A Garça, de Maria João Cantinho

Tensão sonhada

Herlander Cordeiro
A Garça, de Maria João Cantinho
Diferença, 2001, 176 pp.

Este livro é constituído por 9 contos. Um escritor meu amigo diz que os contos são difíceis. Que há poucos bons contistas. Borges, Calvino, Manuel de Oliveira, Poe. Mas acrescenta que é no conto que a narrativa começa. As literaturas vão todas buscar a sua origem a uma tradição oral antiquíssima onde nasceu a poesia e a narrativa. A narrativa, antes de ser outra coisa, foi certamente um conto. Uma história curta que traduz uma vivência real ou imaginada.

Todos nós, pelo menos na Escola Primária, ficámos enfeitiçados, completamente seduzidos no encanto destas palavras mágicas: Era uma vez.... Um universo de promessas abre-se diante de nós e caminhamos para uma nova aventura. Não importa qual, importa que um novo mundo se abre ao virar de cada página, uma viagem encantada por mundos de fadas e duendes, uma cavalgada no vale, a conversa de um Anjo...

"Agora não. Não me incomodes, estou a ler." Quantos de nós já aborreceu mortalmente as pessoas a quem a disse esta frase? A razão por que as outras pessoas se aborrecem, é porque sabem que quem lê está a ter uma experiência pessoal e intransmissível e sente-se excluído da brincadeira, do prazer. Esse prazer da leitura senti-o eu com a leitura de A Garça. Isso é que é realmente importante.

Assim, para não estragar o prazer da vossa leitura, não pretendo fazer uma análise aprofundada da obra. Gostei sinceramente deste livro de Maria João Cantinho. Senti-me facilmente transportado para o mundo da leitura que é um mundo de prazer, insisto, de aventura, que vive das palavras que alguém criou.

O conto é também, para a maior parte dos escritores, o início das suas carreiras como contadores de histórias. Quase todos eles escrevem contos ou escreveram contos, alguns tiveram nos contos as suas melhores obras. Seja como for, Maria João Cantinho insistiu no género e ofereceu-nos um belo livro com nove narrativas.

Foi fácil lê-lo; não por os temas abordados serem fúteis; pelo contrário, a temática do drama vida/morte, o desejo, o sonho, a visão ou a falta dela, dificilmente podem ser considerados menosprezáveis, e neste livro adquirem uma faceta simbólica e filosófica. Nesta obra, todos os que alcançam a plenitude morrem. Esse facto também contribui para que estes contos sejam uma reflexão sobre o sentido da vida e sobre o valor da procura da sabedoria.

Não esqueçamos que muita filosofia grega nos foi legada através das lendas mitológicas dos deuses ou personagens da antiguidade e que um dos mitos fundamentais da teoria de Platão, A Alegoria da Caverna, assenta na metáfora da visão/cegueira que é das mais enraizadas do livro já que é várias vezes utilizada, ainda que de diferentes formas. Tal como na alegoria de Platão, algumas das personagens dos contos têm uma visão, sentem um desejo, o chamamento de uma voz que perseguem, como o faz o filósofo.

Cada uma das nove histórias vale por si; sendo de tamanho e temática variada podem, no entanto, ser unidas por três noções, a saber: Sonho, Visão/Cegueira e Metamorfose. Porém, não se pense que por os contos poderem ser unidos por duas ou três palavras-chave não contêm diversidade. Na verdade, os assuntos, as intenções, e as personagens variam, assim como varia o ponto de vista que é usado para contar a história, utilizam-se os vários registos de focalização, o que confere dinamismo e vivacidade à leitura.

Deste modo a autora pôde demonstrar desenvoltura nas várias formas naturais de expressão, há contos essencialmente marcados pela narração quer em primeira pessoa, quer utilizando a terceira ou o diálogo. Estou a lembrar-me de Uma Improvável Aventura, cujo diálogo chega a rondar o absurdo, recria perfeitamente uma situação de tensão sonhada. A história é a seguinte: No sonho, a personagem criança, tem de encontrar o caminho de volta para casa porque caiu num mundo que é um labirinto de portas que só podem ser abertas se se possuir a palavra certa. Nesse mundo é acompanhada por um poeta que enlouqueceu e por um cego clarividente... É difícil não ver simbologia nisto. Como não atribuir um sentido mais profundo às narrativas? Quem ou o que representa a criança? E o cego? E o louco? Serão retratos de nós mesmos ou de viajantes que perseguem e se alimentam de palavras como “liberdade”, “amor”, “felicidade”?

Voltemos às três palavras de há pouco. Recordo: Sonho, Visão/Cegueira, Metamorfose. Podem encontrar-se com facilidade linhas condutoras que enquadram as narrativas na categoria do fantástico. Os homens falam com os animais, a realidade esfuma-se no sonho...

“Sonho” é uma palavra que é muito utilizada na obra, quer por as personagens adormecerem e sonharem e a acção se passar em sonhos; quer por as personagens procurarem o sentido da vida, um caminho. Muitas delas são simbólicas: o cego, o louco, o poeta, a criança, certos animais, ganham um novo sentido, se encarados como peregrinos na procura de si mesmos. Nesta categoria estão Uma Improvável Aventura e O Pintor Chinês.

Visão/cegueira. Essa é outra das metáforas presentes em todo o livro. Nesta obra, os cegos tudo vêem, são clarividentes, quer sejam Garça, Borges ou Tirésias; os outros, aqueles que são visionários, percorrem novos caminhos, sentindo a urgência de uma chamada interior, perseguem a humanidade, o sentido da existência. Não fosse a Maria João professora de Filosofia... Aqui coloco: A Garça e Linhas de Sombra.

Metamorfose. O papel do sonho na metamorfose é o de gerador, a metamorfose é uma visão que ganha corpo, quando se atinge uma determinada meta do percurso sonhado. Para percorrer essa jornada vivencial, as personagens têm várias vezes de sofrer metamorfoses, esta última palavra parece-me ser outra das que interliga a colectânea. Na verdade, algumas personagens têm uma carência interior que as obriga a procurarem algo que lhes preencha um vazio que sentem, são viajantes. Fazem um percurso, evoluem através da metamorfose, até alguma dessa visão ou dessa cegueira de que já falámos, resulta ou é resultado de uma metamorfose: O Mensageiro; O Animal que Sonhou Ser Deus; A Flor Secreta; Três Andamentos Para Uma Mesma Jornada.

Os contos não têm um tempo determinado e, por vezes, nem mesmo um espaço específico o que reforça a sua inscrição no fantástico e conduz a uma economia descritiva plena de ritmo e dinamismo que é sustentada por uma escrita fluida, marcada pela frase curta, construída com a palavra justa.

Por vezes, nota-se alguma melancolia subjacente a diferentes momentos literários; porém, noutros, a confiança, a fé e a alegria estão bem presentes. Recordo-vos a história do Anjo que, apesar das amarguras, prefere ser homem, porque o Homem pode cheirar, tocar, encontrar o amor, viver.

Herlander Cordeiro
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