismo lógico. Tanto na Europa como na tradição anglo-americana o trabalho sobre o significado linguístico e o cepticismo quanto ao significado linguístico tem assistido à abertura de avenidas imensamente interessantes.

Mas o tipo de filosofia que faz não é positivismo lógico? Muita gente pensa que a filosofia anglo-americana é positivista lógica, com a sua rejeição da metafísica, da ética, da filosofia da religião e da estética.

Não, isso está ultrapassado. A filosofia anglo-americana incluiu a metafísica desde os anos 60. Dois dos mais distintos filósofos são David Lewis, da Universidade de Princeton, e Hilary Putnam, da Universidade de Harvard, ambos dos Estados Unidos e ambos sérios metafísicos. A ética e a filosofia política florescem igualmente, com batalhas aguerridas entre liberais como Rawls ou Richard Rorty e outros como Alasdair Macintyre ou Robert Nozick. Até alguma filosofia da religião tem o seu lugar, apesar de isso ser obviamente um interesse minoritário numa época largamente secular.

Em Thinks... David Lodge apresenta um romance sobre o pensamento e a mente e escolheu um título quase igual ao seu. Pensa que o lugar da mente e do pensamento na natureza é o problema central da filosofia actual, e a arena onde as duas culturas — a humanista e a científica — colidem?

Fiquei divertido quando vi o título, apesar de ainda não ter tido tempo para ler o livro. Mas sim, penso que há uma enorme tensão acumulada hoje em dia. O declínio do comunismo não parece ter deixado movimentos de ideias excepto nos extremos do capitalismo global e do individualismo possessivo. Penso que as pessoas reconhecem que precisamos de qualquer coisa mais, mas não é claro de onde virá isso ou que forma terá. Num clima assim há um interesse renovado na nossa herança humanista — penso que é por isso que o cepticismo e o niilismo dos recentes movimentos pós-modernos começaram a parecer tão insípidos e tontos, visto nada fazerem para responder a esta necessidade. Claro que não tem de haver uma oposição entre a ciência e as humanidades, excepto quando a ciência pensa poder esmagar-nos a todos sem prestar atenção às nossas identidades — que, como eu disse, quer dizer as nossas histórias e as nossas filosofias. É claro que também tem havido oposição à ciência da parte de filosofias românticas que advogam o regresso à natureza, mas também elas são muito insatisfatórias. O que importa é saber quando a ciência é amiga e quando é inimiga. Neste momento as pessoas têm medo que a ciência seja inimiga, mas há um mar de coisas que a ciência nos deu e das quais nunca iremos abdicar.

A melhor característica do seu livro é dar ao leitor a sensação do que é realmente pensar filosoficamente. É quase impossível não reagir a alguns dos seus argumentos.

É muito bom ouvir isso e agradeço-lhe muito que o diga. Sempre pensei que a melhor maneira de sentir a filosofia é fazer filosofia, tal como a melhor maneira de sentir a música é fazer música. Só assim se pode ver quão interessante e agradável essa actividade pode ser.

Texto publicado na revista Livros (n.º 22, Julho 2001)
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