Dicionário de Filosofia, de Simon Blackburn
Coordenação da edição portuguesa de Desidério Murcho
Tradução de Desidério Murcho, Pedro Galvão, Ana Cristina Domingues, Pedro Santos, Clara Joana Martins, António Horta Branco
Revisão Científica de António Franco Alexandre, João Branquinho, Fernando Ferreira, Ana Isabel Simões, M. S. Lourenço, José Trindade, Santos, Maria Leonor Xavier
Gradiva, Maio 1997, 487 pp.
Consultoria da edição brasileira de Danilo Marcondes
Jorge Zahar Editor, Setembro 1997, 437 pp.
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Entrevista
Críticas: Crítica do Independente · Crítica do Público
Crítica do Público
O "Dicionário de Filosofia" da Gradiva tem as marcas do seu autor, Simon Blackburn, insigne filósofo inglês, que foi director da prestigiada revista Mind e autor de várias obras filosóficas de referência, sendo actualmente professor na Universidade da Carolina do Norte. O seu dicionário, fiel à definição de Filosofia que dá, no Prefácio — "A filosofia é o pensamento humano tornado autoconsciente" — abrange grande número de termos em que se expressa esse pensamento (da religião à ciência, da arte à lógica, da matemática à ética ou às ciências humanas), não estabelecendo fronteiras entre o oriente e o ocidente (entradas sobre conceitos e autores do mundo árabe, hindú ou chinês coexistem ao lado de conceitos e autores em que se esgota, quase sempre, nos dicionários e obras de síntese, a denominada "filosofia" identificada exclusivamente com um certo tipo de pensamento ocidental). Mas, Blackburn, consciente da ambiguidade e polémica, que atravessa a prática filosófica, a exigir longas e penosas investigações só acessíveis a especialistas e avessa a definições rápidas e sínteses cintilantes, opta por indicar as balizas mais importantes da reflexão filosófica e os pontos de disputa (quando os há).
O resultado é uma obra em que se manifestam, muitas vezes, os pontos de vista e os interesses do seu autor, que não se exime a jogos de ironia (o ataque não muito disfarçado a certos pensadores franceses dos nossos dias) e revela a sua orientação filosófica através do número de entradas que contemplam temas e autores da filosofia anglo-saxónica contemporânea, não prescindindo de estabelecer pontes entre os mais profícuos domínios da investigação (da teoria dos jogos à linguística, da narratologia à mecânica quântica, da psicologia à matemática ou à lógica). É nestes domínios que o dicionário de Simon Blackburn é de uma utilidade inestimável permitindo o acesso fácil a alguns dos mais eminentes filósofos e pensadores contemporâneos de que sintetiza a obra e o pensamento ao mesmo tempo que oferece entradas temáticas que abrem caminho a um conhecimento aprofundado das suas obras e são um apelo ao incremento da curiosidade (veja-se, por exemplo, "escaravelho na caixa" ou "gato de Schrondinger" ou "problema de Monty Hall").
Os efeitos gerados não desmerecem os objectivos visados pelo autor, constituindo-se este dicionário como uma obra lúdica (o prazer de saltar entre as entradas), como uma fonte informativa rica e variada e, também como uma obra de referência. Isto não impede que relativamente a alguns conceitos chaves da filosofia (entre outros, "epochê", "transcendental") e alguns autores (Derrida, Ricoeur, etc) as explicações resultem incompletas e truncadas (nomeadamente uma bibliografia desactualizada).
A tradução portuguesa manifesta cuidados inabituais neste tipo de trabalho: uma cuidadosa revisão científica a cargo dos melhores especialistas portugueses; um glossário inglês- português; a participação do próprio autor que teve como efeito, como ele teria referido, que "num certo sentido esta seja uma edição melhor do que a original".
Linda Santos Costa
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