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16 de Julho de 2010 ⋅ História da filosofia

Redescobrir a filosofia medieval

Sir Anthony Kenny
Tradução de António Infante
Nova História da Filosofia Ocidental, Vol. II: Filosofia Medieval, de Sir Anthony Kenny
Tradução de António Infante
Revisão científica de Aires Almeida
Lisboa: Gradiva 2010, 420 pp.
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Nesta era de especialização, as histórias da filosofia são feitas, na sua maioria, por muitas pessoas, pois resultam do trabalho de especialistas de áreas e períodos diferentes. Ao convidar-me para escrever sozinho uma história da filosofia, desde os primórdios até aos nossos dias, a Oxford University Press manifestou a convicção de que ainda há alguma vantagem na apresentação do desenvolvimento da filosofia a partir de uma única perspectiva, fazendo a ligação da filosofia antiga, medieval, moderna e contemporânea, numa única narrativa que trate temas conexos. Este é o segundo de quatro volumes. O primeiro abrangeu os séculos iniciais da filosofia, na Grécia e Roma clássicas. O presente volume retoma a narrativa na conversão de Santo Agostinho e continua a história até à Renascença humanista.

Duas razões bem distintas levam os leitores a querer estudar história da filosofia. Podem estar mais interessados na filosofia, ou mais interessados na história. Podemos estudar os grandes filósofos de outros tempos, de forma a lançar luz sobre temas da indagação filosófica de hoje. Ou podemos desejar compreender as pessoas e as sociedades do passado e ler a sua filosofia, para entender o clima conceptual em que elas pensaram e agiram. Podemos ler os filósofos de outras épocas para resolver problemas de sempre, ou para nos embrenharmos mais a fundo no mundo intelectual de uma outra era.

Embora eu seja, profissionalmente, um filósofo, e não um historiador, julgo que a história da filosofia é da maior importância para o estudo da própria filosofia. É uma ilusão acreditar que o estado actual da filosofia representa o ponto mais elevado do labor filosófico. Estes quatro volumes foram escritos com o propósito de demonstrar que, em muitos aspectos, a filosofia dos grandes filósofos do passado não está desactualizada e que uma cuidadosa leitura das grandes obras que deles tivemos a sorte de herdar pode proporcionar-nos elucidação filosófica.

Ao longo da obra, tento ser, ao mesmo tempo, historiador da filosofia e filósofo da história. As histórias da filosofia feitas por vários autores são estruturadas, ora cronologicamente, ora tematicamente. O que fiz foi tentar combinar os dois métodos, começando por oferecer, em cada volume, uma perspectiva cronológica, seguida de um tratamento temático de determinados assuntos filosóficos de importância perene. O leitor cujo interesse é sobretudo histórico concentrar-se-á na perspectiva cronológica, recorrendo, quando necessário, às partes temáticas, para desenvolvimento. O leitor mais preocupado com as questões filosóficas concentrar-se-á mais nas partes temáticas, recorrendo aos quadros cronológicos, se quiser situar determinados assuntos no seu contexto próprio.

Estes volumes destinam-se, em primeiro lugar, a um público constituído pelos estudantes dos primeiros anos das licenciaturas. Sucede, porém, que muitos dos que se interessam pela história da filosofia frequentam cursos cuja natureza não é predominantemente filosófica. Procuro ter presente, por isso, que muitos não estarão familiarizados com as técnicas e a terminologia filosóficas contemporâneas. Tento escrever, também, de modo suficientemente claro e agradável, de forma que a história seja apreciada por aqueles que não a lêem por razões curriculares, mas antes para esclarecimento e entretenimento pessoais.

Ainda não há muito tempo, nos cursos de história de filosofia de muitas universidades, passava-se directamente de Aristóteles para Descartes, saltando por cima da Antiguidade tardia e dos vários períodos da Idade Média. Havia nos meios académicos a crença generalizada de que a filosofia medieval não merecia ser estudada. Via de regra, esta crença não se baseava em qualquer conhecimento próximo dos textos importantes: era algo mais parecido com uma herança não questionada de um preconceito religioso ou humanista.

Seja como for, havia muitos obstáculos que, de facto, tornavam a filosofia medieval menos acessível que a de qualquer outra época. Podemos identificar quatro grandes barreiras que têm de ser ultrapassadas por quem se quiser confrontar com o pensamento dos filósofos da Idade Média: a linguística, a profissional, a confessional e a paroquial.

A maior parte da filosofia da Alta Idade Média está escrita num latim cuja compreensão é difícil, até para os que estão bem treinados no latim clássico. O próprio São Tomás de Aquino apresenta dificuldades iniciais para um leitor já iniciado em Tito Lívio ou Cícero, ainda que seja um modelo de clareza, quando comparado com a maior parte dos colegas e sucessores. As traduções dos autores medievais para inglês só nos últimos anos se tornaram largamente acessíveis, e fazê-las não é tarefa banal. O latim escolástico é fértil em neologismos técnicos, difíceis de verter para outras línguas, sem recurso a trabalhosas paráfrases. É certo que muitos destes neologismos subsistem, transliterados, em muitas línguas modernas, sendo até usados, frequentemente, na linguagem do dia-a-dia (e. g., “inteligência”, “evidência”, “voluntário”, “suposição”). Mas o uso moderno nunca equivale exactamente ao escolástico e, em muitos casos, difere largamente dele. “Subjectivo” e “objectivo”, por exemplo, são dois termos que inverteram virtualmente os seus significados, desde os tempos medievais.

O primeiro problema, o linguístico, está intimamente ligado com o segundo, o do profissionalismo. O estudo da filosofia era mais profissionalizado, durante a Idade Média, do que em qualquer outro dos tempos anteriores ao nosso — daí o termo “escolástico”. Em larga medida, a filosofia era o território de comunidades universitárias fechadas que entre si partilhavam um currículo comum, um património de textos comum e um arsenal comum de termos técnicos. Muitas das obras que chegaram até nós são, de um ou de outro modo, o produto de lições universitárias, de exercícios ou de debates, e aqueles que os produziam podiam contar com ouvintes ou leitores que estavam familiarizados com uma gíria complicada e eram capazes de perceber referências eruditas. Dificilmente seria uma filosofia escrita para o leitor vulgar. Os que a escreveram ou leram eram preponderantemente do sexo masculino, clérigos e celibatários. Um apêndice ao The Cambridge History of Later Medieval Philosophy apresenta curtas biografias das sessenta e seis mais significativas figuras do pensamento medieval. Nenhuma delas é feminina, e só duas são de leigos.

O terceiro problema está, também, relacionado com o segundo. Uma vez que os mais conhecidos filósofos medievais eram membros da Igreja Católica, a sua filosofia foi muitas vezes considerada um ramo da teologia ou da apologética. Isto não é correcto: todos eles estavam cientes da diferença entre argumentação filosófica e evangelismo dogmático. Mas já é verdade que, dado que a maioria concluía a carreira académica na faculdade de teologia, muito da sua melhor obra filosófica está de facto incluído em textos teológicos, sendo que a sua localização requer uma certa experiência.

Além disso, muito dos pensadores mais significativos eram membros de ordens religiosas, ciosas, muitas vezes, do património herdado. Houve longos períodos em que parecia que só mesmo os dominicanos estudavam São Tomás, ou que eram exclusivamente os franciscanos que estudavam São Boaventura e Escoto. (Alguns escolásticos foram intensamente estudados pelo facto de não pertencerem a ordem alguma. John Wyclif, por exemplo, só teria por herdeira espiritual a algo reduzida classe constituída pelo clero secular que esteve envolvido em problemas com a Igreja.) Depois de o papa Leão XIII ter dado a Aquino um estatuto especial como teólogo católico, as obras deste foram estudadas por muitos que não estavam ligados à ordem dominicana. Mas esta promoção apenas reforçou a ideia dos filósofos leigos de que ele era essencialmente um porta-voz eclesiástico. Acresce que, nos meios académicos católicos, era alimentada a ideia de que, em rigor, apenas Aquino merecia ser considerado filósofo. O abandono gradual de alguns dos seus ensinamentos, na parte mais tardia da Idade Média, era visto como um factor decisivo para o declínio da Igreja que havia de conduzir à Reforma. Visto por este prisma, um debate filosófico entre Escoto e Ockham era qualquer coisa como uma sessão de luta entre dois homens à beira de um abismo, no qual ambos estão condenados a despenhar-se.

Um dos efeitos do carácter profissional e confessional da filosofia escolástica traduz-se no facto de que, em comparação com autores anteriores e posteriores, os filósofos medievais surgirem como figuras um tanto anónimas. Não se trata apenas de termos, nalguns casos, muito pouca informação adicional acerca das suas vidas: os escritos revelam relativamente pouco sobre as suas personalidades. Eles produzem muito poucas monografias originais; a maior parte dos seus esforços é dedicada ao comentário e a dar continuidade à obra dos seus predecessores, na ordem ou na Igreja. No seu todo, o edifício da escolástica é como uma catedral medieval: sendo criação de muitos artesãos diferentes, todos eles individualmente dotados, é trabalhoso identificar as partes que, no conjunto da estrutura, resultam de obra estritamente individual. Muitas vezes, é apenas nas controvérsias espontâneas, conhecidas por “quodlíbetos”, que sentimos que podemos estar perto de uma pessoa viva e activa.

Naturalmente, esta generalização aplica-se apenas à Idade Média tardia, dominada pela escolástica. No período pré-escolástico, encontramos filósofos com personalidades vivamente coloridas, não construídas segundo um molde. Santo Agostinho, Abelardo e até mesmo Santo Anselmo estavam mais perto do paradigma romântico do filósofo visto como um génio solitário do que de qualquer ideal de humilde trabalhador que se limita a acrescentar uma pedra ao dólmen da comunidade.

Uma história da filosofia ocidental da Idade Média deve incluir o tratamento de filósofos que não são “ocidentais”, em qualquer dos sentidos que o termo tem modernamente, porque as fronteiras da Europa Latina medieval eram, felizmente, porosas a influências do mundo muçulmano e das minorias que viviam no seu seio. A influência de versões latinas de textos de Avicena e Averróis na grande escolástica não foi menor que as obras dos seus predecessores cristãos. Por consequência, este volume inclui algumas referências à filosofia muçulmana e judaica, não de modo proporcional ao seu valor filosófico intrínseco, mas em razão somente da contribuição destas filosofias para a corrente dominante do pensamento ocidental.

A minha formação em filosofia começou na Universidade Gregoriana, em Roma, a qual, nos anos cinquenta do século XX, ainda procurava ensinar filosofia ad mentem Sancti Thomae, em conformidade com as instruções de papas recentes. Fiquei grato a dois dos professores que aí tive, Frei Bernard Lonergan e Frei Frederick Copleston, por me terem ensinado que os escritos do próprio São Tomás eram muito mais merecedores de leitura do que os manuais tomistas em voga e que São Tomás não era o único pensador medieval que merecia ser estudado atentamente.

Depois dos estudos na Gregoriana, trabalhei em filosofia, como graduado, em Oxford, no auge da filosofia da linguagem corrente. Achei que isto tinha muito mais a ver comigo do que a escolástica romana, mas tive a sorte de conhecer o Professor Peter Geach e o Padre Herbert McCabe OP*, graças aos quais percebi que muitos dos problemas em que se atarefavam, nesse tempo, os filósofos da linha analítica eram muito semelhantes aos que foram estudados, muitas vezes com não menos refinamento, pelos filósofos e lógicos medievais.

Com efeito, o vivo interesse pela análise lógica da linguagem corrente que caracterizava Oxford, na parte final do século XX, aproximaria esta filosofia, como nenhuma outra posterior à Renascença, dos métodos e preocupações medievais. Mas isso não resultava num apreço generalizado. William Kneale, por exemplo, um professor de Oxford que escreveu uma bem informada e interessante panorâmica da lógica medieval, pronunciar-se-ia assim, acerca do desenvolvimento da filosofia medieval, entre 1200 e 1400:

Não tentaremos apurar aqui se o resultado justificou o enorme esforço intelectual que o produziu. Talvez os sistemas de São Tomás de Aquino e João Duns Escoto não mereçam mais que a admiração relutante que temos pelas pirâmides do Egipto e pelo Palácio de Versalhes. Também os esforços de milhares de jovens que, nas universidades medievais, se debateram com subtis abstracções teriam sido porventura mais bem empregues nos estudos literários, que então se supunha convirem somente às escolas secundárias. (The Development of Logic, Oxford, Oxford University Press, 1962, p. 226; trad. M. S. Lourenço, Lisboa: Gulbenkian.)

Foi na área da lógica, de facto, que o estudo de textos medievais começou a ser reconhecido como muito útil. Os lógicos medievais levantaram questões que cairiam no esquecimento após a Renascença, pelo que muitas das suas intuições tiveram de ser redescobertas durante o renascimento que a lógica experimentou durante o século XX. A obra The Cambridge History of Later Medieval Philosophy chamou a atenção de um público alargado para estes aspectos, inaugurando uma nova fase na recepção da filosofia medieval no mundo académico e secular em geral. O vigor desta renovação pode ser avaliado pelo número de excelentes artigos sobre filosofia medieval que podemos encontrar na recente Routledge Encyclopedia of Philosophy.

Nas últimas décadas do século XX, a pessoa que mais contribuiu para o crescente interesse pela filosofia medieval, no mundo de língua inglesa, é Norman Kretzmann, organizador-principal da Cambridge History atrás referida. Juntamente com Jan Pinborg, seu co-organizador, reuniu o trabalho que vinha sendo feito em vários países da Europa continental e apresentou-o a uma mais vasta audiência dos Estados Unidos e do Reino Unido. Com o seu próprio ensino, na Sage School da Cornell University, ajudou a criar um grupo de brilhantes académicos mais jovens que, nos últimos anos, tem publicado muitos e bons textos sobre assuntos de filosofia medieval. Paradoxalmente, um dos efeitos deste renovado interesse por aquilo que é medieval foi a despromoção de São Tomás de Aquino. Na Cambridge History of Philosophy, por exemplo, a entrada que a ele se refere é mais curta que a respeitante aos sophismata. Kretzmann acabaria por perceber e remediar esta falha, dedicando os últimos anos de vida a escrever dois livros magistrais acerca da Summa Contra Gentiles de São Tomás.

Na minha opinião, Tomás de Aquino tem direito a ser classificado como o maior filósofo da Alta Idade Média. É um pico que se destaca, mesmo numa cordilheira com vários outros cumes resplandecentes.

A filosofia medieval é, acima de tudo, um continuum, pelo que, quando estamos a ler um determinado filósofo, seja ele Abelardo, Aquino ou Ockham, estamos a recolher uma amostra de um processo em curso. Cedo percebemos, também, que, entre cada dois picos mais altos, alguns há que, embora menos elevados, não são negligenciáveis: entre Aquino e Escoto, por exemplo, ergue-se Henrique de Gand, enquanto Henrique de Harclay se destaca entre Escoto e Ockham.

Um historiador do mundo antigo é capaz de ler, sem ficar propriamente exausto, todo o corpus de textos filosóficos da época que chegaram até nós. Mas uma proeza idêntica ficaria muito para além das capacidades do mais diligente dos historiadores da filosofia medieval. Agostinho, Abelardo e os escolásticos mais importantes foram autores de tal modo copiosos que o domínio da produção de apenas um deles requer algumas décadas. Consequentemente, todo aquele que se abalance à feitura de um volume como este não pode deixar de estar fortemente dependente de fontes secundárias, nem que seja apenas para perceber qual a melhor maneira de colher ressonâncias das fontes primárias. Aqui fica expressa a minha gratidão para com os autores que constam da minha bibliografia, desde o meu professor, Frei Copleston (cuja história da filosofia ainda se sai bem da comparação com muitas obras escritas depois dela) até às mais recentes monografias escritas por colegas e discípulos de Norman Kretzmann. A minha dívida para com outras pessoas é particularmente pesada na área da filosofia islâmica, dado que não sei árabe. Enquanto escrevia esta obra, encontrei motivos para lamentar profundamente só poder ler em latim um autor como Avicena, cujo génio, e também influência, acabei por perceber ainda melhor.

Estou particularmente grato ao Dr. John Marenbon e ao Professor Robert Pasnau, que me fizeram muitas sugestões úteis para a melhoria de um primeiro rascunho deste volume, livrando-me assim de muitos erros.

Sir Anthony Kenny

Nota

* Abrev. de Order of the Preachers ou de Ordinis Praedicatorum. (N. do T.)

Retirado de Nova História da Filosofia Ocidental, Vol. 2: Filosofia Medieval, de Sir Anthony Kenny (Lisboa: Gradiva, 2010, 360 pp.)
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