Quinze milhões de cópias
Desidério MurchoNova Fronteira, 2000, 2.128 pp.
Os dicionários são um dos reflexos mais fiéis do desenvolvimento cultural de um país. E a mãe de todos os dicionários, o dicionário da língua, é talvez o melhor reflexo. Não admira que os dicionários portugueses sejam sinónimo de atraso — apesar do esforço de estudiosos como José Pedro Machado, que fez o que é até hoje o melhor dicionário português de língua portuguesa, ou Cândido de Figueiredo, cujo dicionário foi recentemente actualizado numa edição coordenada por Rui Guedes. Mas o dicionário que se impôs nas escolas foi o da Porto Editora, que sofre agora a concorrência do Dicionário Universal da Texto Editora (ambos baseados num dicionário mais antigo, e herdando deste os mesmos erros). Todos estes dicionários têm defeitos gritantes.
O maior problema dos dicionários de língua portuguesa radica num equívoco: confundem dicionário com vocabulário. Quase todos são apenas vocabulários a caminho de um verdadeiro dicionário. Um vocabulário é apenas uma lista de palavras, que regista a sua ortografia correcta, as suas variações e a sua classificação gramatical. Um dicionário deve definir explicitamente cada palavra. Quando se confundem as duas coisas, temos os dicionários portugueses: listas de palavras com quatro ou cinco sinónimos à frente.
Como é óbvio, nem sempre é possível definir explicitamente uma palavra; definir explicitamente a palavra "pois" deve ser impossível. Mas há muitos casos em que a definição explícita é possível. A palavra "azoto", por exemplo, pode ser explicitamente definida com todo o rigor. Todavia, o que o dicionário de Cândido de Figueiredo nos diz é que se trata de um "corpo simples, gasoso, que constitui a maior parte do ar atmosférico". Nem sequer nos diz que "azoto" é a designação do nitrogénio. Em contraste, o dicionário de língua inglesa da Collins, diz-nos o seguinte:
"um elemento gasoso sem cor nem odor e relativamente não reactivo que constitui 78 % do ar (em volume), está presente em muitos compostos e é um constituinte essencial das proteínas e dos ácidos nucleicos; é usado para fabricar amoníaco e outros químicos, e como elemento refrigerante. Símbolo: N; número atómico: 7; peso atómico: 14.0067; valência: 3 ou 5; densidade: 1/251 kg/m3; ponto de fusão: -209.86°C; ponto de ebulição: -195.8°C"
A definição do Dicionário da Porto Editora é, neste caso, muito melhor do que a do Cândido, apesar de não ser tão boa como a do Collins.
Um elemento que constitui um reflexo do fechamento português é o facto de os melhores dicionários brasileiros não estarem disponíveis em Portugal; nomeadamente, o monumental Aurélio. A língua é só uma, e tal como na América se vendem dicionários ingleses e vice-versa, devia também acontecer o mesmo relativamente a Portugal e ao Brasil. Mas não acontece. Que os brasileiros ignorem os nossos dicionários, não me admira, dada a sua falta de qualidade; mas que os portugueses ignorem um dicionário brasileiro como o Aurélio é impressionante.
O Dicionário Aurélio foi a obra da vida de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, infelizmente falecido em 1989. Lançado pela primeira vez em 1975, não podemos continuar a ignorar esta obra, que foi agora completamente revista e actualizada por uma vasta equipa dirigida por Margarida dos Anjos e Marina Baird Ferreira. Esta terceira edição surgiu no final de 1999, tem por título "Novo Aurélio Século XXI", e foi dada à estampa pela Editora Nova Fronteira. Com 2.128 páginas de formato gigante, é de longe maior do que qualquer dicionário português. Mas o brasileiro "Moderno Dicionário Michaelis da Língua Portuguesa" é ainda maior.
A edição é profissionalíssima, o grafismo sóbrio, e tudo foi feito com o cuidado que uma obra desta natureza merece. Há uma versão em CD-ROM que aconselho já a todos os autores, tradutores, professores, investigadores e outras pessoas que usam intensamente a língua portuguesa: este é um dos melhores dicionários de português que se pode ter (não se preocupe: o Dicionário contém todas as variações do português lusitano e do português tropical).
O Aurélio define 435 mil palavras. Para termos uma ideia do que isto significa, o famoso Oxford English Dictionary apresenta 414 mil palavras (mas a sua nova edição, agora em preparação, irá aumentar em muito este número). E os maiores dicionários portugueses da língua portuguesa não chegam às… cem mil palavras. De 1975 até hoje já se venderam quinze milhões de cópias do Aurélio — à excepção da Bíblia, nenhum outro livro se vendeu em tão elevado número no Brasil. Da primeira impressão desta terceira versão do dicionário fizeram-se cem mil exemplares, já esgotados. E a segunda impressão está já esgotada também. Infelizmente, não está disponível on-line.
O Aurélio apresenta uma nota editorial, três prefácios (referentes às três edições), páginas que explicam como usar o dicionário, uma tabela de transcrições fonéticas, um índice de abreviaturas e símbolos, um formulário ortográfico, o documento oficial da nomenclatura gramatical brasileira, um mapa das principais línguas indo-europeias e uma imensa bibliografia de livros e periódicos consultados. Uma das características do Aurélio é o uso de "autoridades", isto é, a citação de uma passagem onde o termo a ser definido ocorre no sentido relevante. E o dicionário vem com um útil cartão com os sinais usados, que serve também de marcador.
Muitas palavras ausentes dos dicionários portugueses, como "acrolecto" e "mereologia" (não confundir com "merologia") surgem no Aurélio. Além disso, surgem também no dicionário inúmeras palavras de origem latina que são usadas em português, como é o caso de a posteriori e a priori; o mesmo acontece com o "latim do século XXI", os termos ingleses que entretanto entraram infelizmente na língua portuguesa, como download ou software. As definições são em geral mais completas, mais correctas e mais informativas do que as dos dicionários portugueses.
Todavia, o atraso no estudo de algumas disciplinas, como o caso da filosofia, continua a reflectir-se negativamente no Aurélio, como em todos os dicionários e enciclopédias de língua portuguesa. Veja-se, por exemplo, a definição de "a priori" do Aurélio: "Diz-se de conhecimento admitido provisoriamente, ainda não suficientemente justificado, sendo incerto se o virá a ser". Este é o sentido popular que a expressão tem em português. Mas depois vem a desgraça, quando se pretende captar o sentido que o termo tem na filosofia: "Diz-se de conhecimento que é condição de possibilidade de experiência, e que independe dela quanto à sua própria origem". Isto é uma paráfrase de um texto de Kant com mais de dois séculos. Mas "conhecimento a priori" quer apenas dizer "conhecimento independente da experiência empírica"; que esse conhecimento seja condição de possibilidade da experiência, é uma doutrina de Kant e não faz parte do conceito de conhecimento a priori. Compare-se com o dicionário Collins: "Que se sabe ser verdadeiro independentemente de se ter experiência do tema em causa ou antes de tal ocorrer; que não exige prova empírica para a sua validação ou defesa".
Pior ainda é o caso do termo "filosofia". No dicionário da Porto Editora podemos ler o seguinte: "Indagação racional sobre o mundo e o homem, com o propósito de encontrar a sua explicação última". (E a mulher não pode ser objecto de indagação? Este sexismo linguístico é escusado e retrógrado.) Pior ainda é a definição de Cândido de Figueiredo:
"Reflexão de carácter englobante sobre a natureza das coisas, o ser, o sentido do indivíduo, das civilizações e da Humanidade. Estudo dos métodos indispensáveis a essa reflexão. Hoje em dia, tende-se a considerar que, uma vez que os temas indicados variam com a passagem do tempo, a filosofia não poderá tanto pensar-se como um corpo de doutrina ou uma disciplina intemporal, mas como uma capacidade de problematizar os temas que as circunstâncias vão propondo à reflexão".
Compare-se estas definições com a seguinte:
"A disciplina académica que procura tornar explícitas a natureza e o significado das convicções comuns e científicas e que investiga a inteligibilidade de conceitos por meio da argumentação racional, ocupando-se esta dos pressupostos, implicações e inter-relações desses conceitos; em particular, a investigação racional da natureza e estrutura da realidade (metafísica), dos recursos e limites do conhecimento (epistemologia), dos princípios e da importância do juízo moral (ética) e da relação entre a linguagem e a realidade (semântica)."
Esta é a definição, muito superior, do Collins.
O Aurélio não faz muito melhor do que os dicionários portugueses; e afirma mesmo que "o homem" é "tema inevitável de consideração" no estudo da filosofia. Isto é falso e sexista. Uma pessoa pode estudar filosofia da linguagem, metafísica ou filosofia da arte durante décadas sem se preocupar com questões que envolvam mais directamente o estudo da humanidade do que um biólogo.
À parte as limitações do Aurélio nos casos de algumas disciplinas académicas cujo estudo em língua portuguesa está na pré-história, trata-se de uma obra imponente, que todo o amante da cultura de língua portuguesa deve ter na sua estante — ou no seu computador, em CD-ROM. E era bom que um dicionário português chegasse perto do padrão de qualidade do Aurélio.