1 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

Lavoisier e a escola

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Quando andava no ensino secundário e estudei química, compreendi que o grande Lavoisier nunca tinha evidentemente frequentado a minha escola, pois se o tivesse feito teria visto que, por mais que seja verdade que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, na escola, pelo menos na minha, nada se criava, nada se transformava e tudo se perdia. Talvez a minha escola de subúrbios pobres e operários fosse uma excepção, mas duvido. Os manuais escolares por onde eu estudava eram usados com certeza em escolas de ricos, mas eram tão rigorosamente maus que eu fazia questão de os queimar no fim do ano lectivo. Isto é estranho porque era a ler que ocupava a maior parte do tempo e pouco me entusiasmava mais do que ideias, literatura, ciência, matemática — mas era completamente incapaz de ler os manuais escolares e odiava a maior parte das aulas.

A questão é: porquê? Além de eu ser hoje evidentemente uma besta, e careca, na altura não era careca e talvez ainda não fosse uma besta completa. O que levaria um estudante a detestar tanto a maior parte dos manuais e dos professores, ao mesmo tempo que gostava tanto de outros professores e de ler e de discutir ideias, e de aprender?

No 11.º ano comecei a compreender o que se passava, quando estudei Os Maias, de Eça de Queirós. Trata-se de um romance imensamente vívido, cheio de humor inteligente e críticas certeiras à mentalidade portuguesa que ainda hoje se aplicam; está além disso muito bem escrito, de modo que é um prazer saborear o Ega a dizer "choldra" e a chamar besta a Darwin e a dizer que pode até beber aguarrás que nunca consegue embebedar-se. No entanto, o romance era completamente assassinado na escola; tornava-se uma tolice formal, mero exemplo de correntes literárias contrastantes entre si, um emaranhado de figuras de estilo com nomes complicados e um sem-fim de entulho que pareciam ter por única missão impedir qualquer aluno mediano de pura e simplesmente gostar de ler o romance e de compreender o seu significado.

Chamo "formalismo" ao que faz professores, autores de manuais escolares e de programas e de exames assassinar a literatura, a história, a física, a filosofia e tudo o que se torna objecto de estudo na escola. O formalismo torna tudo pantanoso e pouco nítido, palavroso e aborrecido. É preciso que o aluno traga de casa uma vontade de ferro para estudar, caso contrário não encontra o menor sentido na escola — mesmo que seja inteligente, que goste de ler e de descobrir. Por vezes penso que talvez a escola seja assim precisamente para lixar os pobres. Afinal, como escreveu Gabriel García Marquez no fabuloso O Outono do Patriarca, "os pobres hão-de estar sempre tão fodidos que no dia em que a merda tiver valor hão-de nascer sem cu". Inventou-se a escola universal, mas deve ter havido alguém que decidiu tornar tudo tão absolutamente grotesco que dificilmente um pobre consegue ter o mínimo entusiasmo por toda aquela fantasia — e lixa-se com isso, pois claro.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (2 de Setembro de 2008)
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