Animal Rights
31 de Outubro de 2004 ⋅ Ética

O filósofo é um animal

Desidério Murcho
Animal Rights: A Very Short Introduction, de David DeGrazia
Oxford: Oxford University Press, 2002, 131 pp.
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Somos todos animais. Séculos de preconceito, contudo, iludem esta verdade simples e fazem de nós estranhos numa terra estranha, seres do além aprisionados no aquém. Wittgenstein afirmou que se um leão falasse, não o poderíamos compreender — e condensou numa breve frase o preconceito humano por excelência: somos não apenas diferentes, mas radicalmente diferentes. Acontece que isto é falso. Quando o leão sente fome, sente aproximadamente o que nós sentimos. Quando sente fadiga, sente aproximadamente o que nós sentimos. Quando sacia a sede, sente aproximadamente o que nós sentimos. Tudo isto porque tanto ele como nós somos animais, com sistemas nervosos muito semelhantes, mecanismos biológicos análogos que evoluíram a partir dos mesmos organismos.

Chama-se "racismo" à atitude que consiste em traçar fronteiras morais entre raças com base em diferenças que moralmente não fazem diferença. E chama-se "especismo" à atitude que consiste em traçar fronteiras morais entre espécies com base em diferenças que moralmente não fazem diferença. Em ambos os casos há uma mistura de erro moral e erro factual. O erro moral é traçar distinções com base em diferenças moralmente irrelevantes: que diferença faz a pertença a uma espécie ou raça, se a capacidade para sentir dor ou sofrimento for equivalente? O erro factual é imaginar que quem não pertence à nossa raça ou espécie não sente dor como nós sentimos, o que é contrariado pela biologia.

David DeGrazia (Universidade George Washington, EUA), autor de Taking Animals Seriously (Cambridge University Press), apresenta de forma lúcida, simples e sintética os principais argumentos filosóficos contra e a favor do tratamento humanitário dos animais não humanos, assim como vários dados empíricos e históricos importantes para compreender este debate filosófico. Os seis capítulos do livro, precedidos por uma informativa introdução (que apresenta uma breve história do modo como a filosofia, a religião, a ciência e diferentes civilizações têm encarado os animais não humanos ao longo dos séculos), abordam os seguintes temas: o debate filosófico sobre a importância moral dos animais não humanos; o conhecimento científico que temos hoje dos animais não humanos; a imoralidade de fazer sofrer, privar da liberdade e matar animais não humanos; os problemas levantados, hoje em dia, pela indústria alimentar, que cria os animais não humanos em condições terríveis que poucas pessoas conhecem; os problemas levantados pela posse de animais de estimação e pelos jardins zoológicos; e, finalmente, o uso de animais não humanos na investigação científica.

De forma equilibrada e justa, sem quaisquer excessos retóricos, mas declarando desde logo que, como filósofo, o autor está convencido de que não é possível defender a irrelevância moral do tratamento que dispensamos aos animais não humanos, DeGrazia oferece-nos uma leitura informativa e imparcial. Apesar de entre nós existirem já obras importantes que tratam deste tema (como os livros Libertação Animal, na Via Optima, e Ética Prática, na Gradiva), subsiste ainda muita confusão e falta de informação elementar sobre este problema. Este pequeno livrinho, com apenas 131 páginas e 12 ilustrações, pode ajudar a enriquecer o debate nacional quanto às touradas e quanto à barraca de Barrancos. Uma leitura a não perder.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (17 de Abril de 2004).
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