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A Última Palavra, de Thomas Nagel
Abril de 1999 · Filosofia Aberta

A Última Palavra, de Thomas Nagel
Tradução de Desidério Murcho
Revisão científica de Carlos João Correia
Gradiva, Fevereiro de 1999, 182 pp.
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Críticas: Disputatio · Jornal Público

Crítica do jornal Público

Com "Que Quer Dizer Tudo Isto?", a introdução à filosofia que a Gradiva escolheu para inaugurar a colecção Filosofia Aberta, o leitor português teve uma primeira oportunidade de conhecer Thomas Nagel. "A Última Palavra", o novo livro de Nagel que surge agora na mesma colecção, situa-se num nível mais avançado, mas também se apresenta numa linguagem clara e revela um vasto leque de interesses filosóficos.

Ao contrário de muitos outros filósofos analíticos, Nagel recusou especializar-se num campo de investigação bem definido. Essa, aliás, é uma das suas melhores características. Em "A Última Palavra", onde o tema fundamental é a controvérsia entre o relativismo e o racionalismo, essa característica está bem nítida. Na sua avaliação crítica do relativismo, Nagel percorre as mais diversas áreas da filosofia, como a filosofia da linguagem, a epistemologia e a ética, conseguindo assim proporcionar uma visão abrangente do assunto.

Entre as teorias filosóficas de grande generalidade, poucas serão hoje mais influentes que o relativismo. Defendido em inúmeras versões e com os mais diversos graus de subtileza argumentativa, o relativismo tem uma presença forte não só na filosofia, mas também nas ciências sociais e nos estudos literários. Até o senso comum parece nunca ter sido tão relativista. A desconfiança perante a possibilidade de a razão descobrir verdades objectivas, independentes de qualquer perspectiva na primeira pessoa do singular ou do plural, dá lugar no relativismo à ideia de que a razão e os seus métodos são relativos ao sujeito, e de que o próprio mundo é "construído" pelo sujeito. Como diz Nagel, "o qualificativo relativista  —'para mim' ou 'para nós' — tornou-se quase um acto reflexo e, com alguma base vagamente filosófica, generaliza-se frequentemente, interpretando-se a maior parte das discordâncias profundas em matéria de crenças ou métodos como o resultado de diferentes quadros de referência, formas de pensamento, práticas ou formas de vida, entre as quais não há maneira objectiva de ajuizar, mas apenas uma luta pelo poder". Ao declarar-se contra o relativismo, Nagel pretende sobretudo argumentar contra "uma tendência geral para reduzir as pretensões objectivas da razão".

No seu ataque ao relativismo, começa por considerá-lo nas versões mais radicais. Defende que essas versões, por se refutarem a si próprias, acabam por se revelar ininteligíveis. Quem mantiver uma postura relativista quanto aos aspectos mais elementares da lógica, por exemplo, colocando esses aspectos em causa através de uma perspectiva psicológica ou biológica, acabará por se contradizer, pois a lógica elementar subjaz a todas as tentativas de analisar qualquer assunto. "Não há, pura e simplesmente, lugar para o cepticismo com respeito à lógica básica", declara Nagel, "porque não há lugar a partir do qual possamos formulá-lo ou pensá-lo sem que nos contradigamos imediatamente ao apoiar-nos nela."

Nas suas versões menos radicais, que se restringem a domínios como a ciência ou a ética, o relativismo não se derrota a si próprio, mas tem de ser avaliado no confronto com a concepção racionalista. Em capítulos separados, talvez os mais interessantes do livro, Nagel pretende mostrar que tanto na ciência como na ética o relativismo está longe de ser plausível. No primeiro caso, persegue este objectivo em grande parte ao criticar o idealismo de Kant, que limita o conhecimento científico ao mundo dos fenómenos ao mesmo tempo que declara que o mundo como é realmente permanece inacessível. No segundo caso, Nagel tenta mostrar que "o raciocínio moral é também fundamental e inevitável", insurgindo-se contra a célebre tese de Hume segundo a qual, por detrás de cada motivo para a acção, esconde-se uma paixão que não pode ser avaliada racionalmente.

Para além da discussão de teses influentes dos filósofos clássicos, em "A Última Palavra" encontramos críticas esclarecedoras a muitos filósofos da tradição analítica que, de alguma maneira, defenderam teses relativistas. Ao privilegiar a crítica aos filósofos da sua própria tradição, Nagel tentou seriamente examinar o relativismo no seu melhor, resistindo à difícil tentação de escolher alvos demasiado fáceis.

Texto publicado no jornal Público (3 de Abril de 1999)
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