Que Quer Dizer Tudo Isto?
Uma iniciação à filosofia, de Thomas Nagel
Tradução de Teresa Marques
Revisão Científica de Desidério Murcho
Gradiva, Novembro 1995, 92 pp.
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Excerto
Críticas: Revista Filosófica de Coimbra · Jornal Público
Crítica do jornal Público
Ao inaugurar a sua colecção de Filosofia com o nome "Filosofia Aberta", excluindo naturalmente outras filosofias, a Gradiva comprometeu-se com uma opção que importa congratular, nem tanto por ser esta a opção ou qualquer outra, mas por afirmar à partida uma personalidade própria. Publicar em português a pequena obra de Thomas Nagel, Que Quer Dizer Tudo Isto? ("What Does It All Mean?"), talvez tenha sido a melhor forma de exemplificar e transmitir o significado desta escolha.
"Filosofia Aberta", por um lado, porque nos traz um discurso em linguagem muito acessível, em que o narrador se identifica com o autor e trata o leitor por "tu"; e, em contrapartida, um rigor argumentativo, exercício heurístico de questionamento objectivo e pensamento crítico sobre determinados problemas filosóficos. Como o subtítulo diz, trata-se de "Uma Iniciação à Filosofia", ou seja, ao pensar filosófico e não ao pensamento filosófico, história das ideias, pleno de referências a autores e a um aparato terminológico incompatíveis com uma leitura descomprometida, fácil e cativante. Abertura, por outro lado, por Nagel apresentar nove problemas clássicos da Filosofia, menos no sentido de lhes dar solução mas sobretudo de os deixar em aberto, estimulando a participação do leitor na sua discussão. Qualquer uma das questões é um convite ao pensar filosófico e, no seu conjunto, valem como uma iniciação.
Quanto aos problemas, um primeiro prende-se com a possível injustificabilidade do nosso conhecimento quando confrontado com a dúvida céptica. Não se trata de destruir o conhecimento, mas de testar os limites da sua certeza. O conhecimento e a realidade do mundo exterior e das memórias da vida interior não resistem à dúvida — podem afinal ser apenas o produto de um sonho cartesiano. Sobrevive, no entanto, a certeza do momento presente que a cada instante é vivido por cada consciência.
Tentar estender esse núcleo adimensional aos restantes domínios da crença conduz inevitavelmente ao fracasso de uma circularidade viciosa. Se já é problemático saber se presença do outro corresponde um outro "eu", à minha semelhança, importa também saber em que consiste um "eu", uma consciência, uma alma, em contraste com um corpo? A questão está em voga: entre dualismo e monismo. Será possível demonstrar o erro de Descartes? E se não, conceber-se-á uma vida "post-mortem"? Não será esse o sentido da vida, a haver algum? E o da morte, é o avesso do da vida ou há algo mais? A propósito da experiência da morte, diz Nagel: "O medo da morte é enigmático de um modo que o desgosto pelo fim da vida não é" (pág. 86). Afirmar esta diferença e não supô-la simplesmente talvez seja tomar já o sentido como realidade, ainda que enigmática.
Ou talvez não. As últimas palavras de Nagel nesta obra são: "Se a vida não é real, se não é séria, e o túmulo é o seu objectivo, talvez seja ridículo levarmo-nos tão a sério. Por outro lado, se não conseguirmos evitar levar-nos tão a sério, talvez tenhamos, pura e simplesmente, de aceitar o facto de sermos ridículos. A vida pode não só não ter sentido, como também ser absurda." (pág. 92). O absurdo decorre da ausência de sentido, mas apenas por nos levarmos a sério quando nada é sério, ou seja, por termos necessariamente de perguntar: "Que quer dizer tudo isto?"
Alguns reparos podiam ser poupados à tradutora, aliás estreante, se a revisão do texto tivesse sido mais cuidada. Uma confusão entre "de mais" e "demais" em "este grau de imparcialidade parece exigir de mais à maior parte das pessoas" (pág. 64); uma insistente não concordância entre sujeito e predicado que ocorre pelo menos quatro vezes (por exemplo, nas pp. 10, 61); e também na pág. 10 uma frase que revela, no contexto, um sentido absurdo: "Afinal, não existe provavelmente nada que a maioria dos filósofos pensem acerca destas questões." Os filósofos pensam acerca das questões muitas coisas, o que não existe é acordo entre isso que pensam.
André Barata
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