A Terceira Cultura, de John Brockman
Livros

Cultura científica

Desidério Murcho
A Terceira Cultura: Para Além da Revolução Científica, de John Brockman
Tradução de Álvaro Augusto Fernandes
Temas & Debates, 1998, 374 pp.
Comprar

A Temas & Debates está de parabéns por ter escolhido este excelente livro — ainda por cima servido por uma tradução cuidada que se lê com imenso prazer. O livro é constituído por 23 auto-retratos de algumas das mais marcantes figuras da ciência contemporânea: Stephen Jay Gould, Richard Dawkins, Marvin Minsky, Daniel Dennett, Roger Penrose e Stuart Kauffman entre outros.

A estrutura de cada um dos capítulos é a seguinte: um autor fala-nos das suas teorias e dos seus objectivos, comentando o estado actual da sua área e das áreas vizinhas; seguidamente, alguns dos outros autores comentam as teorias do primeiro. A linguagem é acessível e clara, apesar de o conteúdo ser muito interessante para os especialistas. Os 23 capítulos estão divididos em 4 grandes partes, sobre 4 grandes tópicos: a teoria da evolução; a linguagem, a consciência e a computação; a origem do universo; e a teorias das complexidade. A estas 4 partes segue-se uma espécie de epílogo sobre o nosso futuro enquanto espécie biológica. O livro é precedido por uma introdução, a única parte onde John Brockman expõe a sua ideia que dá título ao livro, a ideia de uma “terceira cultura”. Alguns dos outros autores tecem então comentários em relação à ideia de uma terceira cultura.

Sempre que defendo a filosofia analítica mais cedo ou mais tarde alguém acaba por dizer qualquer coisa como: “A filosofia pertence às humanidades”. Que quer isto dizer? Bom, não pode querer dizer que a filosofia é feita por pessoas: a física e a matemática também, e não são “humanidades”. Mas o problema é que também não pode querer dizer que o objecto de estudo da filosofia é o Homem! Ainda que admita que o Homem pode ser estudado pela filosofia — quando se estudam coisas como o sentido da vida ou o problema metafísico da morte —, a filosofia não se reduz certamente a essas áreas. Temos a epistemologia, a lógica, a metafísica das propriedades e inúmeras outras áreas nas quais não estudamos o Homem: estudamos conceitos como “verdade”, “validade”, “propriedade essencial”, “conhecimento”. Que podem então querer dizer as pessoas que defendem que a filosofia é uma das humanidades?

A resposta é sobretudo esta: querem dizer que a filosofia não pertence à cultura científica. Mas isto, claro, além de ser uma atitude reducionista é uma traição histórica: a filosofia sempre dialogou com as ciências, teve aliás um papel de destaque na sua origem e tem objectivos cognitivos idênticos. Mas eu compreendo o que está em causa; e é disso que trata a introdução deste livro: do choque de culturas — já diagnosticado por Snow em 1959 na obra The Two Cultures. A Europa herdou uma certa cultura ligada ao estudo dos clássicos da literatura, da filosofia e das artes. Ter cultura era ter lido Horácio, Platão, conhecer a música e a pintura — e ser completamente ignorante quanto às leis da gravidade, à química, à biologia, à matemática. Estas áreas eram encaradas como superficiais, como coisas que teriam o seu interesse localizado mas que não poderiam constituir a leitura de alguém que está interessado em saber qual é o sentido da vida.

As coisas corriam sobre rodas neste ambiente mais ou menos medieval quando começou a aparecer uma terceira cultura que de alguma forma superou o abismo entre a cultura científica e a cultura tradicional: a terceira cultura é constituída por pensadores originais com formação científica que não têm medo de se aventurar pelas áreas mais especulativas da cultura e que começam a escrever livros com imensa circulação. A pouco e pouco, começam a ser responsáveis por uma nova visão do mundo: a visão científica do mundo — que eu me orgulho de partilhar, e que devo a editores como a <Gradiva>, que introduziu os livros de pop-science em Portugal. E a visão científica esteve na origem do positivismo lógico, que é uma das origens da filosofia analítica.

Há realmente uma apetência por qualquer coisa — isso vê-se sobretudo nos meios filosóficos e artísticos. Os jovens de hoje procuram qualquer coisa — chamemos-lhe "o sublime". Acontece que as propostas tradicionais não parecem satisfazer os jovens actuais que buscam o sublime. Talvez porque o procurem onde obviamente não está. Se queremos aprender algo sobre o sentido da vida, de onde viemos e para onde vamos, não será mais avisado ler divulgação científica? Aí aprenderemos realmente de onde viemos e que perspectivas realmente temos. Esta é a terceira cultura: uma visão científica do universo, universo do qual nós fazemos parte e no qual podemos desempenhar o papel que nós próprios decidirmos; parece-me mais interessante do que visões retrógradas e cientificamente ignorantes. Mas, claro, há sempre pessoas dispostas a sacrificar a verdade pelo conforto espiritual. É uma questão de exigência intelectual.

Este livro é um compêndio do que melhor a cultura científica tem produzido neste século. E mostra claramente a vitalidade de uma cultura rigorosa, intelectualmente exigente e que não reconhece autoridades latinas e gregas só por serem latinas e gregas, procurando antes a teoria mais justa, o argumento melhor concebido, a hipótese mais plausível. Muitos dos intervenientes têm ideias díspares e discordam vivamente entre si. Mas todos eles partilham uma certa ideia do que conta como um bom argumento, o que conta como uma teoria plausível. Todos pertencem à cultura científica.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte