Filosofia Política Contemporânea
26 de Março de 2007 ⋅ Filosofia política

O professor e o futebolista

Desidério Murcho
Filosofia Política Contemporânea, de Will Kymlicka
São Paulo: Martins Fontes, 2006, 410 pp.
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A filosofia política tem tido um destino triste no nosso ensino. Sendo a instrumentalização ideológica, religiosa e política a tendência geral de todos os graus de ensino no nosso país, a filosofia política é a disciplina que mais tem sofrido, por motivos óbvios. Apostar fortemente em bons livros introdutórios desta área central da filosofia é por isso um serviço público fundamental, que infelizmente não está a ser feito.

Este livro é um excelente ponto de partida. A primeira edição foi traduzida para oito línguas, incluindo o português. A estrutura é muito simples: oito capítulos, dedicados aos grandes grupos de teorias do pensamento filosófico contemporâneo desta área. Temos assim capítulos dedicados ao utilitarismo, à igualdade liberal, ao libertarianismo, ao marxismo, ao comunitarismo, à teoria da cidadania, ao multiculturalismo e ao feminismo. Estes capítulos são antecedidos de uma breve introdução.

O livro é particularmente bom porque não se limita a apresentar as grandes famílias de teorias contemporâneas da área: discute-as criticamente, apresentando os argumentos desfavoráveis que enfrentam. Não se pense por isso que, no capítulo sobre as teorias da cidadania, por exemplo, se encontrará aquele tipo de conversa mole a que no nosso Ministério da Educação nos habituou — como se ensinar para a cidadania fosse defensável numa democracia, quando se concebe tal ensino como uma forma de doutrinar estudantes nas teorias preferidas dos governantes. Em vez de doutrinação acrítica, Kymlicka apresenta as principais teorias e problemas da cidadania, e respectivos argumentos. O republicanismo aristotélico, por exemplo (o tipo de ideal que os nossos técnicos ministeriais querem incutir nos desgraçados dos estudantes), é prontamente desmontado como aquilo que realmente é: uma impossibilidade prática. A vida pública era encarada pelos defensores do republicanismo aristotélico como o único tipo de vida verdadeiramente compensador — mas no tempo desses pensadores não havia espaço para uma vida privada rica e diversificada como hoje em dia.

O problema da justiça económica reaparece em diferentes capítulos, dada a sua centralidade. O problema de fundo pode caracterizar-se recorrendo a um exemplo semelhante ao apresentado por Nozick (cuja obra clássica Anarquia, Estado e Utopia, de 1974, foi traduzida no Brasil em 1991). Pensemos em duas pessoas: um professor e um futebolista. O professor desempenha um papel fundamental na sociedade — sem transmissão de conhecimento, regressamos à Idade da Pedra em duas gerações. Mas o futebolista atrai multidões, dispostas a pagar bem. Resultado: o futebolista enriquece, mas o professor consegue apenas uma vida modesta. Contudo, ninguém parece ter cometido injustiça alguma: nem o futebolista, que vende um espectáculo muito apreciado, nem o professor, que vende as suas aulas, nem os apreciadores de futebol, nem os pais das crianças que são ensinadas pelo professor. O defensor do liberalismo económico defende, contra todas as evidências, que não há mesmo injustiça alguma nesta situação intuitivamente injusta. Será que tem razão? Para conhecer melhor este e outros debates fundamentais, leia este livro.

Desidério Murcho
Originalmente publicado no jornal Público (13 de Outubro de 2006)
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