Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada
17 de Setembro de 2004 ⋅ Livros

O centenário de pablo neruda

Antônio Ribeiro de Almeida
Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada, de Pablo Neruda
Lisboa: Dom Quixote, 2001, 96 pp., 10,00 €

Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos
Te pareces al mundo em tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te
socava y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.

Cidade de Parral, 1904, Chile. Foi ali, naquele ano, que veio ao mundo Nefatali Ricardo Reyes que o mundo conheceria como Pablo Neruda o poeta que cantou com maior intensidade o Amor. O Amor pela mulher, o amor pela Natureza, o amor pelas pequenas coisas da vida, o amor pelos povos latinos, o amor pelos excluídos. Neste ano de 2004 o Chile e os países de língua espanhola comemoram esta data com ciclos de estudos nas universidades, com novas edições dos seus livros, e até no Brasil a José Olympio reedita os "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada" que já vendeu mais de 15 milhões de exemplares no mundo. Neste artigo de lembrança deste centenário deter-me-ei no lado literário de Neruda cuja vida foi intensa e se desdobrou em ação política a favor da Espanha durante a Guerra Civil; de embaixador do Chile na França; de senador eleito pelo povo do Chile e de perseguido político.

Ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1975, ele pronunciou um discurso que se constitui numa peça que todo aquele que se dedica a escrever deveria ler e meditar. Em homenagem a Rimbaud, o poeta maldito da França, ele o intitula de "Para uma cidade esplêndida". No discurso relata a sua fuga, a cavalo, com mais quatro camaradas, ao longo de florestas e montanhas de neve para escapar da fúria do Presidente chileno Gabriel González Vilela, que eleito pela Esquerda, traiu seu programa e fez um governo de Direita. Neruda o denuncia pela sua traição ao programa socialista e é imediatamente cassado como senador, perseguido pela polícia, busca asilo na Argentina. Mas ao longo desta penosa viagem sua alma de poeta registra a exuberante natureza que o cerca e os túmulos anônimos que encontra no caminho. Os camponeses o ajudam na sua fuga a atravessar rios caudalosos, a escalar montanhas, a alegrar o dia com suas canções e quando Neruda tenta recompensá-los com algumas moedas eles recusam e dizem apenas que haviam servido e "nada más."

Num segundo momento do seu discurso na Academia Sueca o poeta se volta para o problema da composição de poemas e humildemente declara que não aprendeu nos livros como escrever poesias e que não deixaria impressa qualquer receita, qualquer conselho para os novos poetas. Para Neruda a sua poesia aconteceu porque a "poesia é uma ação passageira ou solene em que entram paralelamente a solidão e a solidariedade, o sentimento e a ação, a intimidade do homem e a secreta revelação da Natureza" (p.3)

Valorizando o trabalho, Neruda cria o que chamo da parábola do padeiro e ela é tão importante, que me vejo na contingência de transcrevê-la. Se tentasse resumi-la, não transmitiria esta pérola que encontrei: "O poeta não é um pequeno deus [...] Não está marcado por um destino cabalístico superior a quem exercer outros ofícios. Frequentemente disse que o melhor poeta é o homem que nos entrega o pão de cada dia, o padeiro mais próximo e que não se crê um deus. Ele cumpre sua majestosa e humilde tarefa de amassar, colocar o pão no forno, dourar e entregar o pão de cada dia como uma obrigação comunitária. E se o poeta alcançar esta consciência poderá também converter-se como parte de uma colossal obra de artesão [...] e entregar com sua mercadoria: pão, verdade, vinho e sonhos."

É este o ofício do poeta, segundo Neruda. Do meu lado, como católico, recordo que na Missa é dado ao homem o pão e o vinho da vida eterna e esta aproximação revela quanta beleza e verdades existem naquele sacrifício que muitos homens não percebem mais.

A quase totalidade da obra de Neruda se encontra traduzida para a nossa língua. A Editora L&PM lançou neste ano uma edição bilíngüe dos Vinte Poemas de Amor uma Canção Desesperada. Esta jóia da poesia latino-americana é, do meu ponto de vista, a obra de um possesso. Neruda estava com apenas 20 anos quando a escreveu e digo-lhe que estava possuído pelo deus do Amor e ninguém a lê sem sentir novamente reflorescer em si o Amor, se julgava que o Amor havia desaparecido de sua vida. Como ficar indiferente aos versos com que encimei este artigo a respeito da Mulher-Terra na sua atitude de entrega? "Corpo de mulher, brancas colinas, coxas brancas, te assemelhas ao mundo em tua atitude de entrega." Seria uma ousadia de minha parte se continuasse a traduzir outras partes deste Primeiro Poema. Mesmo para quem não domina completamente a língua espanhola é melhor que leia os Vinte Poemas com um bom dicionário ao lado, e leia em voz alta para perceber a sonoridade e beleza dos versos.

Pela vida de Neruda passaram três mulheres. Elas o amaram em momentos diferentes e ele, a cada uma delas, diz: "Ah mujer, no sé como pudiste contenerme em la tierra de tu alma, y en la cruz de tus brazos!"

Deixo no final o meu convite: ler Pablo Neruda para Amar mais intensamente ou para despertar o Amor se, por acaso, ele estiver adormecido em nossas almas.

Antônio Ribeiro de Almeida
almeida.35@uol.com.br
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