Preferia que víssemos as pessoas religiosas... como fumadores
Entrevista a Daniel C. DennettClara Barata e Pedro Galvão
Daniel Dennett é um dos poucos autores verdadeiramente incontornáveis na filosofia da mente. Depois de estudar em Harvard e Oxford sob a orientação de Quine e Ryle, Dennett acabou por se fixar na Universidade de Tufts (Massachusetts) onde é professor e investigador há cerca de 30 anos. Por ora, apenas dois livros seus estão disponíveis em edições portuguesas: A Ideia Perigosa de Darwin e Tipos de Mentes, ambos na Temas & Debates, mas o último, Freedom Evolves, está a ser traduzido para português.
O segundo livro proporciona uma breve incursão pelos interesses filosóficos de Dennett, cuja influência na filosofia da mente se deve sobretudo às tentativas inspiradoras de alcançar dois objectivos: explicar a consciência e desenvolver uma teoria da intencionalidade, ou seja, da propriedade dos nossos estados mentais serem acerca de coisas. Opondo-se a filósofos como John Searle, Dennett advoga um modelo computacional da mente, rejeitando a ideia de que os aspectos mais importantes da consciência nunca poderão ser computados.
A Ideia Perigosa de Darwin, publicado em 1995, tornou-se instantaneamente uma obra de referência do pensamento darwinista: além de apresentar uma defesa robusta da teoria da evolução por selecção natural, Dennett discute as suas implicações em vários domínios do conhecimento e da vida humana. Stephen Jay Gould, Noam Chomsky e Roger Penrose são alvos privilegiados de crítica.
Dennett tem um estilo filosófico invulgar. Observa os padrões exigentes de rigor e objectividade que caracterizam a melhor filosofia da tradição analítica, mas exprime-se numa prosa bastante informal, frequentemente lúdica e até literariamente apurada. Além disso, possui uma cultura científica invejável em disciplinas como a biologia, a linguística e a inteligência artificial, o que resulta numa abordagem aos problemas que anula a possibilidade de traçar qualquer distinção nítida entre filosofia e ciência empírica. "A minha insistência na necessidade de os filósofos dominarem a ciência relevante antes de seguirem em frente", declara a este respeito, "e a minha recusa de conduzir as minhas investigações através do método tradicional da definição e argumentação formal, transformaram-me num filósofo da mente notavelmente impuro."
Dennett veio a Portugal pela quarta vez na semana passada, agora para proferir as Conferências Pedro Hispano 2004, organizadas por três unidades de investigação da Universidade de Lisboa: o Centro de Filosofia, o Laboratório de Modelação de Agentes e o Centro de Psicometria e Psicologia da Educação. Além de ter retomado a crítica a certas experiências mentais recorrentes na filosofia da mente, Dennett explorou o tema do seu último livro, "Freedom Evolves": o problema filosófico do livre-arbítrio. Com a clareza habitual e um grande sentido de humor, defendeu a compatibilidade entre o determinismo e a liberdade humana, tentando deixar claro que é na biologia, e não na física, que reside a chave para compreensão do livre-arbítrio humano.
O filósofo da mente Daniel Dennet esteve em Lisboa, para as Conferências Pedro Hispano deste ano, e falou sobre o seu próximo livro, no qual se dedicará a analisar a religião, usando técnicas vindas da biologia e, em particular, do estudo da evolução através da selecção natural, tal como foi estipulada por Charles Darwin. Por Clara Barata e Pedro Galvão.
A conversa surge naturalmente com Daniel Dennet, um filósofo norte-americano invulgar: usa a biologia e a evolução através da selecção natural para falar da consciência ou do livre-arbítrio. Mas neste momento está a fazer investigação para um livro sobre religião, e foi para aí que a conversa escorregou, por caminhos muitas vezes inesperados: da atitude perante a religião na União Soviética aos parasitas que controlam os seus hospedeiros, por exemplo.
PÚBLICO — Em que está a trabalhar actualmente?
DANIEL DENNET — Estou a escrever um livro sobre religião. Todos os problemas do século XXI têm uma dimensão religiosa. Para resolver problemas de desigualdade, pobreza, fome, degradação ambiental, não basta estudá-los nas dimensões físicas e geográficas, é preciso compreender as visões religiosas que para eles contribuem.
Qual é a sua abordagem?
Há muita investigação por antropólogos, sociólogos e historiadores, mas quase toda motivada por princípios ideológicos. Os investigadores inteligentes afastam-se de áreas sobrepovoadas de medíocres. Quem na posse das suas faculdades quereria ser um sociólogo da religião? É preciso que surjam pessoas de outras disciplinas, que revitalizem a área com novas perguntas.
Isto não significa que não haja trabalho bom, mas na antropologia há uma divisão profunda entre os que fazem antropologia física e os que fazem antropologia cultural. Claro que há uma base física para os fenómenos culturais. E os antropólogos culturais que se recusam a aceitar isto, que odeiam Darwin, são patéticos. Não podem ser levados a sério se não estiverem dispostos a fundamentar o seu trabalho na biologia. Não se podem negar as bases químicas do ADN, as bases genéticas da psicologia humana, nem as bases psicológicas dos problemas sociológicos e culturais. As questões são mais interessantes quando procuramos as origens.
O regresso da religião depois da queda do comunismo na União Soviética foi um fenómeno interessante, que não foi tão bem estudado como devia. Sugere que a abordagem comunista da religião era pouco eficaz. Se se acredita que a religião é o ópio do povo, é normal que seja ilegalizada, mas não é boa política. A proibição da religião foi equivalente às políticas proibicionistas do álcool e da droga nos EUA.
Está a fazer investigação para o livro?
Sou céptico em relação a questionários em que as perguntas têm sido interpretadas de uma forma algo ingénua. Fiz questionários sobre religião, com perguntas semelhantes, mas feitas num contexto diferente. Se der o resultado esperado, poderei mostrar que as pessoas exageram nas respostas em função da atitude que têm face ao questionário, e que isto pode ser manipulado. Isto pode arrasar muito do trabalho feito na Europa e nos EUA.
Diz-se que Deus está no cérebro...
Claro que tudo está no cérebro. Uma das hipóteses a considerar seriamente é que tenha havido selecção, na evolução, de uma sensibilidade à religião. Porquê? Há várias teorias.
Algumas aproximam-se de trabalhos meus acerca da "postura intencional", que é a táctica de tratar as coisas como agentes. Por vezes temos a tentação de pensar que as coisas têm opiniões e desejos: por exemplo, o tempo. Se rezar por chuva, ou encarar a tempestade como um inimigo, pensa no que poderá dar-lhe para a acalmar. Se o fizer, é a "postura intencional" em acção.
Alguns antropólogos dizem que este mecanismo hiperactivo de detecção de agentes teve um papel na origem da religião — das versões mais folclóricas, em que existem deuses, demónios e espíritos. Se entendermos as bases biológicas e psicológicas disto, poderemos compreender como se tornaram fenómenos culturais e deram origem à religião organizada.
A evolução do altruísmo e da cooperação é relevante para a religião. As práticas religiosas podem ter conduzido a uma maior coesão e eficácia dos grupos humanos, o que permitiu a actuação dos mecanismos da selecção. A partir daqui, as teorias vão em várias direcções.
Uma delas é a selecção de grupos, e esta é controversa e talvez duvidosa. Mas também pode ser selecção memética — determinadas ideias [memes] espalham-se como micróbios.
Um dos meus exemplos preferidos é o "Dicrocoelium dendriticum", um parasita de formigas que faz com que subam até ao alto de uma erva, para que sejam comidas por uma ovelha. Isto porque o parasita precisa de passar pelo estômago de um ovino para iniciar a fase seguinte do seu ciclo de vida. E há o "Toxoplasma gondii", que faz com que os ratinhos gostem do cheiro da urina de gatos, para facilitar serem comidos.
Estas manipulações do hospedeiro pelos parasitas são fenómenos muito poderosos. De igual modo, devemos encarar seriamente a possibilidade de que algumas ideias religiosas possam manipular os seus hospedeiros, para proselitizar, para penetrar noutros grupos. Vou analisar ideias deste tipo.
Tem alguma posição normativa em relação à religião?
Tenho muitos palpites sobre o que deveríamos fazer, mas a razão porque estou a escrever este livro é que, ao explorá-los, verifiquei que não tinha provas para os fundamentar.
É óbvio que a religião pode assumir formas tóxicas. Mas há outras formas que podem ser extremamente valiosas, e queremos distingui-las. Até compreendermos melhor estes fenómenos, é prematuro falar de política.
Não quero fazer julgamentos à partida. Acho que às vezes a religião é muito má, outras vezes fantástica. Muitas vidas ficariam empobrecidas sem a religião. Posso substituir a religião com algo de valor semelhante? Não. Sei de algo que compensasse as pessoas da sua perda? Não. Estão a ser exploradas? Nem por isso.
Não?...
Às vezes, sim, outras não. Em 1972 houve um documentário que ganhou o Oscar, sobre um americano, Marjoe, que aos cinco anos era o evangelista mais novo de sempre, fazia sermões sobre o Inferno. Durante a adolescência caiu em desgraça mas, pelos 30 anos, voltou a estabelecer-se como um pregador evangelista. Só que dessa vez era uma fraude.
Colaborou com uma equipa de filmagem, e levou-os a ver os bastidores das igrejas, a ver como as pessoas dão o dinheiro que têm. É um documentário poderoso e perturbador. A maioria destas pessoas era gente pobre, do sul dos EUA, e abriam as carteiras para o prato das esmolas, davam notas de dez, 20 dólares. Isto era criminoso, pensava eu. Mas depois também comecei a interrogar-me: 'Onde é que estas pessoas iriam gastar esses 20 dólares? O que poderiam comprar que lhes trouxesse mais felicidade, mais sentido à vida?' Não tenho muita certeza da resposta. É uma atitude paternalista, com a qual não me sinto confortável, por isso não a transformo numa afirmação. Mas é uma hipótese que me perturba.
Esperava que tivesse uma atitude mais radical, até porque manifestou o seu apoio aos Bright, um movimento ateísta, e por causa da sua amizade com o cientista britânico Richard Dawkins, que é muito anti-clerical...
Não aceito explicações sobrenaturais, acho que não fazem sentido. E acho muito importante, sobretudo nos EUA, que deixemos de ter uma atitude subserviente face à religião, como se as pessoas religiosas fossem melhores que as outras. Preferia que víssemos as pessoas religiosas... como fumadores. Pessoas que têm um problema, com as quais temos de ser tolerantes. Não temos de insultá-las, elas têm um problema, e quem tenha sido fumador sabe bem como é.
Eu e o Richard Dawkins concordamos em quase tudo, mas ele tem uma postura mais agressiva. Ainda bem, porque deve haver pessoas que digam as coisas como ele diz, mas não estou tão convencido dos efeitos perniciosos da religião.
Concordamos que crença religiosa é algo que, na melhor das hipóteses, é uma ilusão benigna. Mas todos vivemos com ilusões benignas: achamos que somos mais amados, mais bonitos, mais eficientes do que na verdade somos. E seria disparatado desatar a dizer a toda as pessoas gente a deprimente verdade sobre elas próprias. Não lhes faria bem nenhum.
E qual é o objectivo dos Brights?
Não fui eu que comecei o movimento, apenas chamei a atenção para ele [através de um artigo no jornal "The New York Times"]. O objectivo será encaixar na consciência dos americanos que há pessoas que não acreditam em Deus e que são simpáticas, que podem ser até seus amigos. Acho que passa por fazer para os Brights a mesma coisa que o termo "gay" fez para os homossexuais. Há 25 anos não podia haver "sitcoms" com personagens homossexuais, ou programas como "The Queer Eye for the Straight Guy", em que cinco homossexuais encantadores dão a volta ao estilo de um heterossexual para o tornar mais atraente. Esta mudança foi muito positiva. O mesmo aconteceria com mudanças na atitude da sociedade face às pessoas que não acreditam em Deus.
Em algumas partes dos EUA, isso já aconteceu: eu vivo em Boston, que é para os ateus aquilo que São Francisco é para os "gays". Mas se formos para o Midwest não é nada assim. Recebi muito correio depois do artigo sobre os Brights, centenas de cartas de pessoas que me agradeciam, dizendo que, se revelassem que esta era a sua atitude, perderiam o emprego. Alguém que tinha uma lavandaria dizia que, se revelasse que não acreditava em Deus, deixaria de ter clientes, outro que ninguém lhe compraria carros. E assim estas pessoas vão à igreja, têm de ir. Isto é muito mau.
Clara Barata e Pedro Galvão
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