Conversa 1956, de Milton Avery (1883-1966)
1 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

Insulto

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Supostamente, toda a gente defende a liberdade de expressão. Mas quando esta ideia vaga se condensa em algo de palpável vê-se que as palavras usadas já não querem dizer o que poderíamos pensar que querem dizer. "Liberdade de expressão" passa então a querer dizer algo como "cada qual pode dizer o que quiser, desde que não me insulte nem me ofenda nem ponha em causa as minhas causas mais queridas nem chame nomes feios à minha gata". E as excepções nunca mais acabam, vivendo da vagueza do extraordinário conceito de excepção à regra, que neste caso tem o efeito delirante de acabar com a própria regra.

Não há liberdade de expressão sem liberdade para insultar. Na verdade, a liberdade para insultar é fundamental numa sociedade que se quer honesta porque o insulto é precisamente uma das mais poderosas armas conhecidas contra o auto-engano. Sem auto-engano não há insulto, e o insulto é precisamente o balde de água fria que ameaça liquidar a fantasia em que o insultado insiste em viver. Se o insultado não desconfiasse de que há uma ponta de verdade no insulto, não se teria sentido insultado. Acusar um homem de ser uma pedra da calçada disfarçada não insulta. Acusar um homem de ser maricas insulta — mas só se ele desconfiar que, no fundo, até é um bocado maricas.

Nada há talvez de mais eficiente para desmontar uma ilusão colectiva do que uma forte gargalhada geral. Uma cerimónia cheia de pompa — como um ritual religioso — só pode funcionar enquanto as pessoas não desatarem a rir perante tanto auto-engano: símios cheios de maneirismos a fingir que estão a fazer coisas importantes, quando toda a gente sabe que o realmente importante não é o que se faz nas cerimónias pomposas e nos rituais, mas na vida real — quando amamos, oferecemos, recebemos, trabalhamos, choramos e rimos, sem pompas nem rituais. Daí que qualquer humor baseado em cerimónias pomposas seja sempre insultuoso para os cerimonialistas: a gargalhada põe a nu o auto-engano.

A vida seria mais honesta e bonita se nos deixássemos destas tolices. Não é uma boa ideia viver a vida a fingir que somos o que realmente não somos, sempre desconfiados de que somos outra coisa menos nobre. Que se lixe. Se formos honestamente humanos, saberemos que temos falhas: não somos os mais corajosos, os mais ricos, os mais bonitos, os mais inteligentes, mas saberemos dar qualquer coisa de valor aos que nos rodeiam, modestamente. E saberemos rir das fátuas pretensões humanas, que tanto sofrimento têm provocado ao longo da história.

Daqui a apenas cento e cinquenta anos estaremos todos mortos, incluindo os bebés que acabaram de nascer. Não há boas razões para pensar que há uma vida depois desta; mas mesmo que haja, é uma boa ideia fazer desta uma vida boa. Acontece que isso não é possível enquanto continuarmos a sentir-nos insultados, pois só podemos sentir-nos insultados quando queremos proteger uma mentira acerca de nós mesmos. E nenhuma felicidade genuína é possível se vivermos na mentira.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (4 de Novembro de 2008)
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