História Concisa da Filosofia Ocidental, de Anthony Kenny
Tradução de Desidério Murcho, Fernando Martinho, Maria José Figueiredo, Pedro Santos e Rui Cabral
Revisão Científica de Desidério Murcho
Temas & Debates, Outubro 1999, 460 pp.
Comprar ·
Apresentação ·
Excerto
Críticas: Disputatio · Público · Independente
Há dois instrumentos indispensáveis para quem estuda filosofia: um bom dicionário de filosofia e uma boa história do pensamento filosófico. Há cerca de dois anos, a publicação do dicionário de Simon Blackburn proporcionou ao leitor português o primeiro desses instrumentos. Agora, com a História Concisa da Filosofia Ocidental, a Temas e Debates faz chegar às nossas livrarias, num único volume, uma boa história abrangente do pensamento filosófico. Fazia falta um livro assim. Todas as histórias da filosofia actualmente disponíveis, mesmo as que se apresentam em vários volumes e beneficiam da contribuição de diversos autores, deixam muito a desejar no que diz respeito ao rigor e à profundidade da exposição das teorias filosóficas.
Anthony Kenny, o autor, procurou corresponder ao desafio de escrever um equivalente moderno da História da Filosofia Ocidental, de Bertrand Russell. Da obra de Russell, Kenny tentou reter a "clareza e vigor do seu estilo", evitando sobrecarregar o leitor com termos técnicos, de modo a poder dirigir-se eficazmente a uma audiência sem uma formação filosófica especial. Mas, embora se dirija a uma audiência ampla, Kenny não está interessado em restringir-se à simples formulação das teses de cada filósofo. "Em si", declara, "os resumos das doutrinas filosóficas são pouco úteis: engana o leitor quem lhe apresentar as conclusões de um filósofo, sem uma indicação dos métodos pelos quais elas foram alcançadas. Por esta razão, apresentei — e critiquei — o raciocínio que os filósofos usam para apoiar as suas teses".
Convém notar que o título desta História Concisa é ligeiramente enganador. Pode fazer-nos pensar que é um daqueles livros do género "Platão em três minutos e meio", só que multiplicado pelo número de autores indicados no índice. Obviamente, o livro de Kenny é conciso se o comparamos com os dez volumes da Routledge History of Philosophy, por exemplo, mas, dentro dos limites impostos pelo formato do volume único, não seria razoável exigir mais e melhor de uma história da filosofia. Ao contrário de Russell, aliás, Kenny soube dar a cada assunto e a cada autor o peso certo, tendo sido extremamente criterioso na escolha dos filósofos a quem dedicou um capítulo inteiro: Platão, Aristóteles, Descartes, Kant e Wittgenstein.
Alguns dos capítulos, nomeadamente aqueles que se referem a períodos em que a reflexão filosófica não esteve no seu melhor, valem em grande parte pela informação social, política e religiosa. "A Filosofia no Renascimento" é o capítulo que mais se destaca neste aspecto. Nele, para além de nos envolvermos nas teias intrincadas da Reforma e da Contra-Reforma, até ficamos a saber que um tal Pedro Ramus, que defendeu que tudo o que Aristóteles ensinara era falso, alcançou um grande prestígio como autor por ter morrido num massacre de heréticos, o que se traduziu num severo empobrecimento do estudo da lógica até ao século XX.
No entanto, a História Concisa de Kenny vale sobretudo não pela descrição das contingências infelizes que marcaram a filosofia, mas pela sua abordagem às melhores teorias filosóficas. Aqui há dois pontos altos a assinalar: a explicação rigorosa da Teoria das Ideias de Platão e a exposição surpreendentemente detalhada de toda a Crítica da Razão Pura. Além disso, vários capítulos do livro lucraram claramente com a formação de Kenny, "que começou por ser na filosofia escolástica de inspiração medieval e depois na escola da análise linguística que tem sido dominante na maior parte deste século no mundo de língua inglesa". Graças à formação de Kenny, a filosofia medieval, que costuma ser bastante maltratada nas histórias da filosofia, recebe um tratamento digno e proporciona alguns dos melhores capítulos do livro. E Wittgenstein, que nunca primou pela clareza, torna-se quase claro na exposição oferecida no capítulo final.
Neste livro de Kenny, só a filosofia do século XIX acaba por sofrer um pouco por excesso de concisão. Mas mesmo aí podemos encontrar algumas boas surpresas, como as páginas dedicadas a Schopenhauer. Quanto ao século XX, Kenny optou por se restringir a Frege, Russell e Wittgenstein, os fundadores da tradição analítica. Deste modo, em vez de ter caído no erro, frequente nas histórias da filosofia, de se dispersar numa abordagem confusa e superficial a inúmeras correntes, conseguiu proporcionar uma visão esclarecedora de três autores fundamentais. São estas opções acertadas que colocam a História Concisa de Kenny acima das outras obras do género disponíveis na nossa língua.
Reproduza livremente mas, por favor, cite a fonte.
Termos de utilização: http://criticanarede.com/termos.html.
