A Grande História da Evolução
6 de Abril de 2005 ⋅ Livros

A história de todos nós

Desidério Murcho
A Grande História da Evolução, de Richard Dawkins
Tradução de Laura Teixeira Motta
São Paulo: Companhia das Letras, 2009, 792 pp.
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Este livro é um tesouro não apenas para o público em geral, mas também para cientistas e estudantes de biologia. Profusamente ilustrado, conta a história de todos os nossos antepassados. Depois dos capítulos iniciais, onde se esclarecem vários aspectos relativos à natureza da biologia e da teoria da evolução, cada capítulo é dedicado a um "concestor" dos seres humanos. O "concestor" (de "common ancestor": antepassado comum) de duas ou mais espécies é a espécie que lhes deu origem. No nosso caso, o primeiro "concestor" viveu há cerca de 5-7 milhões de anos, dando origem a nós e aos chimpanzés. São precisos apenas 39 "concestors" para chegarmos à fonte de toda a vida na Terra — e à conclusão de que temos uma irmandade íntima com todos os seres vivos.

Seria fácil um livro de história natural tão exaustivo como este revelar-se maçudo e aborrecido: uma lista de factos e nomes científicos de espécies. E sê-lo-ia, se Dawkins não fosse um escritor tão dotado e se não usasse duas estratégias que transformam este livro numa leitura maravilhosa. A primeira é inspirar-se nos Contos de Cantuária, do poeta inglês Chaucer (1340-1400). Assim, sempre que há uma história interessante para contar, uma explicação teórica mais significativa, ou um fenómeno em que importa meditar, Dawkins conta um pequeno "conto". O Conto do Pavão, por exemplo, enfrenta o problema de saber como se poderá explicar evolutivamente o imenso dispêndio de energia que o rabo esfuziante do pavão implica. Outro conto enfrenta a questão de saber como e porquê os nossos antepassados a dada altura se tornaram bípedes. E assim por diante, numa narrativa quase literária e que transmite um encantamento com o mundo que nos rodeia.

A segunda estratégia não pode ser exageradamente aplaudida. Para muitos professores, ensinar é uma questão de destilar factos que serão depois laboriosamente compreendidos e repetidos pelos estudantes, como se se tratasse de Verdades Absolutas, imutáveis e eternas. Esta abordagem, claro, tem a desvantagem terrível de dar uma imagem falsa da ciência (ou de qualquer outra disciplina do saber), pois confunde-a com os seus resultados, fingindo que tudo está sabido e arrumado e nada mais resta fazer senão compreender e depois repetir. Dawkins, como todo o professor e divulgador excelente, não esconde os bastidores da ciência: mostra-a em acção. Ou seja, mostra como se descobriu isto ou aquilo, ou por que razão não sabemos ainda qual das teorias ou explicações concorrentes é a melhor. Porque não esconde os problemas em aberto da biologia evolucionista, Dawkins ensina a pensar cientificamente — o que é tão ou mais importante do que ensinar factos da biologia.

Na crítica do Times à versão original a este livro, John Cornwell respondeu aos professores de biologia que se queixam de que os seus estudantes entram na universidade sem terem lido outros livros de biologia além dos de Dawkins: "Suspeito que a razão de queixa não se deve dirigir tanto a Dawkins quanto ao facto de os seus colegas serem incapazes de escrever estudos tão legíveis quanto os de Dawkins." A cátedra Charles Simonyi para a Compreensão Pública da Ciência, que Dawkins ocupa em Oxford, não podia escolher um cientista com mais vontade de dar a conhecer as maravilhas da ciência ao público em geral, numa prosa clássica e directa, despretensiosa e inteligente, viva e plena de encanto literário.

Nota: Esta crítica foi escrita em 2004, com base na leitura do original inglês. Nada sei portanto sobre a qualidade da edição brasileira.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (4 de Dezembro de 2004)
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