Nova História da Filosofia Ocidental: Ascensão da Filosofia Moderna, de Anthony Kenny
25 de Março de 2011 ⋅ História da filosofia

História da filosofia moderna

Sir Anthony Kenny
Tradução de Célia Teixeira
Nova História da Filosofia Ocidental, vol. III: Ascensão da Filosofia Moderna, de Anthony Kenny
Tradução de Célia Teixeira
Revisão científica de Aires Almeida
Lisboa: Gradiva, 2011, 361 pp.
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Qualquer autor que tente, sozinho, dar conta da totalidade da história da filosofia toma rapidamente consciência de que, em questões de pormenor, está em enorme desvantagem por comparação com os académicos que fizeram de filósofos individuais a sua área de especialização. Em compensação, uma história escrita por uma única mão pode ser capaz de realçar aspectos da história da filosofia que são menos óbvios nos trabalhos de grupos de especialistas, tal como uma fotografia aérea pode realçar aspectos da paisagem que são quase invisíveis àqueles que se encontram perto do chão.

Para quem contacta com o início do período moderno da filosofia a partir da filosofia antiga e medieval, a característica mais saliente do período é a ausência de Aristóteles da cena filosófica. Sem dúvida que durante o período abrangido por este volume o estudo de Aristóteles continuou a ser feito nas instituições académicas; na Universidade de Oxford nunca houve um momento desde a sua fundação em que Aristóteles não tivesse sido ensinado. Mas a outra característica saliente do período aqui tratado, que a diferencia tanto da idade moderna como do século XX, é ter sido uma época em que a filosofia era energicamente feita não nas universidades, mas fora delas. De todos os grandes pensadores dos séculos XVII e XVIII, nenhum antes de Wolff e Kant foi professor universitário de filosofia.

Boas e más consequências resultaram de a filosofia ter voltado as costas a Aristóteles. Para a filosofia no sentido amplo — a filosofia tal como era entendida durante a maior parte do nosso período, que incluía ciências como a “filosofia natural” — a eliminação da influência póstuma de Aristóteles foi uma enorme dádiva. A física de Aristóteles estava irremediavelmente errada, e isso é algo que já tinha sido mostrado pelo menos desde o século XVI da nossa era; a deferência que lhe foi prestada durante a Idade Média foi um grande entrave para o progresso científico. Mas para a filosofia no sentido estrito — a filosofia tal como é hoje em dia praticada, como uma disciplina distinta nas universidades — resultaram tanto perdas como ganhos do abandono de Aristóteles.

Este período é dominado por dois gigantes filosóficos, um no seu início e outro no fim: Descartes e Kant. Descartes foi um porta-bandeira da revolta contra Aristóteles. Na metafísica, Descartes rejeitou as noções de potencialidade e actualidade, e na filosofia psicológica pôs a consciência no lugar da racionalidade como marca do mental. Hobbes e Locke fundaram uma escola de empirismo britânico em reacção ao racionalismo cartesiano, mas as convicções que partilhavam com Descartes eram mais importantes do que os temas que os separavam. Foi preciso o génio de Kant para juntar, na filosofia do entendimento humano, as diferentes contribuições dos sentidos e do intelecto, que tinham sido divididas e distorcidas pelos empiristas e racionalistas.

A marca do dualismo cartesiano é a separação entre a mente e a matéria, concebida como uma separação entre a consciência e a maquinaria. Isto criou um abismo que impediu o desenvolvimento metafísico durante o período tratado neste volume. Por um lado, os pensadores especulativos erigiram sistemas que levaram a pressões maiores do que nunca sobre a credulidade do leitor comum. Sejam quais forem os defeitos do hilemorfismo de Aristóteles, as suas substâncias — coisas como gatos e couves — tinham pelo menos a vantagem da terem uma existência indubitável no mundo do dia-a-dia, ao contrário do substrato, das mónadas, do númeno e do Absoluto, os quais eram insusceptíveis de serem conhecidos. Por outro lado, pensadores com tendência mais céptica desconstruíram não apenas as formas substanciais aristotélicas, mas também as qualidades primárias e secundárias, as substâncias materiais e, no fim, a própria mente humana.

Na introdução às suas lições sobre história da filosofia, Hegel adverte contra as histórias sem interesse nas quais a sucessão de sistemas é representada simplesmente como um conjunto de opiniões, erros e caprichos do pensamento. Em tais obras, diz Hegel, “a história da filosofia no seu todo torna-se num campo de batalha coberto com os ossos dos mortos; é um reino não só formado por mortos e indivíduos sem vida, mas por sistemas refutados e espiritualmente mortos, uma vez que cada um deles matou e enterrou o outro” (LHP, 17).

Apesar de tentar relatar fielmente as opiniões dos sucessivos filósofos do período aqui tratado, espero que a censura de Hegel não se aplique a este livro. Penso que apesar de se terem colocado numa posição de desvantagem ao abandonar algumas dos mais importantes instrumentos que a filosofia havia forjado para si própria na antiguidade e na idade média, os filósofos deste período fizeram muitas contribuições de valor perene, as quais são identificadas e descritas nos capítulos temáticos. No decurso do livro, espero traçar o gráfico tanto dos ganhos como das perdas. Há muito a aprender, julgo, mesmo com o estudo dos caprichos daqueles a que Hegel chama “heróis do pensamento”. Os grandes filósofos, em todas as épocas, têm engendrado grandes erros: nada há de desrespeitador em tentar expor algumas das confusões às quais parece que sucumbiram.

A divisão temática deste volume difere de duas formas da dos volumes anteriores. Em primeiro lugar, não há um capítulo especial dedicado à lógica e à linguagem, uma vez que os filósofos do período tratado não fizeram quaisquer contribuições nestas áreas comparáveis às feitas na idade média ou nos séculos XIX e XX. (É verdade que este período contém um lógico genial, Leibniz, mas o seu trabalho em lógica teve pouco impacto até ao século XIX.) Em segundo lugar, temos pela primeira vez um capítulo dedicado à filosofia política. Só desde o tempo de Maquiavel e More é que as instituições políticas da época passaram a ter semelhanças suficientes àquelas em que vivemos hoje em dia para que as intuições dos filósofos políticos sejam relevantes para as discussões contemporâneas. O capítulo sobre física é mais curto do que o dos volumes anteriores, pois com Newton a história da física passou a fazer parte da história da ciência, em vez da história da filosofia, deixando para os filósofos, pelo menos durante algum tempo, o tratamento abstracto das noções de espaço e tempo.

Sir Anthony Kenny
Retirado de Nova História da Filosofia Ocidental, vol. III: Ascensão da Filosofia Moderna, de Anthony Kenny (Lisboa: Gradiva, 2011)
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