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Elementos de Filosofia Moral
24 de Janeiro de 2004 · Filosofia Aberta

Elementos de Filosofia Moral, de James Rachels
Tradução de F. J. Azevedo Gonçalves
Lisboa: Gradiva, Janeiro de 2004, 316 pp., € 15,50
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Este livro inclui-se na categoria daqueles cuja publicação em língua portuguesa é urgente. Fazem parte desta categorias todos os livros que, se (ou quando) publicados, constituem instrumentos de uso obrigatório para quem ensina e aprende filosofia em Portugal. Há muitos livros que não estão publicados cá e que pertencem a esta categoria, como, por exemplo, Ethics de H. J. Gensler ou, para dar outro exemplo, Philosophical Problems and Arguments de James W. Cornman, Keith Lehrer e George S. Pappas; e outros que, sobretudo graças à colecção Filosofia Aberta da Gradiva que publicou livros como os Elementos Básicos de Filosofia de Nigel Warburton e Pense de Simon Blackburn, vão sendo publicados no nosso país. No entanto, a lista de livros de filosofia, sobretudo da tradição filosófica anglo-saxónica, que pertencem a esta categoria é imensa e é lamentável que o trabalho louvável e bem sucedido da Gradiva não esteja a ser acompanhado por outras editoras portuguesas. A única justificação para esta forma de proceder parece estar na imensa influência que a tradição francófona da filosofia tem sobre o meio editorial português, que o leva a preferir publicar as últimas produções da moda filosófica francesa, ou clássicos como Platão ou Descartes, de cuja obra já existem várias versões publicadas por várias editoras, a publicar obras de interesse evidente e sucesso garantido, uma vez que, devido ao seu carácter introdutório, são úteis para os professores e estudantes do ensino secundário e dos primeiros anos da universidade, e para todos aqueles que, por mera curiosidade ou interesse profissional, desejem, sem ter de se tornarem especialistas, conhecer os principais problemas e teorias do pensamento filosófico contemporâneo. Consigo perceber, como efeito da inércia intelectual, esta atracção pela filosofia de língua francesa nos intelectuais portugueses, mas confesso a minha incapacidade para perceber a atitude dos editores que, por terem também outras preocupações, deveriam ser capazes de perceber imediatamente as vantagens de publicar obras como as que acima referi. É lamentável que assim aconteça, porque com isso todos ganhariam: os editores, o público, o país, a filosofia e os filósofos portugueses. Os primeiros venderiam mais; o público teria acesso a obras que elevariam a sua instrução e capacidade de crítica, análise e decisão; o país ganharia pela mesma razão; e a filosofia e os filósofos passariam a ver o seu trabalho considerado de outra forma pela sociedade, que de um modo geral tem uma ideia muito negativa do interesse e utilidade da filosofia.

Este ponto pode parecer àqueles que têm com a filosofia uma relação distante e hostil ― com frequência devido à experiência traumática que representou para eles a disciplina de Filosofia no ensino secundário ―, impossível, mas é o que o livro de James Rachels permite constatar. No primeiro capítulo do livro que tem por título "What is morality?", Rachels caracteriza a moralidade. Mas ao fazê-lo recorrendo a casos reais como os da bebé Teresa e da bebé Jane Doe, Rachels mostra também que existem situações complexas e difíceis que exigem respostas éticas reflectidas e que, portanto, a moral constitui um campo não só legítimo mas inevitável de investigação, cujo interesse e importância não se confina aos círculos filosóficos onde é discutida e se estende à sociedade em geral.

Nos restantes capítulos do livro, Rachels apresenta e discute de forma crítica mas acessível as correntes ou teorias principais da ética. O relativismo, o subjectivismo, o egoísmo ético, o utilitarismo, a ética kantiana, a ética da virtude, etc., são assim abordados e o livro no seu todo constitui por isso uma introdução bastante completa à ética. Mas ele não se limita a apresentar as teorias éticas. Mostra ao mesmo tempo as suas insuficiências e como, apesar disso, essas teorias têm aspectos positivos, a ter em conta numa teoria moral satisfatória. É este o objectivo do último capítulo do livro, que constitui uma espécie de súmula do que a análise revelou ser importante que uma teoria ética possua. Tudo isto numa linguagem cuidada, clara e de fácil compreensão, mesmo por aqueles para quem as questões éticas são uma completa novidade. Um livro que é uma introdução preciosa à filosofia moral e cuja publicação no mercado português constituiria um sucesso comercial garantido.

Originalmenet publicado em Filosofia e Educação (2002).
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