O poder subversivo da filosofia analítica
Entrevista a Kevin MulliganDesidério Murcho
Nos finais do ano 2000 a pacífica e tumular Faculdade de Letras de Lisboa agitou-se. Houve cartazes riscados, comentários azedos, discussões bravas, gente a deitar as mãos à cabeça de incredulidade: um herético vinha fazer uma conferência. Mas não era uma conferência qualquer; era uma conferência intitulada "Why Continental Philosophy is Foolish: The examples of Heidegger and Derrida". Que homem era este que vinha de longe para levantar a dúvida e fazer-nos repensar no valor das ideias destas Autoridades do Pensamento? Isto era algo de inesperado — herético, até. Perigoso, mesmo. Não é óbvio que Heidegger e Derrida são Grandes Pensadores do século XX? Como Galileu que perante o "facto" óbvio de a Terra estar perfeitamente imóvel nos incita a olhar pelo telescópio Kevin Mulligan incita-nos a fazer um exercício subversivo: a pensar por nós próprios e a fazer uma pergunta simples perante os Grandes Pensadores: "Será que eles têm razão?"
É quando fazemos esta pergunta que percebemos, segundo Mulligan, que Heidegger, Derrida e outros filósofos que fazem a moda francesa do fim do século são pouco mais do que anedóticos — são incapazes de apresentar ideias que resistam à discussão crítica, têm uma compreensão pouco mais do que rudimentar dos problemas, teorias e argumentos da filosofia, e servem-se sobretudo da autoridade de frases obscuras que só servem para embotar as capacidades críticas dos seus leitores.
Mas na Faculdade de Letras de Lisboa, como em todas as outras do país, só os nomes de Heidegger e Derrida são suficientes para encolher qualquer um. A subversiva pergunta filosófica por excelência não ocorre à multidão de exegetas e interpretadores do "pensamento" destes autores; o exercício crítico é crítico apenas do ponto de vista filológico e comparativo, mas não filosófico: nunca se discutem realmente as ideias destas Autoridades do Pensamento. Mas isso foi precisamente o que este homem (que domina 5 línguas, é autor de uma vasta bibliografia, profere inúmeras conferências todos os anos e é Professor de Filosofia na Universidade de Genebra) nos veio obrigar a fazer: olhar criticamente, filosoficamente, as ideias das Autoridades do Pensamento. Fomos falar com ele.
O que o levou a pensar que filósofos continentais como Derrida e Heidegger eram maus filósofos?
A experiência de os ler no original e de ouvir os seus fãs do continente europeu. Eu também me interessava muito pelas origens da fenomenologia, pelas Investigações Lógicas de Husserl, pelo trabalho de pessoas como Reinach, Pfänder e Ingarden, e, recuando ainda mais, pela filosofia austríaca — Bolzano, Brentano, Meinong — e as relações entre o trabalho de todos estes autores e a filosofia analítica dos primeiros tempos. Qualquer pessoa que tenha alguma familiaridade com a fenomenologia dos primeiros tempos vê perfeitamente o que se passa com Heidegger, Sartre, Derrida, etc., e vê precisamente o tipo de tentações e armadilhas em que estes herdeiros da fenomenologia caíram. A doença já estava desde o início na fenomenologia, na sua doutrina da intuição das essências. Nas mãos dos primeiros fenomenólogos a intuição das essências não se destrambelhou. Na verdade, muitos dos problemas e até algumas das soluções da fenomenologia realista dos primeiros tempos encontram-se também na filosofia analítica. Mas a intuição das essências tornou possível uma forma irresponsável de fazer filosofia que conduziu ao trabalho mais tardio de Husserl e a Heidegger.
Mas não serão as suas críticas desadequadas? Talvez não esteja a dar atenção aos aspectos mais importantes do trabalho desses autores, aspectos que não se podem reduzir à lógica e aos argumentos. É algo mais profundo do que isso.
O próprio Derrida gosta de sublinhar que o seu trabalho está cheio de argumentos rigorosos. Apesar de Heidegger ter sido capaz de fazer uma exegese mais ou menos clara do que os outros filósofos escreveram, é raro encontrar qualquer tentativa de argumentação nos seus escritos. Não sei se ele alguma vez afirmou ter apresentado quaisquer argumentos.
Tenho a convicção firme que a reflexão filosófica não pode ser sempre conduzida através da elucidação e da argumentação cuidadosas. Muitas questões, muitas vezes vitais ou importantes, só podem ser enfrentadas de um modo mais ou menos ensaístico. Mas como Edmund Husserl e Robert Musil fizeram notar, ter ou não em mente o ideal de uma abordagem racional, argumentativa ou até científica é algo que faz uma enorme diferença. Em honra de Musil, que dedicou muita energia e esforço intelectual a remar contra a maré do irracionalismo dos anos 20 e 30, chamo "Exigência de Musil" à ideia de que o tratamento filosófico ou ensaístico de uma questão nunca deve ignorar o que de melhor se disse e pensou sobre essa questão. Como Musil disse, "Antes de saltares do trampolim da ciência vai até ao fim". Uma coisa típica de Heidegger, Derrida e outros do género é o facto de não satisfazerem a Exigência de Musil. Pense-se nos milhares de páginas em francês sobre, a favor e contra o estruturalismo ou o pós-estruturalismo de autores que não mostram qualquer interesse em compreender o que é uma estrutura!
Há muitas pseudo-ciências — Reiki, New Age, Astrologia, Tarot. Os cientistas denunciam-nas nos seus livros e conferências; pensam que isto é parte integrante do seu trabalho de cientistas. É isto que está a fazer? A denunciar o que entende ser pseudo-filosofia?
A pseudo-ciência e a pseudo-filosofia não têm muito em comum, excepto o "pseudo". Apesar disso, o uso errado da ciência e da terminologia científica na filosofia francesa e no pós-modernismo — recentemente denunciado por Sokal e Bricmont — mostra que há casos intermédios. Mas não penso que "denunciar" é a palavra correcta; prefiro "criticar". Sem dúvida que penso que devia haver mais filósofos analíticos a discutir o que dizem os filósofos pós-modernistas. Actualmente há pouquíssimas vozes críticas: Jacques Bouveresse, Hans Albert, John Searle e Paul Boghossian. Isto é muito mau. Talvez valha a pena mencionar os filósofos analíticos que defenderam alguns aspectos da filosofia continental: Ian Hacking, Bernard Harrison, Hilary Putnam e Tom Baldwin.
Acha que as pessoas que estudam Heidegger e Derrida deviam ser proibidas de o fazer? Pensa que o estudo destes autores devia ser banido das universidades, como aconteceu à Alquimia?
Claro que não! Que ideia tão tola! Mas penso que o hábito universitário de contratar seguidores de Heidegger e de Derrida para outros departamentos além dos de filosofia, como os departamentos de Literatura, deve ser criticamente examinado. Também não penso que o estudo desses autores deva ser banido. Penso que esses autores devem ser estudados e que os partidários de Heidegger e Derrida devem ser encorajados a responder às críticas. Infelizmente, isto é quase impossível. Os filósofos continentais não querem em geral discutir criticamente, apesar de as palavras "Crítica", "Kritik" e "Criticismo" estarem sempre nos seus lábios.
Mas não seria essa discussão ofensiva? Afinal de contas, os filósofos continentais levam isso a mal. Para os partidários da filosofia continental é irrelevante que os seus argumentos sejam bons; afirmar o que afirma é algo que não devia ser permitido.
Claro que qualquer pessoa pode considerar qualquer coisa ofensiva. Mas um filósofo que não esteja preparado para discutir as suas ideias é uma criatura muito estranha. Claro que a raiz do problema é que em França, na Alemanha e em muitos países latinos os filósofos que não são analíticos já não sabem o que é discutir. Encaram muitas vezes qualquer crítica a uma ideia de que gostam como uma crítica a si próprios. Parecem ter esquecido o que é o "psicologismo" — apesar de a fenomenologia ter começado com uma crítica do psicologismo.
Mas não será inútil a sua discussão dos filósofos continentais? É um pouco como a discussão de Sokal, que não conduziu a nada.
Não sei se a minha discussão é inútil. Mas não concordo que a discussão de Sokal tenha sido inútil. Penso que o trabalho de Sokal e Bricmont teve um efeito salutar em França. Penso que há razões para pensar que muitos francófonos acharam as demonstrações de Sokal e Bricmont humilhantes. É importante não esquecer que os franceses dão muita importância aos intelectuais!
Como reagiria se alguém aparecesse no seu departamento e apresentasse uma conferência intitulada "Why Analytical Philosophy is Foolish: The example of Frege"?
Iria assistir à conferência e discutiria com ele as suas ideias. Eu entendo "foolishness" ("tolice") como uma indiferença, ou pior, perante valores cognitivos. Acho que não há ninguém que pense que Frege era tolo neste sentido. Muitos filósofos pensam que Frege estava enganado em relação a muitas coisas mas, tanto quanto sei, ninguém pensa que ele era tolo.
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