Dicionário de Filosofia
26 de Setembro de 2010 ⋅ História da filosofia

William James (1842-1910)

Ruth Anna Putnam
Wellesley College

Nascido em Nova Iorque, era o primogénito de um swedenborgiano financeiramente independente, e irmão de Henry, o romancista. Formou-se nos Estados Unidos e na Europa, ora em escolas, ora com tutores particulares. Recebeu o seu doutoramento em Medicina de Harvard em 1869, onde leccionou (primeiro Fisiologia, depois Psicologia e Filosofia) de 1872 a 1907.

Juntamente com Charles S. Peirce (1839-1914), James desenvolveu o pragmatismo, o contributo peculiar da América do Norte para a filosofia mundial. Atribui a Peirce a máxima pragmatista: “para obter perfeita clareza nos nossos pensamentos de um objecto precisamos apenas de considerar que efeitos concebíveis de um tipo prático o objecto pode envolver — que sensações é de esperar dele, e com que reacções temos de contar. A nossa concepção destes efeitos […] é então para nós a totalidade da nossa concepção do objecto”, Pragmatism (1907), segunda lição (O Pragmatismo 1997). Aplicando este princípio à concepção de verdade, i.e., à concordância de uma crença com a realidade, James salienta que o que conta como “concordância com a realidade” depende do género de crença em questão. Assim, as crenças de senso comum são verdadeiras se, ao agir-se com base nelas, não conduzem a surpresas desagradáveis. Mas a verdade, em especial a verdade científica, evolui; novas verdades emergem quando novos factos entram em conflito com velhas crenças e têm de ser acomodados num sistema coerente. Os valores existem onde os seres sencientes têm sentires e desejos e fazem exigências, e só aí. Os valores, e portanto os juízos de valor, tornam-se objetivos se estes seres derem importância uns aos outros, constituindo assim, e aceitando, um padrão interpessoal. Na verdade, é necessária uma comunidade de pensadores para que exista verdade objectiva. Em Essays in Radical Empiricism (1912), rejeita o pressuposto da epistemologia clássica, segundo o qual só conhecemos directamente os nossos próprios dados dos sentidos, argumentando que de vários mundos privados nenhum mundo comum se pode construir. Ao invés, defende, como o senso comum, que as coisas externas são percepcionadas directamente. Várias mentes podem conhecer uma mesma coisa, tal como várias linhas se podem intersectar num dado ponto; o ponto (“a pura experiência”), e.g., a visão da Lua por parte de Bob e Jane, é um acontecimento nas histórias de Bob, de Jane e da Lua.

Algumas questões importantes, e.g., se é de confiar numa pessoa que acabámos de conhecer, ou se é de acreditar num deus, não podem ser resolvidas pelos procedimentos racionais do senso comum ou da ciência, nem pelo tipo de acordo que evolui na ética, e no entanto a suspensão da crença tem nestes casos o efeito prático de resolver a questão de uma maneira e não de outra. Em tais situações, e só nelas, James exorta-nos a “querer acreditar”, i.e., afirma que temos o direito de acreditar sem indícios. James exerce esse direito quando afirma que temos livre-arbítrio, que há valores objectivos, que podemos fazer a diferença no futuro do mundo, e que a salvação do mundo exige tanto a nossa ajuda quanto a de Deus. James estudou o fenómeno da fé no seu livro mais lido, The Varieties of Religious Experience (1902) (As Variedades da Experiência Religiosa 1992); em The Will to Believe and Other Essays in Popular Philosophy (1887) argumentou contra a ética da crença de Clifford, que era mais exigente.

As preocupações morais constituem a motivação última do filosofar de James. Afirma o livre-arbítrio porque só as acções escolhidas a partir de alternativas igualmente possíveis têm qualidade moral. A escolha moral envolve escolher o carácter que teremos. Logo, temos de aproveitar todas as oportunidades para agir de modos que desenvolvam e mantenham os bons hábitos. Apesar de muitos dos nossos ideais estarem relacionados com prazeres e dores corporais simples, também sentimos directamente um ajuste entre certas maneiras de agir e certos tipos de experiências. Não aprendemos pela experiência os nossos ideais mais nobres e revolucionários; são ao invés guias da experiência futura, sendo também corrigíveis por ela. As acções só têm valor real se fizerem realmente a diferença; e só a crença de que fazem realmente a diferença pode ser uma motivação para o esforço moral árduo. Todas as obrigações se fundam nas inúmeras afirmações efectivas de pessoas efectivas, mas nem todas são co-satisfazíveis. Dado que os valores não têm uma medida comum, temos de procurar ideais que possam ser realizados com o mínimo custo em termos da frustração de outros ideais. O progresso moral humano consiste em substituir ideais menos inclusivos por outros mais inclusivos, e.g., o voto dos homens pelo voto dos homens e das mulheres. Apesar de haver uma presunção a favor da ordem estabelecida, temos a liberdade de tentar realizar um novo ideal (que se presume mais inclusivo), desde que estejamos dispostos a arriscar a nossa vida e o nosso caráter nessa tentativa, e desde que sejamos sensíveis aos “protestos dos feridos”, pois os ideais, tal como as hipóteses científicas, são provisionais.

Nos dois volumes de Principles of Psychology (1890), James concebe esta disciplina como a teoria das relações entre acontecimentos mentais e mudanças fisiológicas. Assim, segundo a teoria James-Lange, as emoções são sentires das mudanças corpóreas causadas pela percepção do facto que comummente se pensa que causa a emoção. O comportamento deliberado indica a presença da consciência ou do pensamento, que consiste num fluxo introspectivo contínuo. Apesar de a psicologia, enquanto ciência, pressupor uma ordem de causalidade uniforme, James, como vimos, sustentava que isto é parte de uma ordem mais lata que deixa lugar ao livre-arbítrio.

Leitura: Cambridge Companion to William James; Jacques Barzun, A Stroll with William James 1984; George Cotkin, William James, Public Philosopher 1989; David C. Lambert, William James and the Metaphysics of Experience 1999.

Ruth Anna Putnam
Retirado de Dicionário de Filosofia, dir. de Thomas Mautner (Lisboa: Edições 70, 2010)
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