Analytic Philosophy, org. por A.P. Martinich e David Sosa
30 de Janeiro de 2005 ⋅ Filosofia

Filosofia heterodoxa

Desidério Murcho
Analytic Philosophy: An anthology, org. por A.P. Martinich e David Sosa
Blackwell, 2001, 720 pp.
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Uma das mais importantes tradições filosóficas do século XX, hoje dominante, a filosofia analítica conhece uma enorme diversidade de metodologias, doutrinas e áreas de estudo. Todas as disciplinas tradicionais da filosofia fazem parte da filosofia analítica. Por vezes costuma-se designar a filosofia analítica como "anglo-saxónica", mas como Dummett e os organizadores deste volume fazem notar, seria mais acertado chamar-lhe "anglo-alemã" ou até "anglo-austríaca". Porém, a filosofia analítica sempre foi um movimento internacional de ideias, discutindo os grandes problemas tradicionais da filosofia, em diálogo com as ciências, as artes e as religiões.

Esta antologia abrange várias áreas da filosofia analítica, mas não todas, deixando de fora a filosofia da religião, a filosofia da ciência e a filosofia da arte, entre outras disciplinas. As áreas que surgem nas sete partes da antologia são as seguintes: filosofia da linguagem, metafísica, epistemologia, filosofia da mente, livre-arbítrio e identidade pessoal, ética e metodologia. Ao todo, a antologia apresenta 46 ensaios seminais da filosofia analítica. É precedida de uma útil introdução dos organizadores, que explica a natureza criativa e diversificada da filosofia analítica, o que torna esta antologia necessariamente incompleta, mas desejavelmente representativa.

Os organizadores privilegiaram os ensaios de algum modo "fundadores" das diferentes áreas de estudos da tradição analítica, e é difícil ver como poderiam ter feito de outro modo. É assim que esta antologia é muito útil para o estudante, sobretudo português, por lhe dar a oportunidade de ter num só volume uma parte importante dos textos clássicos que terá de estudar, e que tantas vezes não estão disponíveis nas bibliotecas universitárias portuguesas.

Entre outros, encontra-se nesta antologia ensaios de Frege, Russell, Strawson, Grice, Davidson, Kripke, Putnam, Wittgenstein, Quine, Max Black, Moore, Chisholm, Gettier, Hempel, Goodman, Armstrong, Thomas Nagel, David Lewis, Searle, Rawls, Anscombe, Bernard Williams e Philippa Foot. Os organizadores optaram sempre que possível por textos acessíveis, como é o caso de "On What There Is" (traduzido para português por João Branquinho) e do humorístico diálogo de Max Black, o que torna esta antologia particularmente apetitosa. Cada uma das sete partes da antologia termina com uma útil lista de leituras complementares na área respectiva.

Como os organizadores afirmam na introdução, a tradição analítica sempre se caracterizou pela heterodoxia. As ideias centrais dos primeiros filósofos analíticos, como o princípio da verificabilidade dos positivistas lógicos e a ideia de análise de Russell e Moore, foram desde cedo submetidas ao escrutínio crítico. O resultado é uma tradição verdadeiramente académica, sem dogmas, que cultiva o livre pensamento. E precisamente porque o que se afirma em filosofia analítica não é cegamente aceite mas antes criticamente avaliado pelos seus pares, os filósofos analíticos procuram defender as suas ideias cuidadosamente, com argumentos sólidos. O que nem sempre conseguem.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (18 de Setembro de 2004)
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