Lógica: Um curso introdutório, de W. H. Newton-Smith
Tradução de Desidério Murcho
Gradiva, Maio de 1998, 265 pp.
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Revista Filosófica de Coimbra
Resposta a Henrique Jales Ribeiro
Resposta a Henrique Jales Ribeiro
Estas linhas são uma resposta à amável e pormenorizada crítica de Henrique Jales Ribeiro à obra Lógica, de Newton-Smith, recensão publicada na Revista Filosófica de Coimbra (n.º 7, 1998). Começo por saudar a crítica e por acolher todas as observações que Henrique Jales Ribeiro achou por bem fazer, lamentando apenas que outras revistas portuguesas de filosofia não tenham seguido o exemplo de criticar e dar a conhecer a primeira edição portuguesa de um manual de dedução natural especificamente concebido para estudantes de filosofia. Impõe-se, todavia, algumas respostas a algumas das interessantes críticas avançadas por Henrique Jales Ribeiro, para esclarecimento do público, que sem esta resposta poderia ficar com algumas ideias erradas. A crítica de Henrique Jales Ribeiro é de saudar não apenas por não ter deixado passar em claro a edição da obra em questão, mas porque assume-se deste o início como uma crítica frontal, honesta e aberta. É este o espírito de abertura à discussão que faz falta à filosofia em Portugal e a minha resposta procura aprofundar este espírito de debate cordial, aberto e frontal, baseado no respeito mútuo e na consciência de que só o debate de ideias nos pode levar mais longe.
Escreve Henrique Jales Ribeiro:
A edição em apreço, que naturalmente começamos por saudar, parece merecer dois tipos de comentários diferentes, mas estreitamente relacionados. O primeiro diz respeito, evidentemente, ao próprio livro de Newton-Smith: à forma como ele explana a lógica simbólica desde a lógica das proposições não analisadas (ou lógica de primeira ordem) à lógica das relações
Este trecho pode fazer o leitor pensar que a lógica proposicional (a lógica das "proposições não analisadas") é a mesma coisa que a lógica de primeira ordem. Mas isto é falso. Só o cálculo de predicados (a "lógica das relações") pode ser de primeira ordem ou de ordem superior; a lógica proposicional não pode ser nem de primeira nem de segunda ordem. Por "lógica de primeira ordem" entende-se normalmente qualquer lógica cuja linguagem tome valores exclusivamente num domínio de indivíduos, por oposição a uma lógica de segunda ordem, cuja linguagem toma valores num domínio de classes de indivíduos, ou uma linguagem de terceira ordem, cuja linguagem toma valores num domínio de classes de classes de indivíduos.
Intuitivamente, uma frase como "Sócrates é alto" é uma frase susceptível de ser formalizada numa linguagem de primeira ordem, pois "Sócrates" é nome de um indivíduo. E uma formalização correcta seria Gn. Por outro lado, uma frase como "O tigre siberiano está em extinção" não é susceptível de ser formalizada numa linguagem de primeira ordem (excepto recorrendo a uma paráfrase), pois o nome "tigre" não é o nome de nenhum indivíduo particular, mas da classe dos tigres. Mas esta mesma frase é perfeitamente formalizável na lógica proposicional (sendo P uma formalização correcta), dado que a lógica proposicional, por não ter meios de expressão para referir indivíduos nem propriedades ou relações, nunca pode ser nem de primeira ordem nem de segunda: na linguagem da lógica proposicional só podemos formalizar proposições e não podemos traçar uma distinção entre indivíduos e classes de indivíduos.
Observa de seguida Henrique Jales Ribeiro que o livro em causa é proveniente de uma tradição filosófica alheia à tradição filosófica portuguesa e que,
Em consequência, os objectivos científico-pedagógicos desse livro podem não estar perfeitamente adequados à particularidade da situação portuguesa.
Esta questão tem um recorte um pouco impreciso e extravasa obviamente as questões intrinsecamente filosóficas ou lógicas, mas é extremamente importante e saúdo por isso a atenção de Henrique Jales Ribeiro a este aspecto fundamental. Na verdade, o esforço editorial português na área da filosofia é bastas vezes inglório por se publicar precisamente o que não valia a pena publicar, em detrimento do tipo de obras que poderiam seguramente contribuir para o desenvolvimento da qualidade do estudo da filosofia em Portugal. Como veremos, todavia, Henrique Jales Ribeiro está convencido de que este livro de Newton-Smith não terá sido a melhor escolha. Já iremos discutir os argumentos que sustentam esta posição. Mas é bom que se compreenda desde já que penso que Henrique Jales Ribeiro está redondamente enganado, apesar de todo o respeito que me merece a sua posição. Este livro poderá não ser a introdução ideal à lógica para o público português, mas qualquer outra introdução à lógica cientificamente competente que se tivesse escolhido teria precisamente as característias que Henrique Jales Ribeiro defende não serem as mais adequadas, ao passo que este livro tem características que o recomendam fortemente em detrimento de outras introduções à lógica mais prolixas, mais formais e, sobretudo, menos voltadas para os estudantes de filosofia.
Sobre o uso e menção, afirma Henrique Jales Ribeiro:
importa assinalar uma incorrecção grave, dado o seu destaque, numa nota do tradutor, na qual se afirma, correndo o risco de enganar o leitor desprevenido, que "Não se usam aspas ao mencionar símbolos lógicos. Uma vez que estes não pertencem à língua portuguesa, mas à linguagem da lógica, não podem nunca ser usados numa frase portuguesa, mas apenas mencionados." A conclusão, ou seja, a primeira frase, não é de modo algum verdadeira, ao contrário do que é suposto, uma vez que nada, a não ser razões de economia e de simplicidade, nos impede de usar aspas ao mencionar símbolos lógicos nos contextos da linguagem ordinária em geral.
A minha expressão foi infeliz, de facto, apesar de no contexto eu continuar a achar que o leitor percebe que não estou a afirmar que não se podem usar aspas, mas apenas que nesta obra não iremos usar aspas ao mencionar os símbolos lógicos, pela justificação apontada. Seria absurdo afirmar que não se podem usar aspas ao mencionar símbolos lógicos: vários livros as usam e na verdade o autor usava aspas na obra original da qual a presente edição constitui a tradução portuguesa revista. Em conversa com o autor sugeri-lhe que as abandonássemos por serem realmente inúteis, dado o argumento apresentado: não podemos confundir uso com menção ao mencionar símbolos lógicos pelo simples motivo de que não podemos realmente usá-los na linguagem corrente, mas apenas mencioná-los, pois a ela não pertencem. O autor aceitou este argumento, que aliás me foi apresentado pela primeira vez por Simon Blackburn, aquando da preparação da edição portuguesa do seu Dicionário. Mas a observação aguda do crítico é extremamente bem-vinda, pois mostra-me bem como uma simples nota esclarecedora pode conduzir o leitor a uma interpretação obviamente errada. Numa segunda edição essa nota será corrigida e em vez de "Não se usam aspas..." colocarei "Nesta obra não usaremos aspas..."
Afirma Henrique Jales Ribeiro:
Destaque-se, desde já, o peso excessivo das explanações teóricas do autor (por vezes, como acontece sobretudo nos capítulos seguintes, enchendo desnecessariamente o corpo do texto de fórmulas relativamente complexas para um não iniciado) que (se exceptuarmos os inevitáveis exercícios de aplicação) prescinde de quaisquer outros recursos pedagógicos aliciantes geralmente utilizados hoje em dia nas introduções à lógica. Este facto é uma constante ao longo do livro e, pedagogicamente, parece-nos ser pouco recomendável mesmo para alunos de um primeiro ano de licenciatura.
Esta observação pode levar o leitor a pensar que estamos perante um livro cheio de tecnicismos formalistas, inútil portanto para aprender lógica. Isto é falso. O livro é uma introdução elementar à lógica. E os parágrafos que o autor "perde" em explanações, ganha o leitor em compreensão. Fica-se a perceber perfeitamente bem o que é uma conjunção, uma condicional ou uma disjunção, a partir de exemplos da linguagem natural. Fica-se a perceber perfeitamente bem como se dá o fenómeno do argumento válido. O que não temos na obra de Newton-Smith é uma abordagem formalista da lógica, isto é, não se apresenta a lógica apenas como uma sequência de regras e de símbolos que se manipulam sem se saber muito bem o que se está a fazer. Esta é uma obra para estudantes de filosofia e a lógica é para a filosofia antes de mais um instrumento; uma vez que os filósofos, como toda a gente, usam a linguagem natural para exprimir as suas ideias e apresentar os seus argumentos, uma introdução à lógica para estudantes de filosofia tem de mostrar muito cuidadosamente como a lógica se aplica à linguagem.
Por outro lado, visto que o livro se dirige a estudantes de filosofia, é natural que algumas questões filosóficas vão surgindo ao longo das páginas. É assim que a condicional, que pela sua importância constitui um objecto de estudo intenso em filosofia da linguagem, não é apenas apresentada, mas explicada e defendida. Outros livros de lógica, mais formalistas, podem limitar-se a dizer ao estudante que a condicional é de certa maneira e não de outra; Newton-Smith mostra que há razões para ser desta maneira, mas não esconde as dificuldades filosóficas que esta matéria encerra. Isto tem também a vantagem de dar ao estudante a ideia realista de que a lógica não é uma disciplina acabada, sobre a qual nada mais resta dizer, mas antes que os fundamentos da lógica são na verdade filosóficos e que esses fundamentos merecem a nossa atenção crítica e a nossa discussão. Na verdade, foi com uma reflexão sobre esses fundamentos que a filosofia analítica se afirmou, no século XIX, com os trabalhos de Frege e Russell.
Afirma Henrique Jales Ribeiro:
No caso vertente e nos capítulos restantes, a importância conferida às explanações teóricas prende-se de modo geral (mas está longe de poder justificar-se inteiramente) com o relevo que tem para o autor o alcance da aplicação da lógica à linguagem ordinária (uma parte significativa dessas explanações aparece precisamente a justificar a relação entre a lógica como linguagem formal e cálculo proposicional, por um lado, e a linguagem e os raciocínios ordinários, por outro). Esta constatação remete-nos para outra limitação fundamental do livro de Newton-Smith: é que o alcance da lógica está longe de se esgotar numa tal aplicação, e, portanto, longe de consistir unicamente numa relação com a análise lógica da linguagem ordinária, e, não considerando a sua importância especial do ponto de vista matemático e/ou metamatemático, passa também, por exemplo, quer pela relação com as problemáticas da epistemologia e da ontologia (que são ignoradas de maneira geral pelo autor), quer, inevitavelmente, pela história da filosofia (cujo interesse é igualmente desprezado).
A lógica é um instrumento de múltiplas aplicações. Mas se há uma regra de ouro no ensino do que quer que seja é que não podemos ensinar tudo ao mesmo tempo. O aspecto mais importante da lógica enquanto instrumento filosófico é o seu poder de clarificação de avaliação crítica da argumentação filosófica. Essa argumentação é, obviamente, apresentada em linguagem corrente. Logo, ser capaz de aplicar a lógica à linguagem corrente é fundamental para poder usar a lógica como instrumento filosófico.
Por outro lado, os problemas ontológicos e epistemológicos nos quais a lógica desempenha um papel de relevo dependem de uma adequada compreensão da própria lógica. É impossível compreender, por exemplo, o chamado "paradoxo de Goodman" sem dominar adequadamente a lógica. Mas daqui não se segue que ao ensinar lógica tenhamos de referir todos os problemas filosóficos nos quais o domínio da lógica é fundamental. Corríamos o risco de escrever uma introdução à lógica tão prolixa que seria um desastre. Ou tão sinóptica e vaga que seria inútil — como é o caso da introdução à lógica de Philippe Thiry, Noções de Lógica, que além de ser um desastre pedagógico é um desastre científico e sofre de uma tradução deficiente.
Todavia, as afirmações do crítico são particularmente estranhas, pois o livro de Newton-Smith é, de todas as introduções à lógica existentes no mercado mundial, o que mais dá atenção a vários problemas filosóficos que a lógica pode ajudar a formular com mais clareza, além de ser o único que apresenta alguns aspectos importantes para o estudo da filosofia da linguagem, área onde o domínio da lógica é fundamental. Assim, Newton-Smith apresenta os seguintes temas, que geralmente não surgem em obras de introdução à lógica:
- A distinção entre frases e proposições
- A noção de operador de formação de frases e a distinção entre operadores verofuncionais e não verofuncionais
- Quantificadores numéricos
- Nomes e descrições definidas
- Teoria lógica da identidade
- Teoria lógica das relações
- Lógica intuicionista, modal e temporal
- O problema das atitudes proposicionais
- O problema dos adjectivos comparativos e dos advérbios
Nenhum destes temas costuma fazer parte das introduções à lógica correntes. Mas foi precisamente a sua inclusão na obra de Newton-Smith, entre outros factores, que me fizeram decidir por esta obra e não por obras como a de Forbes, por exemplo, ou a de Etchemendy. Ora, todos estes temas são importantes quer por constituírem questões muito discutidas na filosofia contemporânea, quer por constituírem aspectos que merecem alguns esclarecimentos nem sempre disponíveis nas introduções à lógica, quer por mostrarem a aplicação dos instrumentos lógicos à discussão filosófica.
Assim, dominar a teoria lógica das relações é hoje muito importante para poder compreender algumas discussões na área da metafísica, dado que o conceito de possibilidade relativa ou acessibilidade só pode compreender-se quando se sabe o que é uma relação reflexiva, transitiva e simétrica.
Dominar a teoria da identidade é também fundamental para compreender doutrinas hoje muito discutidas em metafísica, como a doutrina de Kripke da necessidade da identidade.
Os quantificadores numéricos são fundamentais para quem deseja estudar filosofia da matemática, pois exibem uma forma de reduzir os números a quantificadores.
O tema das atitudes proposicionais é um dos mais estudados hoje em dia em filosofia da linguagem.
A distinção entre descrições definidas e nomes próprios é condição de possibilidade para compreender a maior parte das questões hoje mais discutidas na filosofia da linguagem, como as teorias da referência.
A noção de operadores verofuncionais e não verofuncionais é fundamental para que o estudante compreenda que há muitos operadores de formação de frases na linguagem natural, mas que é fundamental distinguir esses dois grupos, o que lhe permitirá alcançar um maior rigor na expressão.
Finalmente, a abertura a outras lógicas, como a lógica modal, a intuicionista e a temporal, além da exploração de problemas relacionados com os advérbios e os adjectivos comparativos, é fundamental para que o estudante compreenda que a lógica não é uma disciplina acabada, mas algo que está ainda em aberto e que procura modelar o raciocínio corrente e a linguagem natural. Mas este é, precisamente, um aspecto fundamental da lógica que Henrique Jales Ribeiro parece desconhecer:
A lógica enquanto sistema formal, de facto, não necessitou para o seu desenvolvimento de modo algum da sua aplicação à linguagem ordinária; é uma particularidade meramente histórica, contextual, da filosofia analítica que esse desenvolvimento tenha passado, em parte, por ela; e nada nos garante que num futuro mais ou menos próximo continue necessariamente a passar por ela.
Em primeiro lugar, compreendo que se possa pensar, ao ler uma obra avançada de lógica, que todos aqueles símbolos nenhuma relação têm nem com a linguagem natural nem com coisa nenhuma. Mas isto é uma ilusão, que aliás é susceptível de ocorrer igualmente ao ler uma obra avançada de física: apesar de não parecer, essa obra trata ainda dos fenómenos do mundo físico. O mesmo acontece com a lógica. Apesar do grande desenvolvimento técnico dos últimos 50 anos, a lógica continua e continuará sempre a ser uma tentativa de modelar vários aspectos do raciocínio humano. E apesar de ser verdade que alguns desses aspectos dizem respeito ao raciocínio matemático, muitos outros aspectos dizem respeito ao raciocínio corrente. São considerações quanto à adequação da lógica para captar a linguagem corrente que conduzem à formação das lógicas da relevância; são ainda estas considerações que conduzem às lógicas livres; e o mesmo acontece com as lógicas intuicionistas e até com as modais. Se assim não fosse, aliás, dado que a lógica clássica é completa, consistente e independente, ninguém se daria ao trabalho de tentar superar as limitações da lógica clássica, apresentando outros sistemas de lógica, como as lógicas modais, intuicionistas ou livres. Se formos estritamente formalistas, como o Henrique Jales Ribeiro parece desejar, nada há para fazer assim que se apresentar um sistema de lógico completo. Ora, esse sistema lógico existe, desde o tempo de Russell, mas os lógicos continuam a procurar novas lógicas. Logo, é porque nem os próprios lógicos são estritamente formalistas: a lógica não é apenas um conjunto de símbolos e de regras num papel, mas a tentativa científica de modelar, para estudar com rigor, certos fenómenos linguísticos e inferenciais correntes.
Em segundo lugar parece que estamos perante uma confusão entre lógica enquanto objecto de estudo e lógica enquanto instrumento filosófico. Mesmo que a lógica enquanto objecto de estudo fosse susceptível de ser encarada de um ponto de vista puramente formal (o que não é verdade, como vimos) daí não se seguiria que deveria ser ensinada meramente como um formalismo oco a estudantes de filosofia. Para estudantes de filosofia, e para quem quer que seja que queira estudar filosofia com seriedade, a lógica é um instrumento tão imprescindível quanto a matemática é um instrumento imprescindível para fazer engenharia naval. Mas este carácter imprescindível da lógica como instrumento filosófico só pode ser defendido se pudermos usar a lógica para avaliar os argumentos e as afirmações dos filósofos.
Toda a recensão enferma, na verdade, de uma concepção formalista da lógica, desastrosa do ponto de vista didáctico e errada do ponto de vista científico. Leia-se:
o estudante de lógica deve ter bem presente, desde o início, não só a distinção entre fórmulas bem formadas e mal formadas, mas também que o conceito de fórmula bem formada é puramente convencional, isto é, relativo às regras de formação que são aceites no sistema em estudo; ele deve exercitar a sua imaginação lógica utilizando símbolos e regras diferentes dos símbolos e regras desses sistemas para poder compreender sistemas que não têm a mesma notação e, evidentemente, desenvolver a sua capacidade de abstracção.
Há trivialidades em que vale a pena insistir, por não serem imediatamente compreensíveis para o estudante; mas o carácter puramente convencional da notação não é seguramente uma dessas trivialidades. Qualquer estudante compreende em dez minutos que tanto podemos usar uma seta (→) para exprimir a condicional como uma ferradura (⊃). O que os estudantes têm dificuldade em assimilar é o raciocínio consequente e rigoroso; mas mudar de notação e de regras inferenciais em nada os ajuda a conseguirem interiorizar o modo lógico de pensar. Não é de admirar que alunos submetidos a um exercício puramente formal de manipulação de símbolos tenham dificuldades com a aprendizagem da lógica. Como afirma Henrique Jales Ribeiro:
A nossa experiência do ensino da lógica simbólica ao público elegido pelo livro de Newton-Smith (estudantes do primeiro ano de licenciatura) mostra que uma das principais dificuldades desse público é a sua falta (aparente pelo menos) de capacidade de abstracção quer no que concerne à notação lógica quer no que diz respeito à sintaxe e ao cálculo lógico em geral, a qual parece estar aliada a uma incapacidade manifesta de seguir justificações teóricas complexas da problemática lógica em estudo.
Não é de admirar.
Acontece que só de uma incorrecta compreensão da lógica emana esta insistência nos aspectos formais da lógica; do ponto de vista de uma correcta compreensão da natureza da lógica o que é realmente importante transmitir aos estudantes é o conceito de consequência ou de inferência válida, juntamente com a capacidade para pensar de forma consequente e para traçar inferências válidas. Se a lógica não for ensinada com estes objectivos em vista, bem podemos ensinar outro formalismo qualquer, como o formalismo da física, ou uma linguagem de programação como o C++. Formalismo por formalismo, tanto faz — e se os nossos estudantes de filosofia acabassem a licenciatura dominando o C++ teriam pelo menos saídas profissionais condignas, como programadores.
Um dos aspectos criticados por Henrique Jales Ribeiro foi a bibliografia minimalista. Mas isto acontece porque há duas noções inconciliáveis subjacentes à palavra "bibliografia". A concepção de Henrique Jales Ribeiro é provavelmente a conhecida: escrevemos um capítulo sobre o que quer que seja e temos de citar toda a bibliografia relevante sobre o tema. É este espírito que preside aos conhecidos programas universitários portugueses, que apresentam listas extremamente extensas de bibliografia, que obviamente não são para o estudante ler, mas apenas para o professor mostrar que conhece todas aquelas obras.
Obviamente, não é esta concepção de bibliografia que se cultiva na tradição analítica e, consequentemente, não é este tipo de bibliografia que encontramos nesta obra — nem em nenhuma outra das muitas introduções à lógica de qualidade disponíveis a nível mundial. Compare-se aliás com a já referida introdução à lógica de Thiry: no final da introdução, que tem 6 páginas e está repleta de erros científicos graves (como a afirmação temerária de que "A inferência é o raciocínio por dedução"!), somos brindados com uma bibliografia com 23 (!) títulos, entre os quais obras completamente inadequadas para quem quer que tenha lido as tristes 6 páginas da introdução: obras como o Organon de Aristóteles, Introduction to Symbolic Logic de Carnap, Introduction to Mathematical Logic, de Church (!), Mathematical Logic de Kleene (!!!), etc. Na obra de Newton-Smith só se indicam aquelas obras que o estudante poderá ler com proveito, depois de ter lido a obra que tem em mãos. Não se trata de alardear conhecimentos nem sequer de indicar as obras que se consultaram, mas de dar indicações bibliográficas que possam realmente ser lidas pelos estudantes.
Afirma Henrique Jales Ribeiro:
Deste ponto de vista, a introdução à lógica de Newton-Smith parece não corresponder inteiramente às necessidades reais, pedagogicamente falando, do seu próprio público português, já que, como se disse, a teoria nessa introdução ocupa por vezes um peso excessivo, e a exemplificação prática padece por ser escassa e pouco aliciante. Seguramente, o público anglo-saxónico de Newton-Smith não tem as mesmas dificuldades do público português, porque enquadra-se perfeitamente na mesma tradição de filosofia do seu autor. No nosso caso, a introdução à lógica de Newton-Smith parece ser muito mais recomendável para estudantes já licenciados, seja em filosofia seja em áreas afins ou complementares.
Será que os estudantes anglo-saxónicos são mais espertos que os portugueses? Claro que não. A diferença é que, ao invés de perderem tempo a exercitarem a abstracção estudando diferentes formalismos lógicos, como Henrique Jales Ribeiro defende, concentram a sua atenção no que é mais importante: aprender a raciocionar de forma consequente. Qualquer estudante médio que estude o livro de Newton-Smith, mesmo sem professor, fica a saber fazer derivações ao chegar ao fim do livro e com uma boa compreensão da lógica. Ao passo que com o método formalista não se obtém, claro, este resultado.
Por outro lado, ler textos de Russell ou Frege (prática inacreditável mas infelizmente habitual em cadeiras de lógica de alguns cursos superiores do nosso país) também não é o caminho adequado para aprender lógica — na verdade, para ler a maior parte dos escritos lógico-filosóficos de Russell e Frege já é necessário saber lógica. Ninguém aprende lógica lendo Frege ou Russell; aprende-se lógica estudando um manual como o de o Newton-Smith ou o de Forbes. Esta atitude de "ir ao texto", típica no meio filosófico português, tem aqui mais uma vez as graves consequências do costume: vai-se à fonte, ao grande texto clássico de Frege ou Russell, mas, porque não se tem a preparação para o poder ler com proveito, pouco mais se pode fazer do que papagueá-lo. Desafio o melhor estudante que tenha sido exposto a este tipo de ensino da lógica a resolver um exercício simples de lógica — e sei que ele não será capaz. E se não é capaz é porque não viu nem sentiu o que é na realidade o pensamento consequente e rigoroso: é talvez capaz de falar de longe da lógica, mas não a domina efectivamente, nem mesmo nos seus aspectos mais triviais. E esta é, na realidade, a grande diferença entre a abordagem analítica da filosofia e a abordagem mais corrente em Portugal: de um lado temos a verdadeira competência, do outro a capacidade para falar por alto do que não se domina realmente.
Saber lógica é saber fazer derivações. E porquê esta insistência nas derivações? Porque as derivações são formas rigorosas de modelar o raciocínio humano e portanto também o raciocínio filosófico. Uma vez que a diferença entre o verdadeiro pensamento filosófico e o pensamento quotidiano que as pessoas comuns têm sobre a vida e a morte e o destino último da humanidade consiste no facto de o primeiro, mas não o segundo, procurar ser consequente, o ensino adequado da lógica, tal como é agora possível com o livro de Newton-Smith, é fundamental para o incremento da cultura filosófica nacional.
Há muitos outros manuais de introdução à lógica. O mais usado hoje em dia no resto do mundo é o de Forbes (Modern Logic). Se escolhi o de Newton-Smith é porque é muito mais acessível e breve do que o de Forbes, ao mesmo tempo que apresenta muitos exercícios em que se aplica a lógica a argumentos filosóficos, expressos em linguagem "completamente natural", se me é permitida a expressão, e não naquela linguagem já pré-formalizada que tantas vezes surgem nos manuais de lógica. Se os estudantes só fizerem exercícios de lógica partindo de uma linguagem já pré-formalizada, não serão depois capazes de aplicar a lógica ao trabalho de avaliação crítica que se exige em filosofia — porque raramente nos textos dos filósofos encontramos essa linguagem pré-formalizada, em que todas as condicionais, conjunções e disjunções estão claramente formuladas, com todas as premissas explicitadas e com as conclusões no sítio certo.
Afirma Henrique Jales Ribeiro:
O alcance da lógica não consiste meramente na sua aplicação à linguagem ordinária, como se disse, mas também quer na aplicação às problemáticas da epistemologia e da ontologia, quer nas enormes vantagens que o seu conhecimento proporciona para o estudo da história da filosofia e da história da lógica em particular, quer ainda, finalmente, na aplicação a áreas interdisciplinares que conhecem hoje em dia um sucesso indiscutível, como a informática.
Acontece que para podermos aplicar a lógica ao que quer que seja, temos de saber lógica. E aprender lógica é algo que exige tempo de maturação, exercícios e concentração. A dispersão é um alçapão a evitar activamente. Além disso, qual é o interesse da aplicação da lógica à informática, para estudantes de filosofia? Mais uma vez, será que a ideia é pôr os estudantes de filosofia a aprender C++? No fundo, talvez Henrique Jales Ribeiro sinta falta, no livro de Newton-Smith, daquela dispersão, vagueza e superficialidade próprias de outra tradição filosófica que não a analítica — o livro de Thiry, por exemplo, só em 6 páginas diz o que é a lógica (ou pretende dizer), fala da lógica no quotidiano (e é incapaz de apresentar um único caso de um raciocínio normal que qualquer pessoa faça todos os dias), refere a importância da lógica na circulação rodoviária (!) e cita passagens de vários autores, como De Morgan, Quine e Keynes. No fim de tudo isto falou-se vagamente de muita coisa, mas ninguém ficou a perceber claramente o conceito de validade, nem o que estuda a lógica. No livro de Newton-Smith percebe-se ao fim de 5 páginas o que é a lógica e o que é a validade. E não há citações de autoridades, nem uma bibliografia com 23 títulos.
Por outro lado, qualquer problema filosófico a que queiramos aplicar a lógica, como os problemas epistemológicos e ontológicos, pressupõem da parte do estudante não apenas o domínio da própria lógica, mas a capacidade para a aplicar à linguagem natural — pois é na linguagem natural e nas inferências correntes que surgem os problemas epistemológicos e ontológicos que são susceptíveis de serem clarificados recorrendo à lógica.
Por exemplo: um dos problemas ontológicos mais discutidos na filosofia do século XX é a questão de saber o que são os números — existirão realmente como entidades autónomas, ou serão construções nossas? Pois bem, um dos instrumentos fundamentais para poder discutir esta questão são os quantificadores numéricos, apresentados por Newton-Smith.
Finalmente, Henrique Jales Ribeiro coloca em questão algumas das opções de tradução:
porquê dizer sistematicamente "sequente", quando a língua portuguesa dispõe da conhecida palavra "sequência", que tem a mesma significação e maior pertinência linguística?
Por dois motivos: em primeiro lugar, porque é esse o termo técnico usado na comunidade matemática e lógica portuguesa. Em segundo lugar, porque a palavra que estamos a traduzir é "sequent" e não "sequence". A tradução correcta desta última, mas não da primeira, é realmente "sequência". Mas o termo técnico "sequente" não designa apenas uma sequência de fórmulas. Na verdade, não compreender isto é não compreender o que é um sequente. Um sequente é uma sequência de fórmulas que tem uma característica peculiar: algumas dessas fórmulas representam premissas e outras dessas fórmulas representam uma conclusão. Assim, nem todas as sequências de fórmulas constituem sequentes. A → B, A, B é uma sequência de fórmulas, mas não é um sequente; ao passo que
A → B, A
B, é um sequente. Qualquer sequente é válido ou inválido; mas nem todas as sequências de fórmulas são susceptíveis de serem válidas ou inválidas.
Diz ainda Henrique Jales Ribeiro:
E porquê dizer "conectivo", quando a palavra "conector" existe e essa pertinência é salvaguardada?
Por um motivo: na comunidade matemática e lógica portuguesa usa-se indiferentemente "conector", "conectivo" e "conectiva". Qualquer dos termos é correcto. Eu optei por um deles e apenas por um deles por razões de consistência. Mas tanto faz.
Diz ainda Henrique Jales Ribeiro:
E uma objecção, dos pontos de vista metodológico e filosófico, quanto à inclusão de um glossário inglês-português de termos lógico-filosóficos provenientes da tradição analítica.
Este glossário acompanha toda a colecção Filosofia Aberta e está a ser progressivamente elaborado com base no trabalho desenvolvido na Sociedade Portuguesa de Filosofia no âmbito da Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos. A sua inclusão nos diversos títulos da colecção visa oferecer ao leitor português uma noção dos equivalentes portugueses do vocabulário filosófico de língua inglesa. Não me parece que tal inclusão seja objectável.
Mas Henrique Jales Ribeiro continua:
Certas traduções apresentadas são muito discutíveis, se não mesmo, nalguns casos, erróneas, seja filosoficamente (é o caso, por exemplo, da tradução de "acquaintance" por "contacto", como se o conceito russelliano tivesse apenas conotações físicas, ou estas fossem essenciais para a sua definição), seja numa perspectiva propriamente linguística (para além das traduções já mencionadas acima, é o caso, desta vez, do preciosismo estilístico aparente que consiste na tradução de "vagueness" por "vagueza", ou da transfiguração de "set-theoretic hierarchy" em "hierarquia cumulativa de conjuntos"), outras são óbvias para um leitor minimamente informado (e, portanto, dispensáveis, como "spirit", "scope", etc.), e, sobretudo, nenhum critério para a escolha dos termos é apresentado ou sugerido (o que nos leva a duvidar da real utilidade ou interesse desse glossário).
No caso da tradução de "acquaintance" por "contacto", há dois argumentos a favor desta escolha. Em primeiro lugar, é a tradução corrente pelo menos em parte da comunidade filosófica portuguesa. Há pelo menos uma dissertação de mestrado, outra de doutoramento e alguns artigos no qual o termo em causa é assim traduzido. Em segundo lugar, é falso que "contacto" tenha apenas conotações físicas. Tal como o termo original inglês, usamos em português, na linguagem corrente a que Henrique Jales Ribeiro parece não dar importância, expressões como "O João tem vários contactos em Oxford". Isto não significa que o João tem apêndices físicos em contacto com Oxford, mas apenas que conhece pessoalmente várias pessoas em Oxford. Logo, a tradução é adequada.
Em qualquer caso, é injusto afirmar que a tradução é inadequada sem mais qualificações. Ainda que a tradução seja inadequada, ela não resulta de uma decisão mais ou menos arbitrária de um tradutor distraído, mas de um uso efectivamente seguido em parte da comunidade filosófica nacional — a comunidade congregada em torno de M. S. Lourenço, que introduziu a lógica e a filosofia analítica em Portugal e que orientou as primeiras dissertações académicas sobre temas analíticos e especificamente sobre Russell, tendo nomeadamente orientado a dissertação de mestrado e de doutoramento de Adriana da Silva Graça, onde o termo "contacto" traduz "acquaintance". Todavia, do modo como Henrique Jales Ribeiro apresenta a sua crítica, o leitor pode ficar com uma ideia errada acerca desta matéria, pensando que se trata de um caso de pura ignorância irresponsável. Ainda que haja erro ou inadequação na tradução, não é um erro que seja susceptível de envergonhar nem um profissional da filosofia como M. S. Lourenço ou Adriana da Silva Graça, quanto mais apenas um tradutor e um modesto investigador.
A propósito: Henrique Jales Ribeiro usa o galicismo "problemática" em vez do português "problema". Em português, "problemática" é um adjectivo e não um substantivo, como em francês. Pelo que em rigor não se pode dizer "problemáticas ontológicas", mas sim "problemas ontológicos", apesar de podermos falar de "ontologias problemáticas". Todavia, este é um erro constante nos escritos portugueses, pelo que Henrique Jales Ribeiro se limita a seguir uma tradição que está errada. Seria injusto imputar-lhe um barbarismo linguístico que é bastante comum.
O caso de "vagueza" não se trata de um preciocismo linguístico, mas de uma palavra portuguesa, habitualmente usada em pintura, mas que podemos perfeitamente usar no contexto da filosofia. Basta consultar um bom dicionário para o verificar. E seria interessante que Henrique Jales Ribeiro tivesse fornecido a sua contribuição para a tradução quer deste termo quer de "acquaintance", pois isso tornaria esta discussão mais interessante para o leitor. Infelizmente, não o fez.
Por outro lado, Henrique Jales Ribeiro traduz "ordinary language" por "linguagem ordinária", o que é um anglicismo desnecessário. Em português, mas não em inglês, "linguagem ordinária" quer dizer "linguagem obscena". A expressão portuguesa que traduz perfeitamente bem a inglesa é "linguagem corrente" ou "linguagem comum". Por que razão usa Henrique Jales Ribeiro a expressão "linguagem ordinária"? Não consigo conceber um bom argumento que defenda o valor intrínseco desta tradução.
Quanto a "set-theoretic hierarchy", a tradução apresentada é a usada pelos profissionais portugueses que trabalham na área da lógica e da matemática. Não me sinto competente para me pronunciar sobre o valor desta tradução. Qual será a proposta de Henrique Jales Ribeiro? É possível que a sua proposta seja melhor do que a apresentada, mas é improvável, pois Henrique Jales Ribeiro não é um especialista em teoria de conjuntos, ao contrário das pessoas com quem me aconselhei.
Henrique Jales Ribeiro parece pensar que o glossário foi respigado mais ou menos ao acaso e não em função de critérios claros e de um trabalho sistemático. O trabalho sistemático foi o desenvolvido na SPF, no âmbito da Enciclopédia, como já foi dito, mas também no âmbito da edição portuguesa do Dicionário de Filosofia de Simon Blackburn. Por outro lado, a inclusão de termos aparentemente triviais e óbvios ocorre sempre por um motivo preciso. Por exemplo, "spirit" ocorre porque há pessoas que traduzem sistematicamente "mind" por "espírito" (o que é um erro; só em alguns contextos completamente informais se pode fazê-lo), subjugadas que estão pela ideia de que os ingleses não têm uma palavra para "espírito". Eles têm-na e é por isso que esta palavra surge no glossário.
Quanto ao "scope", não é nada evidente que a tradução correcta seja "âmbito". Na verdade, há pessoas na comunidade matemática que usam o termo "escopo", que está obviamente errado, pois "escopo" significa em português "ponto de mira, alvo ou propósito" e não âmbito. É por isso que o termo surge no glossário.
Diz ainda Henrique Jales Ribeiro:
Mas a nossa objecção fundamental é que uma parte bastante significativa dos termos referidos não é sequer utilizada no próprio livro de Newton-Smith, quer dizer, os termos lógico-filosóficos em questão são citados de modo não contextual, e, portanto, qualquer tradução-padrão desses termos (como aquela que é oferecida no glossário) parece ser, por princípio, geralmente inadequada. Esta é uma lição instrutiva, como teremos de convir, quanto ao problema da significação no âmbito da própria filosofia analítica mais recente (Quine e a sua famosa "indeterminação da tradução"). A agravante, no que concerne a esse glossário, é que não se trata sequer de vocabulário usual, mas, evidentemente, de vocabulário filosófico.
Em primeiro lugar, na própria apresentação do glossário podemos ler isto:
Neste glossário listam-se não apenas os termos cuja tradução portuguesa se procurou fixar, mas também outros termos que o leitor pode encontrar na literatura filosófica escrita em língua inglesa, sem que no entanto saiba o seu equivalente português.
Não faz sentido criticar o glossário pelo facto de não ter apenas os termos usados nesta obra, pois o seu objectivo é mais vasto que isso, como é claramente afirmado. O glossário é um produto de uma investigação mais vasta, que inclui os outros títulos da colecção Filosofia Aberta e o trabalho desenvolvido em torno da Enciclopédia, como já referi. E não me parece que esse objectivo, apesar de infelizmente original em Portugal seja objectável. Afinal, trata-se de contribuir para a fixação da terminologia filosófica portuguesa.
Quanto à afirmação de que a tradução apresentada no glossário é geralmente inadequada por carecer de um contexto, só posso chamar uma vez mais a atenção para a génese do glossário, que quem acompanha a Filosofia Aberta bem conhece. Todos os termos que surgem no glossário resultam do trabalho desenvolvido quer nos diversos livros da Filosofia Aberta quer na Enciclopédia. A tradução destes termos é sempre o resultado do estudo de casos concretos. Compreenderia que a crítica fosse feita ao contrário: que certas traduções de certos termos, correctas nos contextos em que esses termos surgiram, revelam-se incorrectas noutros contextos. Mas a esta crítica eu respondo dizendo que o glossário é uma obra em aberto, sujeita a revisões constantes, e que não há outra maneira de redigir um glossário destes que não partindo de contextos particulares em que os termos ocorrem e depois verificar criticamente se, ao surgir noutro contexto, a tradução escolhida é ainda a adequada. E isso é o que se tem feito ao longo da Filosofia Aberta.
Resta o comentário de que a indeterminação da tradução de Quine de alguma forma desaprovaria a existência do glossário. Quanto a isto há dois aspectos a sublinhar. Em primeiro lugar, a doutrina de Quine é extraordinária precisamente por ser difícil de refutar mas igualmente difícil de aceitar, pelo que está longe de ser consensual ou um resultado definitivo em filosofia. Em segundo lugar, ainda que a doutrina de Quine fosse consensual, daí não se seguiria, claro, que os lexicógrafos deixariam os seus empregos, abandonando a produção de dicionários, léxicos e glossários. A doutrina da indeterminação da tradução de Quine refere-se a uma situação de tradução radical, e não à situação em que nos encontramos quando traduzimos do inglês para português — caso contrário, a doutrina de Quine seria trivialmente falsa.
Resta-me assegurar ao leitor que esta obra de Newton-Smith obedece aos mais altos padrões científicos e pedagógicos e que qualquer professor pode usar esta obra para ensinar lógica na universidade ou no secundário, com a garantia de que irá obter bons resultados. Na verdade, tenho conhecimento de alguns professores do ensino secundário que usam algumas secções — como as relativas às ambiguidades sintácticas e às formalizações na linguagem proposicional — com os seus alunos, obtendo excelentes resultados.
Todas sugestões e críticas são, como sempre, muito bem-vindas.
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