Pense: Uma introdução à filosofia, de Simon Blackburn
Tradução de António Infante, António Paulo da Costa, Célia Teixeira, Desidério Murcho,
Maria de Fátima St. Aubyn, F. J. Azevedo Gonçalves e Paulo Ruas
Revisão científica de Pedro Santos e Desidério Murcho
Gradiva, Junho de 2001, 320 pp.
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Excerto
Críticas: Revista Livros · Jornal Público
Crítica do jornal Público
Os cépticos mais empedernidos quanto ao valor da reflexão filosófica encontrarão neste "Pense — Uma Introdução à Filosofia", de Simon Blackburn, as melhores razões para rever a sua opinião. Indispensável pensá-lo.
"Não gosto da imagem da Filosofia como a de todos aqueles gregos vestidos de toga, muito separados da vida quotidiana. Penso que a Filosofia é simplesmente a reflexão sobre os conceitos que usamos: toda a gente está envolvida, num grau maior ou menor, na actividade filosófica. Acho que a Filosofia não se devia apresentar sempre de gravata, devia descer à rua." Há cerca de quatro anos, numa entrevista ao PÚBLICO a propósito da publicação do seu "Dicionário de Filosofia", foi assim que Simon Blackburn deixou bem claro o seu interesse pela divulgação filosófica. Com "Pense", Blackburn regressa às livrarias portuguesas, reafirmando tal interesse com uma notável introdução à filosofia.
O livro, que é já um sucesso editorial em Inglaterra e nos Estados Unidos da América, não se reduz a uma simples exposição elementar de teorias filosóficas. Exemplifica a própria actividade filosófica, pois em cada um dos seus oito capítulos Blackburn avalia as teorias que apresenta examinando os argumentos que pretendem suportá-las. E, ao fazê-lo, incita constantemente o leitor a pensar. Neste aspecto, "Pense" assemelha-se significativamente a "Os Problemas da Filosofia", embora não seja tão pessoal como o clássico de Bertrand Russell.
É claro que não estamos perante uma obra de história da Filosofia, mas "Pense" está longe de passar ao lado dos autores consagrados da tradição ocidental. Descartes, Locke, Leibniz, Hume e Kant são filósofos a quem Blackburn recorre muito frequentemente, mas não o faz para impressionar o leitor ou suscitar nele uma atitude de reverência passiva. As ideias dos clássicos são introduzidas de uma forma vívida e acessível, os seus argumentos são reformulados de modo a revelar explitamente a sua estrutura básica e as passagens citadas são cuidadosamente esclarecidas. Deste modo, torna-se nítida a importância das teorias dos grandes filósofos, bem como a necessidade de estas não se furtarem ao exame crítico. Na verdade, quem ler este livro introdutório poderá depois "ler com prazer e uma razoável compreensão muitas das obras dos grandes pensadores, obras que de outro modo são desconcertantes".
Blackburn foi tão criterioso na escolha dos clássicos a privilegiar quanto na selecção das questões que a estruturam. Podemos dizer que não esqueceu nenhuma das grandes questões que estabelecem a identidade da Filosofia desde a sua origem até aos nossos dias. No primeiro capítulo, ocupa-se do problema dos fundamentos do conhecimento, tomando as "Meditações" de Descartes como principal ponto de referência. Os capítulos seguintes incidem no problema da relação entre a mente e o corpo, no problema de saber como é possível o livre-arbítrio, em várias questões sobre a natureza do eu e no debate sobre a existência de Deus. Encontramos depois um capítulo sobre a natureza do raciocínio que consiste numa introdução informal à lógica. Nos dois últimos capítulos, Blackburn conduz-nos a alguns dos problemas filosóficos mais proeminentes relativos ao mundo físico e ao raciocínio sobre questões práticas.
Dado existirem conexões bastante fortes entre vários capítulos, sobretudo entre os cinco primeiros, a melhor coisa a fazer com "Pense" é lê-lo de uma ponta à outra para assim se apreciar devidamente o percurso proposto por Blackburn. No entanto, qualquer um dos capítulos é suficientemente claro para poder ser lido à margem dos outros sem suscitar grandes dificuldades acrescidas de compreensão. Este livro, aliás, contraria a ideia de que só é possível começar a pensar seriamente nas grandes questões filosóficas após anos de estudo intenso.
Simon Blackburn é professor na Universidade de Cambridge e escreveu alguns dos livros mais influentes na Filosofia contemporânea de tradição analítica, como "Ruling Passions", que desenvolve uma teoria da razão prática. Já este ano publicou "Being Good", uma introdução à Ética que tem sido muito aplaudida — note-se que uma boa obra deste género é algo ainda não disponível nas nossas livrarias. E já agora note-se também que o prestígio de Blackburn como filósofo não o inibe de se empenhar em tornar a Filosofia acessível ao grande público. Curiosamente, os académicos portugueses parecem ainda considerar desprestigiante o envolvimento na divulgação, vá-se lá saber porquê...
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