Nova História da Filosofia Ocidental: Filosofia no Mundo Moderno, de Anthony Kenny
21 de Junho de 2011 ⋅ História da filosofia

Filosofia nos séculos XIX e XX

Sir Anthony Kenny
Tradução de Cristina Carvalho
Nova História da Filosofia Ocidental, vol. IV: Filosofia no Mundo Moderno, de Anthony Kenny
Tradução de Cristina Carvalho
Revisão científica de Aires Almeida
Lisboa: Gradiva, 2011, 380 pp.
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Este é o último volume de uma história da filosofia ocidental publicada em quatro volumes. O âmbito desta história estende-se do início da filosofia ocidental ao passado recente desta. O primeiro volume, publicado em 2004, ocupou-se da história da filosofia antiga e o segundo volume, publicado em 2005, abarcou a filosofia medieval, de Santo Agostinho à Renascença. O terceiro volume, A Ascensão da Filosofia Moderna, debruçou-se sobre os filósofos maiores dos séculos XVI, XVII e XVIII, terminando na morte de Hegel, em inícios do século XIX. O presente volume prossegue a narrativa, culminando nos últimos anos do século XX.

Há dois tipos distintos de razão que levam à leitura de uma história da filosofia. Alguns leitores fazem-no porque buscam ajuda ou iluminação junto de pensadores antigos a respeito de tópicos de interesse filosófico actual. Outros estão mais interessados nas pessoas e nas sociedades de um passado distante ou recente, e desejam aprender sobre o clima intelectual desses tempos. Estruturei este volume, e os anteriores, de modo a ir ao encontro das necessidades destas duas classes de leitor. O livro começa com três capítulos de carácter sumário, cada um dos quais segue uma sequência cronológica; contém depois mais nove capítulos, sendo cada um deles dedicado a uma área específica da filosofia, da lógica à teologia natural. Os leitores interessados sobretudo na perspectiva histórica poderão centrar-se nas resenhas cronológicas, consultando, se assim o desejarem, as secções temáticas com vista a aprofundar os conhecimentos obtidos inicialmente. Aqueles cujo principal interesse é de ordem filosófica, concentrar-se-ão antes nos capítulos subsequentes, consultando as resenhas cronológicas para situar questões específicas no contexto em que foram discutidas.

Há temas que ocupam capítulos em cada um dos quatro volumes desta série, a saber, epistemologia, metafísica, filosofia da mente, ética e filosofia da religião. Há, contudo, outros tópicos cuja importância foi variando ao longo dos séculos, e a configuração dos capítulos temáticos acompanha esta variação. Nos dois primeiros volumes, a secção temática começa com um capítulo sobre lógica e linguagem, um capítulo que está ausente no volume III pelo facto de a lógica ter entrado em hibernação na Renascença. No período abrangido pelo presente volume, a lógica formal e a filosofia da linguagem ocupam um lugar de tal maneira central, que cada tópico merece um capítulo à parte. Nos volumes anteriores, havia um capítulo dedicado à física, então considerada um ramo daquilo a que chamava a “filosofia natural”; todavia, a física é, desde Newton, uma ciência completamente emancipada e independente da sua raiz filosófica, razão pela qual este volume não contém qualquer capítulo sobre física. O volume III foi o primeiro a integrar um capítulo sobre filosofia política; isto, porque as instituições políticas europeias anteriores à época de More e de Maquiavel eram demasiado diferentes daquelas sob as quais vivemos para que as observações dos filósofos políticos fossem relevantes para os debates actuais. Este volume é o primeiro e o único a apresentar um capítulo sobre estética: esta opção implica uma ligeira extensão ao período temporal abordado no volume precedente, dado ter sido no século XVIII que esta matéria começou a emergir como disciplina autónoma.

Os capítulos introdutórios do presente volume, ao contrário do que sucedeu nos anteriores, não seguem uma sequência cronológica única. Em bom rigor, o primeiro capítulo traça de facto uma linha única de Bentham a Nietzsche, mas, devido à cisão que separou a filosofia de língua inglesa da filosofia continental no século XX, a narrativa seguirá por caminhos separados nos segundo e terceiro capítulos. O segundo capítulo inicia com Peirce, o decano dos filósofos americanos, e com Frege, habitualmente considerado o fundador da tradição analítica em filosofia. O terceiro capítulo aborda uma série de pensadores continentais influentes, começando por um homem que teria detestado ser visto como filósofo — Sigmund Freud.

Não me foi fácil decidir quando e como acabar esta minha história. Muitos dos que filosofaram na segunda metade do século XX foram, ou são, pessoas que conheci pessoalmente, e vários foram meus colegas e amigos estimados, o que dificulta a tarefa de ajuizar objectivamente da sua importância, quando comparada com a dos pensadores que ocuparam os volumes anteriores e as primeiras páginas deste. Não duvido que a minha escolha quanto a quem deve ser incluído e omitido possa parecer arbitrária a outros não menos qualificados do que eu para estabelecer tal decisão.

Em 1998, publiquei uma História Concisa da Filosofia Ocidental. Nessa altura, optei por não incluir filósofos que ainda fossem vivos. Esta decisão permitiu-me a conveniência de acabar a história em Wittgenstein, que considerava na altura, e considero ainda hoje, o filósofo mais significativo do século XX. Porém, e infelizmente, de 1998 para cá, faleceram vários filósofos que toda a gente espera encontrar numa história da filosofia moderna: Quine, por exemplo, Anscombe, Davidson, Strawson, Rawls, e outros. Assim, tive de procurar outra regra que me permitisse traçar o meu terminus ante quem. À medida que me aproximava do meu septuagésimo quinto aniversário, ocorreu-me excluir todos os que fossem mais novos do que eu, mas abandonei esta ideia pois afigurava-se uma linha divisória deveras egocêntrica. Acabei por optar por uma regra de trinta anos, excluindo assim os trabalhos escritos após 1975.

Peço ao leitor que tenha em mente que este é o último volume de uma história da filosofia que começou em Tales de Mileto e que, por conseguinte, obedece a uma estruturação assaz diferente daquela que pode encontrar-se numa história da filosofia contemporânea. Por exemplo, não me pronuncio de todo sobre os neo-escolásticos ou os neokantianos do século XX, e pouco digo sobre as várias gerações de neo-hegelianos. Deixar estes autores de fora num livro dedicado à filosofia dos últimos dois séculos cria um hiato significativo na história. No entanto, a importância destas escolas foi a de recordar à idade moderna a importância dos grandes pensadores do passado. Uma história que dedicou já muitas páginas a Tomás de Aquino, Kant e Hegel não precisa de repetir tais lembretes.

Ao escrever este volume, e como acontecera já aquando da escrita dos volumes anteriores, tive em mente um público leitor que se situasse ao nível do segundo ou terceiro ano de um curso superior. Dado que muitos dos estudantes universitários interessados em história da filosofia não são estudantes de filosofia, procurei não partir do princípio de que estariam familiarizados com a terminologia ou com as técnicas filosóficas. Pela mesma razão, não incluí na bibliografia obras escritas em outras línguas que não a inglesa, salvo as referências aos textos originais de autores que escreveram noutras línguas. Uma vez que há muitas pessoas que lêem filosofia, não para fins curriculares, mas para benefício próprio, seja porque desejam saber, seja porque tal lhes apraz, procurei evitar o uso de jargão e tentei não apresentar ao leitor dificuldades além das inerentes aos assuntos expostos. No entanto, por muito que seja o esforço, é impossível transformar a leitura de filosofia numa tarefa não exigente. Como tem sido dito e repetido, a filosofia, contrariamente às piscinas, não tem um extremo pouco profundo por onde se possa entrar.

Estou em dívida para com Peter Momtchiloff e colegas na Oxford University Press, e para com dois leitores anónimos da editora, pelo facto de terem removido muitas imperfeições deste livro. Estou também especialmente grato a Patricia Williams e a Dagfinn Føllesdal pela ajuda que me prestaram na abordagem aos filósofos continentais do século XX.

Sir Anthony Kenny
Retirado de Nova História da Filosofia Ocidental, vol. IV: Filosofia no Mundo Moderno, de Anthony Kenny (Lisboa: Gradiva, 2011)
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