1 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

Humildade epistémica

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

"Abstive-me sempre de fazer da verdade um ídolo, preferindo designá-la pelo nome mais humilde de exactidão", declara Zenão na inesquecível A Obra ao Negro, de Marguerite Yourcenar (Dom Quixote, 1998). A humildade perante a verdade é precisamente o que não existe quando mais se pensa que existe. Vale a pena ver duas maneiras de falsamente se parecer humilde perante a verdade, quando se é exactamente o oposto disso.

Alguns autores pós-modernistas declaram ser a verdade uma mera construção humana, ou uma perspectiva entre outras. Mas se a verdade é uma mera construção humana, uma mera projecção ou uma mera perspectiva, não há qualquer diferença, quanto à verdade, entre afirmar que as mulheres devem ser discriminadas e afirmar que não o devem ser. Em ambos os casos, são perspectivas.

A diferença radical entre uma convicção ou perspectiva e uma verdade é que uma convicção ou perspectiva é apenas seja o que for que alguém pensa, ao passo que a verdade é uma propriedade das nossas convicções e perspectivas quando as coisas são como pensamos que são. Daqui se vê que identificar a verdade com a mera convicção equivale a dar-nos o toque de Midas, garantindo que tudo o que pensamos que é verdade é verdade. O que parecia uma posição humilde revela-se a máxima falta de humildade, e mais uma manifestação do velho antropocentrismo humano: afinal, deste ponto de vista, nunca podemos errar porque seja o que for que alguém pensa é uma perspectiva como outra qualquer. Eis como se pode atingir a omnisciência fingindo-se humildade.

No pensamento religioso encontramos o mesmo tipo de falsa humildade. Invoca-se a humildade perante o inefável e a grandiosidade de um deus que só vagamente pode ser intuído. Isto parece uma posição de extrema humildade, mas basta pensar outra vez para ver o gato com o rabo de fora. Vejamos: começa-se por dizer que há algo de grandioso, de misterioso, de indizível, para depois se invocar a humildade quando pedimos explicações mais pormenorizadas sobre tal hipótese. Mas esta invocação de humildade serve apenas para fazer parar arbitrariamente o pensamento num ponto e não noutro porque a própria hipótese grandiosa de que há um deus qualquer que escapa à nossa compreensão não é uma hipótese humilde: se for verdadeira, significa que as pessoas religiosas têm um acesso privilegiado e infalível à verdade — pressuposto este que não passa, em si, de falta de humildade. A fé é o contrário da humildade cognitiva, pois é a ideia de que é possível saber de Deus de uma maneira especial, diferente da maneira como sabemos que está a chover ou que as mulheres não devem ser discriminadas.

Tanto uma perspectiva como outra estão erradas porque pressupõem que não erramos. Só conseguimos criar ciência e filosofia e artes quando estamos dispostos a rever as nossas convicções e as nossas metodologias. Sem esta humildade, inventamos sonhos antropocêntricos infantis, que nos obrigam a uma luta inglória contra a realidade do que somos.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (1 de Julho de 2008)
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