Novo Aurélio Século XXI
1 de Junho de 2001 ⋅ Livros

Quinze milhões de cópias

Desidério Murcho
Novo Aurélio Século XXI, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira et. al.
Nova Fronteira, 2000, 2.128 pp.

Os dicionários são um dos reflexos mais fiéis do desenvolvimento cultural de um país. E a mãe de todos os dicionários, o dicionário da língua, é talvez o melhor reflexo. Não admira que os dicionários portugueses sejam sinónimo de atraso — apesar do esforço de estudiosos como José Pedro Machado, que fez o que é até hoje o melhor dicionário português de língua portuguesa, ou Cândido de Figueiredo, cujo dicionário foi recentemente actualizado numa edição coordenada por Rui Guedes. Mas o dicionário que se impôs nas escolas foi o da Porto Editora, que sofre agora a concorrência do Dicionário Universal da Texto Editora (ambos baseados num dicionário mais antigo, e herdando deste os mesmos erros). Todos estes dicionários têm defeitos gritantes.

O maior problema dos dicionários de língua portuguesa radica num equívoco: confundem dicionário com vocabulário. Quase todos são apenas vocabulários a caminho de um verdadeiro dicionário. Um vocabulário é apenas uma lista de palavras, que regista a sua ortografia correcta, as suas variações e a sua classificação gramatical. Um dicionário deve definir explicitamente cada palavra. Quando se confundem as duas coisas, temos os dicionários portugueses: listas de palavras com quatro ou cinco sinónimos à frente.

Como é óbvio, nem sempre é possível definir explicitamente uma palavra; definir explicitamente a palavra "pois" deve ser impossível. Mas há muitos casos em que a definição explícita é possível. A palavra "azoto", por exemplo, pode ser explicitamente definida com todo o rigor. Todavia, o que o dicionário de Cândido de Figueiredo nos diz é que se trata de um "corpo simples, gasoso, que constitui a maior parte do ar atmosférico". Nem sequer nos diz que "azoto" é a designação do nitrogénio. Em contraste, o dicionário de língua inglesa da Collins, diz-nos o seguinte:

"um elemento gasoso sem cor nem odor e relativamente não reactivo que constitui 78 % do ar (em volume), está presente em muitos compostos e é um constituinte essencial das proteínas e dos ácidos nucleicos; é usado para fabricar amoníaco e outros químicos, e como elemento refrigerante. Símbolo: N; número atómico: 7; peso atómico: 14.0067; valência: 3 ou 5; densidade: 1/251 kg/m3; ponto de fusão: -209.86°C; ponto de ebulição: -195.8°C"

A definição do Dicionário da Porto Editora é, neste caso, muito melhor do que a do Cândido, apesar de não ser tão boa como a do Collins.

Um elemento que constitui um reflexo do fechamento português é o facto de os melhores dicionários brasileiros não estarem disponíveis em Portugal; nomeadamente, o monumental Aurélio. A língua é só uma, e tal como na América se vendem dicionários ingleses e vice-versa, devia também acontecer o mesmo relativamente a Portugal e ao Brasil. Mas não acontece. Que os brasileiros ignorem os nossos dicionários, não me admira, dada a sua falta de qualidade; mas que os portugueses ignorem um dicionário brasileiro como o Aurélio é impressionante.

O Dicionário Aurélio foi a obra da vida de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, infelizmente falecido em 1989. Lançado pela primeira vez em 1975, não podemos continuar a ignorar esta obra, que foi agora completamente revista e actualizada por uma vasta equipa dirigida por Margarida dos Anjos e Marina Baird Ferreira. Esta terceira edição surgiu no final de 1999, tem por título "Novo Aurélio Século XXI", e foi dada à estampa pela Editora Nova Fronteira. Com 2.128 páginas de formato gigante, é de longe maior do que qualquer dicionário português. Mas o brasileiro "Moderno Dicionário Michaelis da Língua Portuguesa" é ainda maior.

A edição é profissionalíssima, o grafismo sóbrio, e tudo foi feito com o cuidado que uma obra desta natureza merece. Há uma versão em CD-ROM que aconselho já a todos os autores, tradutores, professores, investigadores e outras pessoas que usam intensamente a língua portuguesa: este é um dos melhores dicionários de português que se pode ter (não se preocupe: o Dicionário contém todas as variações do português lusitano e do português tropical).

O Aurélio define 435 mil palavras. Para termos uma ideia do que isto significa, o famoso Oxford English Dictionary apresenta 414 mil palavras (mas a sua nova edição, agora em preparação, irá aumentar em muito este número). E os maiores dicionários portugueses da língua portuguesa não chegam às… cem mil palavras. De 1975 até hoje já se venderam quinze milhões de cópias do Aurélio — à excepção da Bíblia, nenhum outro livro se vendeu em tão elevado número no Brasil. Da primeira impressão desta terceira versão do dicionário fizeram-se cem mil exemplares, já esgotados. E a segunda impressão está já esgotada também. Infelizmente, não está disponível on-line.

O Aurélio apresenta uma nota editorial, três prefácios (referentes às três edições), páginas que explicam como usar o dicionário, uma tabela de transcrições fonéticas, um índice de abreviaturas e símbolos, um formulário ortográfico, o documento oficial da nomenclatura gramatical brasileira, um mapa das principais línguas indo-europeias e uma imensa bibliografia de livros e periódicos consultados. Uma das características do Aurélio é o uso de "autoridades", isto é, a citação de uma passagem onde o termo a ser definido ocorre no sentido relevante. E o dicionário vem com um útil cartão com os sinais usados, que serve também de marcador.

Muitas palavras ausentes dos dicionários portugueses, como "acrolecto" e "mereologia" (não confundir com "merologia") surgem no Aurélio. Além disso, surgem também no dicionário inúmeras palavras de origem latina que são usadas em português, como é o caso de a posteriori e a priori; o mesmo acontece com o "latim do século XXI", os termos ingleses que entretanto entraram infelizmente na língua portuguesa, como download ou software. As definições são em geral mais completas, mais correctas e mais informativas do que as dos dicionários portugueses.

Todavia, o atraso no estudo de algumas disciplinas, como o caso da filosofia, continua a reflectir-se negativamente no Aurélio, como em todos os dicionários e enciclopédias de língua portuguesa. Veja-se, por exemplo, a definição de "a priori" do Aurélio: "Diz-se de conhecimento admitido provisoriamente, ainda não suficientemente justificado, sendo incerto se o virá a ser". Este é o sentido popular que a expressão tem em português. Mas depois vem a desgraça, quando se pretende captar o sentido que o termo tem na filosofia: "Diz-se de conhecimento que é condição de possibilidade de experiência, e que independe dela quanto à sua própria origem". Isto é uma paráfrase de um texto de Kant com mais de dois séculos. Mas "conhecimento a priori" quer apenas dizer "conhecimento independente da experiência empírica"; que esse conhecimento seja condição de possibilidade da experiência, é uma doutrina de Kant e não faz parte do conceito de conhecimento a priori. Compare-se com o dicionário Collins: "Que se sabe ser verdadeiro independentemente de se ter experiência do tema em causa ou antes de tal ocorrer; que não exige prova empírica para a sua validação ou defesa".

Pior ainda é o caso do termo "filosofia". No dicionário da Porto Editora podemos ler o seguinte: "Indagação racional sobre o mundo e o homem, com o propósito de encontrar a sua explicação última". (E a mulher não pode ser objecto de indagação? Este sexismo linguístico é escusado e retrógrado.) Pior ainda é a definição de Cândido de Figueiredo:

"Reflexão de carácter englobante sobre a natureza das coisas, o ser, o sentido do indivíduo, das civilizações e da Humanidade. Estudo dos métodos indispensáveis a essa reflexão. Hoje em dia, tende-se a considerar que, uma vez que os temas indicados variam com a passagem do tempo, a filosofia não poderá tanto pensar-se como um corpo de doutrina ou uma disciplina intemporal, mas como uma capacidade de problematizar os temas que as circunstâncias vão propondo à reflexão".

Compare-se estas definições com a seguinte:

"A disciplina académica que procura tornar explícitas a natureza e o significado das convicções comuns e científicas e que investiga a inteligibilidade de conceitos por meio da argumentação racional, ocupando-se esta dos pressupostos, implicações e inter-relações desses conceitos; em particular, a investigação racional da natureza e estrutura da realidade (metafísica), dos recursos e limites do conhecimento (epistemologia), dos princípios e da importância do juízo moral (ética) e da relação entre a linguagem e a realidade (semântica)."

Esta é a definição, muito superior, do Collins.

O Aurélio não faz muito melhor do que os dicionários portugueses; e afirma mesmo que "o homem" é "tema inevitável de consideração" no estudo da filosofia. Isto é falso e sexista. Uma pessoa pode estudar filosofia da linguagem, metafísica ou filosofia da arte durante décadas sem se preocupar com questões que envolvam mais directamente o estudo da humanidade do que um biólogo.

À parte as limitações do Aurélio nos casos de algumas disciplinas académicas cujo estudo em língua portuguesa está na pré-história, trata-se de uma obra imponente, que todo o amante da cultura de língua portuguesa deve ter na sua estante — ou no seu computador, em CD-ROM. E era bom que um dicionário português chegasse perto do padrão de qualidade do Aurélio.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Texto publicado na revista Livros (Janeiro de 2001)
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