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Crítica: revista de filosofia
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Lógica, de W. H. Newton-Smith
Outubro de 1998 · Filosofia Aberta

Lógica: Um curso introdutório, de W. H. Newton-Smith
Tradução de Desidério Murcho
Gradiva, Maio de 1998, 265 pp.
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Críticas: Jornal Público · Revista Filosófica de Coimbra
Resposta a Henrique Jales Ribeiro

Crítica do jornal Público

Se alguém pensou que a lógica permitiria resolver de uma vez por todas os problemas filosóficos, estava enganado. No entanto, a lógica é um meio poderoso para representar e avaliar argumentos, e por esta razão é um instrumento importante para a investigação filosófica. Como a maior parte dos profissionais portugueses de filosofia continua a ignorar ou menosprezar a lógica, tendo isso consequências graves ao nível do ensino, a publicação de "Lógica: Um Curso Introdutório" é particularmente bem-vinda. Neste livro, o filósofo da ciência W. H. Newton-Smith apresenta-nos uma introdução à lógica que, para além de abranger todos os tópicos obrigatórios numa obra deste tipo, discute alguns dos aspectos mais controversos e interessantes das teorias actuais. Ao fazê-lo, Newton-Smith consegue deixar bem claro que a lógica, para além de ser um instrumento útil nas outras áreas fundamentais da filosofia, é ela própria um objecto de estudo fascinante capaz de "destacar fortemente questões filosóficas interessantes e importantes".

Mas afinal o que é a lógica? E para que serve estudá-la? A noção de validade dá-nos a chave para responder à primeira questão, pois a lógica é uma "tentativa sistemática para distinguir os argumentos válidos dos inválidos". Num argumento válido, se as premissas forem verdadeiras, isso garante- nos que a conclusão também é verdadeira, mas um argumento inválido não oferece tal garantia. Como a validade dos argumentos depende apenas da sua forma, e não do conteúdo específico das suas premissas e conclusão, é muito vantajoso criar linguagens artificiais que nos permitam formalizá-los, ou seja, representar claramente a sua forma e ignorar o seu conteúdo. A lógica produz essas linguagens, e dá-nos depois sistemas de regras de dedução que nos permitem avaliar os argumentos quanto à sua validade. Se formalizarmos as premissas de um argumento e, passo a passo, usarmos as regras de dedução até chegarmos à sua conclusão, teremos demonstrado que esse argumento é válido. É óbvio que o domínio das regras de dedução requer bastante exercício, e para além disso nem sempre é fácil representar as subtilezas da linguagem natural através dos recursos extremamente parcimoniosos das linguagens artificiais da lógica. No entanto, Newton-Smith inclui em cada capítulo um número considerável de exercícios de diversos tipos, o que permite ao leitor certificar-se de que compreendeu efectivamente o material teórico apresentado. Só é pena que os exercícios não estejam resolvidos. Caso contrário, o leitor atento não sentiria de maneira nenhuma a ausência de um professor, pois todo o livro está pensado de acordo com o ponto de vista de quem ainda não sabe nada de lógica. Alguns capítulos são bastante exigentes, mas mesmo nas passagens mais densas nota- se o cuidado de não introduzir qualquer noção técnica como se toda a gente já a conhecesse.

Quanto à questão do interesse do estudo da lógica, abordada oportunamente tanto no primeiro como no último capítulo, Newton- Smith revela uma posição bastante prudente: "os que esperam que a lógica melhore substancialmente a sua capacidade de raciocínio ficarão provavelmente desapontados". Embora admita ser possível que a lógica melhore as nossas capacidades de raciocínio, Newton-Smith prefere insistir noutra razão para estudá-la a um nível elementar. Em muitos casos, conseguimos distinguir intuitivamente os argumentos válidos dos inválidos, sendo essa capacidade semelhante àquela que nos permite distinguir intuitivamente as sequências de palavras que constituem frases da língua portuguesa das sequências de palavras que não o constituem. Ora, tal como a linguística explica esta capacidade ao formular claramente as regras que lhe subjazem, também a lógica explicita as regras subjacentes à identificação dos argumentos válidos. "Ao tornar explícitas as regras", declara Newton-Smith, "ficamos com um instrumento para pôr à prova os nossos juízos intuitivos. E isto pode ser importante, pois alguns argumentos usados em matemática pareciam válidos ao nível intuitivo, mas acabaram por revelar-se inválidos."

Este Curso Introdutório poderá melhorar a qualidade do ensino da lógica em Portugal. Além de estar isento de erros científicos, mostra claramente a relevância da lógica para o pensamento filosófico. Se o livro de Newton-Smith for tomado como referência na elaboração dos manuais de filosofia do ensino secundário, talvez estes deixem de apresentar tantas deficiências didácticas e tantos erros indisfarçáveis.

Pedro Galvão

Recensão originalmente publicada no jornal Público (3 de Outubro de 1998).
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