100 Filósofos do Século XX, org. por Stuart Brown, Diané Collinson e Robert Wilkinson
Maio de 2003 ⋅ História da filosofia

O sujeito matéria

Desidério Murcho
100 Filósofos do Século XX, org. por Stuart Brown, Diané Collinson e Robert Wilkinson
Tradução de Ana Sofia Soares
Lisboa: Piaget, 2002, 278 pp.

No nosso país ignora-se grande parte da melhor filosofia do século XX — o mais rico da história da filosofia. Esta obra é por isso interessante para o público português, apesar das suas limitações. Trata-se de um dicionário que descreve brevemente (em 2 ou 3 páginas) as ideias de 100 filósofos do século XX. A maioria dos artigos é relativamente vaga e pouco rigorosa. Os organizadores escolheram um conjunto fraco de autores — com algumas excepções, como Anthony Ellis, A. R. Lacey e Anthony Quinton. É pena que o editor português tenha escolhido esta obra em particular quando tantas há de muito superior qualidade. Acresce que a edição portuguesa não é boa. Onde se devia ler "tema" lê-se "sujeito matéria" (que presumo ser "subject matter"), onde devia estar "teoria da demonstração" está "teoria das provas", o que presumo ser "ingenuity" aparece publicado como "ingenuidade" quando devia ser "engenho" ou "perspicácia", e "deception" surge como "decepção" em vez de "engano". Além disso, muitas das frases em português mantêm a estrutura sintáctica inglesa pelo que são quase incompreensíveis.

Mas vale a pena usá-lo como obra de consulta pela informação que contém. Os artigos apresentam uma lista das obras mais significativas do autor e sobre o autor em causa. Assim, o leitor português que desconhece as ideias dos mais importantes filósofos do século XX tem agora uma obra de consulta como ponto de partida para organizar as suas leituras. Poderá assim descobrir a riqueza de filósofos como Michael Dummett, Saul Kripke, Robert Nozick, Gottlob Frege, A. N. Chomsky, David Lewis, Carl Hempel, R. M. Hare, Nelson Goodman, Kurt Gödel, Peter Geach, Donald Davidson, e muitos outros. O dicionário tem a vantagem de ser muito inclusivo, contemplando pensadores orientais (do século XX, claro) e figuras como Heidegger, Lenine, Nietzsche, Unamuno, Derrida, Foucault, etc. Às 238 páginas dedicadas a filósofos e pensadores seguem-se 35 páginas dedicadas a escolas e movimentos filosóficos; uma vez mais, os artigos são muitas vezes caricaturais, valendo a informação bibliográfica disponibilizada, apesar de nem sempre ser a mais adequada.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Recensão publicada na revista Os Meus Livros, 3 (Agosto de 2002)
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