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Dictionary of Philosophy
30 de Julho de 2005 · Filosofia

Hermenêutica

Thomas Mautner
Universidade Nacional da Austrália

Termo derivado do original grego hermeneuein, que significa traduzir, interpretar, tornar inteligível. O termo significa interpretação ou a investigação (ou teoria) da natureza e métodos de interpretação.

Desde a antiguidade que há reflexões sobre a arte de interpretar textos, mas a palavra "hermenêutica" foi pela primeira vez usada por J. C. Dannhauer em meados do séc. XVII. Este autor fez notar que os textos relativamente aos quais era necessária uma teoria da interpretação pertenciam a três classes: a sagrada escritura, textos jurídicos (estatutos, precedentes, tratados, etc.) e a literatura da antiguidade clássica.

Um problema importante para a hermenêutica tradicional era o facto de ter dois objectivos radicalmente diferentes, nas suas áreas principais: teologia e jurisprudência. Um objectivo consistia em fornecer uma interpretação correcta, o outro consistia em estabelecer uma formulação abonada do dogma ou da lei. Por vezes, pode ser difícil satisfazer os dois requisitos, e é por isso que se diz que a hermenêutica é a arte de encontrar num texto o que não está lá.

O primeiro grande pensador a propor uma teoria geral da interpretação foi Friedrich Schleiermacher (1768-1834). Este pensador foi além da perspectiva tradicional, propondo que a interpretação não exige apenas um entendimento correcto dos factos linguísticos e históricos relevantes, mas também uma reconstituição mental, uma reconstrução imaginativa, do modo como um texto surgiu. Um intérprete de um texto pode estar na posição de ver a vida e obra do autor como um todo, situando-o num contexto histórico. Tal conhecimento, inalcançável para o autor, pode permitir a um intérprete compreender o texto melhor do que o autor.

A partir de Schleiermacher o domínio da hermenêutica alargou-se, passando a incluir os textos em geral, e não apenas os textos da escritura, do direito e os clássicos da antiguidade. O historiador J. G. Droysen (1808-84) sublinhou que o conhecimento alcançado através da interpretação — este autor tinha em mente sobretudo o conhecimento histórico — é inteiramente diferente do conhecimento científico. Este contraste tornou-se bem estabelecido com Willhem Dilthey (1883-1911). Este pensador explicou esta ideia em termos de um contraste entre a compreensão (Verstehen) e a explicação (Erklären). O nosso conhecimento dos factos históricos, sociais e culturais — o domínio da Geisteswissenschaften (as ciências humanas ou da cultura) — envolve essencialmente a interpretação. É por isso que é radicalmente diferente do conhecimento alcançado pela aplicação do método científico nas Naturwissenschaften (as ciências da natureza). A hermenêutica tem sido desde então entendida como uma teoria da interpretação de tudo o que tenha significado: não apenas os textos, mas também a acção humana e as várias características da cultura e sociedade humana.

A hermenêutica pode ser vista como uma parte de uma teoria do conhecimento, dado que é um estudo dos princípios através dos quais se obtêm certos tipos de conhecimento. Mas a afirmação de que a interpretação fornece conhecimento parece incompatível com três princípios fundamentais do pensamento positivista, princípios que têm sido largamente aceites:

  1. Em princípio, o método científico pode e tem de ser aplicado em todos os campos da investigação, para se poder alcançar conhecimento;
  2. O método das ciências físicas é o paradigma ideal;
  3. Os factos devem ser explicados causalmente, e tal explicação consiste em subsumir casos individuais sob leis gerais.

Paul Ricoeur (1913-2005) distinguiu entre uma hermenêutica da tradição e uma hermenêutica da suspeição. A primeira procura ouvir intensamente o que é comunicado, de modo a compreender e tomar consciência de uma mensagem escondida sob a superfície. Um representante desta tendência é Gadamer. A segunda é "subversiva", procurando mostrar que, correctamente compreendidos, os textos e a acção humana não são tão inócuos como podem parecer, podendo ser manifestações de pulsões escondidas, interesses de classe, etc. Os representantes desta tendência são Nietzsche, Freud e Foucault. Há afinidades entre estes autores e a chamada hermenêutica crítica, representada por Apel e Habermas, que continuam uma tradição de crítica de ideologias que remonta, através de Marx, ao século XVIII. O propósito desta abordagem é criticar as condições sociais, políticas e culturais existentes através de interpretações que são, a um tempo, desmistificações.

O chamado problema do círculo hermenêutico representa um problema para a interpretação. O círculo hermenêutico consiste no facto de que, ao procurar o significado de um texto, de uma acção, de um conjunto de ideias, etc., a interpretação de cada parte exige uma compreensão prévia do todo ao qual essa parte pertence, e a interpretação do todo exige uma compreensão prévia das suas partes. No caso dos textos, a compreensão das partes, incluindo as palavras e as frases, exige uma compreensão da obra mais vasta de que elas são parte, e da tradição literária ou cultural à qual essa obra pertence. Acresce que a compreensão da obra mais vasta pode exigir uma compreensão do género (romance, novela, poesia...) e da tradição literária e cultural a que esse género pertence, sendo o género uma vez mais compreendido através das obras que dele fazem parte. Numa terceira forma, há um círculo porque uma obra só pode ser correctamente compreendida compreendendo o que o autor tinha em mente e vice-versa. Em geral, o círculo hermenêutico (a expressão foi usada por Dilthey, que poderá tê-la criado) levanta o problema de ir além da letra, atingindo o espírito, apesar de não podemos interpretar a letra a menos que compreendamos o espírito.

O termo "hermenêutica" tem também sido usado para denotar uma investigação ou teoria ontológica que explora o tipo de existência que têm os seres que têm a capacidade para compreender significados, e para os quais o mundo é primariamente um objecto de compreensão (ao invés de ser primariamente, por exemplo, objecto de percepções sensoriais). Pode-se dizer que a filosofia de Heidegger é hermenêutica neste sentido.

Thomas Mautner

Tradução de Desidério Murcho
Retirado de Dictionary of Philosophy, org. por Thomas Mautner (Penguin, 2005)
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