Naming and Necessity
14 de Maio de 2007 ⋅ Filosofia

Os nomes e a necessidade

Desidério Murcho
Naming and Necessity, de Saul Kripke
Oxford: Blackwell, 1980, 184 pp.
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Saul Kripke é provavelmente o filósofo mais importante do séc. XX, e sem dúvida o mais importante da segunda metade do século. A filosofia dos últimos trinta anos seria irreconhecível caso ele não tivesse existido. Menino-prodígio, lógico e filósofo, Kripke introduziu uma revolução na filosofia da linguagem e na metafísica, além de ter contribuído decisivamente para o desenvolvimento da lógica modal (a lógica que estuda os argumentos cuja validade ou invalidade depende de termos como "necessariamente" e "possivelmente"). Dos seus dois únicos livros, Naming and Necessity é o mais influente, e uma das obras que definem a própria filosofia contemporânea posterior aos anos setenta do séc. XX. Este pequeno mas revolucionário volume é a transcrição de uma sequência de três conferências proferidas pelo autor. As conferências foram gravadas e posteriormente transcritas por Thomas Nagel. Não há tradução portuguesa deste clássico moderno da bibliografia filosófica.

A influência de Kripke faz-se sentir hoje fundamentalmente em duas áreas: na filosofia da linguagem e na metafísica. É neste pequeno volume, assim como no famoso artigo "Identity and Necessity", que Kripke apresenta essas ideias. No caso da filosofia da linguagem, Kripke montou um ataque mortal às teorias da referência de Russell e Frege. Muitos filósofos consideram que estas teorias foram definitivamente refutadas. O que está em causa é saber uma coisa muito simples: como se dá o mecanismo da referência? Quando usamos um nome, como "Aristóteles", estamos a referir uma certa pessoa, que viveu há 2500 anos na Grécia. Como conseguimos nós fazer tal coisa? A pergunta pode parecer algo tonta — tal como pode parecer uma tontice perguntar por que razão caem os objectos. Mas a filosofia e a ciência progridem precisamente porque fazem perguntas aparentemente tontas e sem "aplicação prática". Kripke apresenta poderosas objecções às teorias de Frege e Russell e inaugura a teoria causal da referência, que também Hilary Putnam defendeu independentemente.

Mas Kripke vai muito mais longe do que Putnam noutro aspecto fundamental: no seu realismo metafísico. E esta é talvez uma revolução mais profunda e importante do que a efectuada na filosofia da linguagem. A filosofia do séc. XX caracterizou-se, em todos os seus sectores, por um anti-realismo constante e por uma tendência idealista. O positivismo lógico é efectivamente um idealismo linguístico; a ideia de que o mundo é independente dos seres humanos, e que já existia muito antes de nós aparecermos por cá, é tipicamente encarada como ingénua por grande parte dos filósofos do séc. XX anteriores a Kripke — para desespero de Russell e Moore, que inauguraram a chamada "filosofia analítica" opondo-se ao idealismo hegeliano que na altura era a filosofia "oficial" inglesa. Kripke restitui o bom senso realista à filosofia, abandonando qualquer tipo de idealismo linguístico. Putnam, por exemplo, partilha muitas das ideias de Kripke no que respeita à filosofia da linguagem, mas recua no momento fundamental, recusando-se a admitir que há necessidades metafísicas — para ele, como para os positivistas, toda a necessidade é de carácter meramente lógico.

As consequências da revolução introduzida por Kripke ainda estão por esclarecer completamente. Para dar o primeiro passo nessa direcção, estude esta obra fundamental da filosofia do séc. XX.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (1 de Dezembro de 2006)
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