Quadro Clássico, de Arghon
14 de Novembro de 2010 ⋅ Opinião

Indiscutível?

Aires Almeida
Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, Portimão

Haverá algo que seja indiscutível? Para aqueles que desconfiam até da capacidade da ciência para alcançar verdades objectivas, a resposta parece óbvia. Se nem mesmo as ciências da natureza podem reivindicar a posse de verdades indiscutíveis, dificilmente se imagina outra área em que tal seja possível. Causa por isso alguma estranheza que, quando comparados com outras pessoas, os cientistas se revelem, nesta matéria, frequentemente mais modestos: são raros os cientistas que não estão dispostos a discutir seriamente os seus resultados ou a justificar o interesse que eles possam ter para todos nós.

Curiosamente, não é raro ouvirmos a expressão “isso é indiscutível” quando a conversa é sobre poesia ou sobre arte, por exemplo. Como se a própria poesia e a arte estivessem ao abrigo e acima de qualquer discussão. Algumas pessoas reagem mesmo de forma incrédula ao ouvirem alguém questionar-se sobre o valor da poesia ou de algum poeta de renome. Voltei à confirmá-lo há pouco tempo no Facebook, após ter publicado uma citação de Tolstoi a propósito de Rilke, em que o escritor russo defendia a inutilidade da poesia. Suspeitava que a simples sugestão de que poderia não ser fácil justificar o valor da poesia corria o risco de ser tomada como uma provocação, o que também se confirmou. Fosse eu a afirmá-lo, em vez de alguém tão respeitado no mundo das letras, como Tolstoi, e certamente as reacções seriam um pouco mais cortantes e indispostas. Assim, passei condescendentemente como um mero provocador ignorante e a discussão morreu logo ali.

Mas o mais estranho de tudo isso é que algumas reacções contra a tentativa de discutir o valor da poesia vêm frequentemente de pessoas com formação filosófica, isto é, de pessoas supostamente abertas à discussão, mesmo das suas ideias mais queridas. Talvez não seja de estranhar que para algumas pessoas profundamente religiosas haja convicções indiscutíveis, pois na religião os dogmas não são encarados como problemas. E também não é de estranhar que, em certos contextos de carácter mais prático, algumas coisas tenham de ser dadas como adquiridas sem estarem sujeitas a discussão. É assim que o professor de Biologia, como o de Física e o de Filosofia, precisam de dar aos seus alunos certas ideias como assentes e provisoriamente indiscutíveis. Mas uma mente filosófica é essencialmente questionadora e antidogmática, pelo que se espera tudo menos hostilidade à discussão aberta e racional.

Assim, afirmar a meio de uma discussão filosófica que algo é indiscutível, seja isso o valor da arte em geral, ou da poesia em particular, é um contra-senso. Até seria aceitável, caso se tratasse de uma questão empírica. Ora, não é esse manifestamente o caso, pelo que declarar que não se discute o valor da poesia ou da arte só pode revelar receio de expormos as nossas convicções não examinadas ao exame racional da discussão filosófica.

Se isso não for discutível para os filósofos, discute-se o quê? Será o valor da arte uma questão mais indiscutível do que a existência do mundo exterior? Basta prestar um pouco mais de atenção à história da filosofia para confirmar que questões como a do valor da arte têm sido discutidas desde Platão e Aristóteles até Goodman e outros filósofos mais recentes.

Há coisas indiscutíveis? Certamente que há aspectos inequivocamente factuais que não suscitam discussão. Fora isso, tudo é discutível em filosofia. De resto, há bons indícios para pensar que um dos sinais de atrofiamento cultural de um país é a aversão à discussão racional, sobretudo a aversão à discussão das ideias que nos parecem inquestionáveis. Afinal, a história tem muitas vezes mostrado que os inquestionáveis de ontem são os questionáveis de hoje.

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