O Princípio da Atracção
27 de Dezembro de 2004 ⋅ Livros

A atraente banalidade da verdade

Desidério Murcho
O Princípio da Atracção, de Teresa Direitinho
Oficina do Livro, 2003, 398 pp., €16

Há algo de estranho neste primeiro romance de Teresa Direitinho. Apesar da banalidade da história e da narrativa, e apesar das personagens um tanto ocas, lê-se compulsivamente — como quem lê as memórias francas e muito honestas de uma pessoa sensível mas sem muitas complexidades psicológicas, que sobretudo quer viver feliz num mundo quase infantil. O romance narra de forma directa, sem floreados, e na primeira pessoa, a vida de Laura, dos treze anos até perto dos trinta e cinco — de 1978 a 1999. Talvez a leitura seja compulsiva porque nos vence pela força simples das emoções verdadeiras.

Nada acontece de verdadeiramente extraordinário neste romance. Laura, aos treze anos, conhece David e Arthur, dois irmãos meio ingleses que vão passar as férias de Verão à propriedade da família no Alentejo. A normal camaradagem de pré-adolescentes livres e saudáveis, longe das grandes cidades, desenvolve-se sem sobressaltos. Entre os três há amizade, partilha, humor e o gosto de viver. Quase parece o idílio dos livros de Enid Blyton. Mas é claro que a paixão está no horizonte e o leitor pergunta-se qual é o desgraçado que vai ficar de fora. A coisa torna-se complicada com a entrada de John, um amigo americano dos irmãos. Agora há dois que ficam de fora.

O romance trata com parcimónia as hesitações amorosas de Laura e a tentativa de manter a amizade com os rapazes. O que ressalta é o enorme bom-senso daquela gentinha: entre os treze e os dezoito anos, talvez pareçam sensaborões ao leitor moderno. Contudo, o romance é bastante realista, neste aspecto. Se olharmos para as nossas próprias vidas, não são muito diferentes. E talvez seja este um dos aspectos que tornam a sua leitura compulsiva: não estamos em busca de literatura, mas de uma compreensão alargada da condição humana. Mas, pensando melhor, não é também isso que nos atrai na boa literatura?

Quando chegamos a meio do romance e a protagonista já se apaixonou à vez por dois dos rapazes, conseguindo a proeza de manter a amizade dos outros, começamos a perguntar o que raio poderá acontecer agora. E este é um aspecto que não desilude: o medo de que a história perca direcção e focagem é injustificado. Pelo contrário, o desenrolar da história vai esclarecendo aos poucos o sentido de todo romance: a busca incessante de Laura pela verdade emocional. Ela ama e é amada, apaixona-se e é objecto de paixão, mas quer algo mais: quer verdade.

O romance desenrola-se contra o pano de fundo do Alentejo. Mas a protagonista vive igualmente em Lisboa, visita Londres e o sul da Inglaterra, vive nos Estados Unidos e visita Áustria e Itália. A música e a ciência, as artes e a literatura, estão igualmente presentes. Mas há no uso de todos estes elementos aquela simplicidade banal que caracteriza o romance, e que resulta inesperadamente realista: afinal, para a maior parte das pessoas, todas estas coisas são como adornos para vidas que de outro modo seriam terrivelmente ocas. É como se a angústia, o desespero e o turbilhão que tantas vezes impulsiona a arte e a ciência dos outros fosse uma espécie de bálsamo para espectadores em busca de um sentido morno para as suas vidas banais.

Quem conhece o Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell (Ulisseia), reconhece neste romance o mesmo tema: a compreensão da amizade e do amor, daquela amizade funda que partiu da adolescência, daquele amor que desampara e dói. Mas, surpreendentemente, dada a alma fadista nacional, não há neste romance um lado negro: há luz a jorros por todo o lado e a vontade simples da felicidade simples. Olha-se o céu nocturno alentejano povoado de estrelas, mas sente-se apenas a maravilha de se estar vivo, de se ser jovem e de se ter amigos. Esta superficialidade é, de algum modo, chocante. Contudo, é realista.

Este é um romance para quem pertence à geração da autora, e que se revê claramente no tempo histórico retratado. Mas é também um romance especialmente apelativo para os que agora são adolescentes e que poderão aprender com as adolescências de outro tempo. Afinal, os adolescentes estão sempre condenados a ler o que se passa não na sua adolescência, mas na dos que agora são seus pais.

Desidério Murcho
Originalmente publicado no jornal Público (5 de Junho de 2004)
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