A filosofia devia descer à rua
Entrevista a Simon BlackburnJoão Tiago Proença
O "Dicionário de Filosofia" consta de 500 páginas escritas com muito humor e que abrangem não só tópicos tradicionais, mas também entradas como "cócegas", "licencioso" ou "sexo". Trata-se de uma obra recente, cuja edição original foi publicada em 1994. O livro tem 2500 entradas e cobre áreas confinantes com a filosofia e tão distintas como a matemática, a linguística, a física, a biologia, a inteligência artificial, o direito, a teoria da decisão, a teologia e a arte. Inclui ainda uma cronologia e um glossário inglês-português.
Simon Blackburn nasceu em Inglaterra onde ensinou no Pembroke College de Oxford. Actualmente é professor na Universidade da Carolina do Norte (Estados Unidos). De 1984 a 1990, dirigiu a revista "Mind", órgão de particular relevância no mundo anglo-saxónico. Entre as suas publicações contam-se "Reason and Prediction" (1973), "Meaning, Reference and Necessity" (1975), "Spreading the Word"(1984) e "Essays in Quasi-Realism" (1993). O PÚBLICO foi entrevistá-lo.
Qual foi o seu objectivo ao escrever este dicionário de filosofia? Qual é a necessidade e o papel de um dicionário?
A filosofia está sempre a mudar. O melhor dicionário publicado em Inglaterra antes deste foi escrito há 20 anos. Por isso havia necessidade de um dicionário actualizado. Além disso, senti também que as antigas obras de referência eram muito secas, não têm humor, não têm muito do autor. Provavelmente porque são escritas por várias pessoas e coligidas posteriormente por um editor. Foi agradável escrever este dicionário sozinho.
Qual é o público-alvo do seu trabalho? O estudante que se inicia na disciplina ou um público generalista?
Acho que quem escreve um livro espera que toda a gente o leia. Penso que toda a gente devia estar interessada em ideias e a filosofia é sobre ideias.
Neste dicionário deparamos muitas vezes com referências científicas. Isso é uma estratégia para tornar a filosofia menos esotérica ou faz parte de um modo de entender a filosofia?
Isso vem muito da tradição inglesa e também americana. A filosofia praticada na nossa tradição está muito envolvida com as ciências. Há filósofos da biologia, da física, da matemática. Os filósofos estão habituados a usar os resultados científicos no seu próprio pensamento. A teoria dos jogos, por exemplo, transformou muitas teorias éticas. Há um entrelaçamento entre a ciência e a filosofia que achei importante enfatizar.
O seu dicionário tem muito humor. Isso é apenas uma maneira de atrair o leitor ou esse humor expressa uma concepção da filosofia como aquilo que vem depois de os problemas da vida já estarem resolvidos?
Nenhuma das coisas. Penso que o humor é uma coisa muito séria. Acho que é importante ter prazer com as ideias, pois isso permite ver como os diversos ângulos podem ser interessantes. Não me envergonho de ter acrescentado um pouco de humor. Espero que isso atraia as pessoas.
Mas isso não corre o risco de banalizar a filosofia?
Não gosto da imagem da filosofia como a de todos aqueles gregos vestidos de toga, muito separados da vida quotidiana. Penso que a filosofia é simplesmente a reflexão sobre os conceitos que usamos: toda a gente está envolvida, num grau maior ou menor, na actividade filosófica. Acho que a filosofia não se devia apresentar sempre de gravata, devia descer à rua.
Mas às vezes fica-se com a impressão de que o seu humor não é acessível ao principiante, mas o produto de alguém que conhece a história da filosofia e toma posição…
Bom, algumas piadas talvez sejam para especialistas, é verdade. Mas há outras para os principiantes, espero. Há algumas entradas bastante interessantes sobre sexo…
Mas o seu humor não é por vezes faccioso? A chamada "tradição continental" é frequentemente ridicularizada. Por exemplo, a entrada sobre Paul Ricoeur.
Sim, as entradas sobre Derrida, Ricoeur, Luce Irigaray. Eles têm uma grande reputação, especialmente em França, mas não creio que o seu trabalho seja muito atraente; é pretensioso. De facto não é muito atraente nem na forma nem no conteúdo. A forma mascara o facto de muitas vezes não terem conteúdo (risos).
Está satisfeito com a tradução para português do seu Dicionário?
Não posso dizer exactamente, não falo português suficientemente bem para saber. O que sei é que o Desidério Murcho [coordenador da edição portuguesa] foi extremamente cuidadoso. Encontrou erros e fez críticas positivas. Calculo que tenha sido bem feita.
João Tiago Proença
Reproduza livremente mas, por favor, cite a fonte.
Termos de utilização: http://criticanarede.com/termos.html.



