1 de Novembro de 2016   Dicionário Escolar de Filosofia

K

Kant, Immanuel (1724-1804)

Filósofo alemão. Kant nasceu em Königsberg (actual Kaliningrado), na Prússia oriental, onde estudou, trabalhou e viveu toda a sua vida, tornando-se um dos mais influentes filósofos de sempre. Durante mais de uma década trabalhou como preceptor e em 1755 juntou-se ao corpo docente da universidade de Königsberg, onde leccionou as mais variadas disciplinas: lógica, metafísica, matemática, geografia, antropologia, pedagogia, etc. É habitual dividir a sua vida intelectual em dois períodos: o “período pré-crítico" e o “período crítico”. Durante o primeiro período, Kant escreveu trabalhos menos influentes, nos quais se pode constatar a grande influência de Wolff (1679-1754), discípulo de Leibniz, e do próprio Leibniz. Kant foi também fortemente influenciado por Locke, Hume e Jean-Jacques Rousseau (1712-78). O seu período crítico teve início em 1770 com a publicação da sua Dissertação de 1770.

A Crítica da Razão Pura (1781) é a sua primeira grande obra. O problema que a domina é o de saber como é o conhecimento a priori acerca do mundo possível (ver a priori/a posteriori), ou para usar a sua terminologia, como é o conhecimento sintético a priori possível (ver analítico/sintético). Kant defendeu que não é possível saber como o mundo é em si, independentemente da nossa experiência. Sucintamente, a ideia de Kant é que o nosso aparato cognitivo, seja ele perceptivo ou puramente intelectual (ou teórico), impõe certas estruturas ao mundo. Kant defendeu que uma metafísica científica deve usar criticamente a razão na procura dos seus próprios limites: temos de procurar as “formas" que o nosso aparato cognitivo impõe ao mundo. Esta é a “revolução copernicana" de Kant: para sabermos o que podemos conhecer, temos de saber como o conhecemos.

Na Crítica da Razão Prática (1788), Kant procura os fundamentos da nossa razão prática, isto é, os fundamentos do nosso raciocínio moral. Defende que agir racionalmente é agir moralmente, é agir de acordo com o nosso dever, é agir de acordo com o imperativo categórico. Na Crítica da Faculdade do Juízo (1790), volta a defender a objectividade da razão, mas desta vez relativamente aos juízos estéticos. Contudo, esta não é meramente uma obra de estética. Nela, Kant fornece-nos uma visão global do seu sistema filosófico. (Célia Teixeira)

Kant, Immanuel, Crítica da Razão Pura (Lisboa: FCG, 1989).
Kant, Immanuel, Crítica da Razão Prática (Lisboa: Edições 70, 1997).
Kant, Immanuel, Crítica da Faculdade do Juízo (Lisboa: INCM, 1992).
Kant, Immanuel, Fundamentação da Metafísica dos Costumes (Lisboa: Edições 70, 1991).
Kenny, Anthony, História Concisa da Filosofia Ocidental, cap. 16 (Lisboa: Temas e Debates, 1999).
Magee, Bryan, Os Grandes Filósofos, cap. 8 (Lisboa: Presença, 1989).

kátharsis

Termo grego que significa catarse.

Kierkegaard, Søren (1813-1855)

Pensador dinamarquês cuja obra tem um só objectivo: esclarecer o que significa a fé cristã. A fé em Deus é uma forma de vida terrivelmente exigente porque dá muito mais importância a Deus do que às coisas humanas e terrenas. Em Temor e Tremor (1843; trad. 1990, Guimarães Editores), Abraão, exemplo do amor e submissão absolutos a Deus, é considerado o modelo do homem de fé, pois para ele Deus está sempre em primeiro lugar e nem o amor a um filho lhe pode ser superior. Sem Deus o homem está condenado ao desespero. Podemos escolher uma vida dedicada ao prazer e ao divertimento (existência estética) ou ao cumprimento do dever, das obrigações morais e sociais (existência ética), mas o cristão autêntico aposta no Desconhecido e encontra nessa entrega o sentido pleno (existência religiosa). A fé cristã é sofrimento. Reina a incerteza (não sei se Deus existe) e a incompreensão dos outros, pois colocar Deus acima de tudo implica frequentemente contrariar a moral socialmente estabelecida. Critica Hegel por este ter querido tornar acessíveis à razão os dogmas da fé cristã e as Igrejas por a transformarem num hábito tranquilo e rotineiro. Um dos principais representantes do fideísmo, defende que a fé é superior à razão. Apresenta-nos uma interpretação da sua própria obra em Ponto de Vista Explicativo da Minha Obra Como Escritor (1859; trad. 1986, Edições 70). (Luís Rodrigues)

Viver Para Quê?

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Kuhn, Thomas (1922-96)

Filósofo americano da ciência, cujas ideias acerca da noção de progresso científico se tornaram muito populares, sobretudo após a publicação de A Estrutura das Revoluções Científicas (1962; trad. bras. Editora Perspectiva, 1995). Aí apresenta uma caracterização sociológica da ciência, na medida em que parte da análise do funcionamento concreto da comunidade científica ao longo da história. Defende a ideia de que a ciência apresenta longos períodos de acumulação de conhecimentos, a que dá o nome de “ciência normal”, sendo os cientistas essencialmente conservadores, na medida em que trabalham no interior e para a preservação do paradigma dominante. Durante esse período a pesquisa científica consiste em resolver quebra-cabeças que de forma alguma põem o paradigma em causa, procurando, pelo contrário, alargar o âmbito da sua aplicação. Esses períodos de ciência normal são intercalados por breves períodos de ciência extraordinária, em que, devido à descoberta de sérias anomalias no paradigma dominante, surgem as crises e as revoluções científicas. As revoluções científicas consistem basicamente na mudança de paradigma. A sua tese mais ousada é, contudo, a de que os paradigmas são incomensuráveis (ver incomensurabilidade), correspondendo a maneiras completamente distintas de encarar a realidade. Esta tese é polémica porque implica o relativismo e a ideia de que, em rigor, não podemos falar de progresso científico. (Aires Almeida)

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