A Ave-do-Arremedo, de Walter Tevis
Livros

Arremedos de humanidade

Pedro Oliveira
A Ave-do-Arremedo, de Walter Tevis
Tradução de Manuel Ruas
Editorial Caminho, 1987, 208 pp.
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Imagine uma sociedade orientada por “robots” inteligentes. Imagine uma sociedade em que os livros e os filmes foram proscritos e relegados para caves escuras e bafientas; a arte também não mais foi contemplada por olhos alguns: subjaz igualmente nos calabouços.

Nesta sociedade, o trabalho manual é executado por "escravos" de ordem tecnológica inferior à dos seus pares da Série Nove, a mais avançada que já alguma vez foi construída. Spofforth é um deles. Mas já lá vamos.

Homens e mulheres, libertos da servidão laboral (louvável tarefa, pois então, já que nem Marx com a sua ditadura do proletariado pareceu adivinhar futuro tão radioso!), dedicam o seu tempo livre, imenso, infindável, ao culto da espiritualidade, ao sexo e ao consumo de drogas que têm por fim último controlar a natalidade e suprimir toda a espécie de angústias, reflexões ou dúvidas existenciais.

Eis o quadro referencial onde o autor Walter Tevis situa este admirável romance de ficção científica que nos faz reflectir sobre a condição humana, precisamente aquilo que verdadeiramente nos distingue dos outros seres que connosco compartilham a aventura e o mistério da vida.

Ainda que inteligentes e sofisticados, os “robots” da Série Nove, como Spofforth, estão para os homens como os “tamagoshis” estão para os animais de estimação: constituem meras falsificações de humanidade — arremedos.

Uma outra curiosidade deste “A Ave-do-Arremedo”, ou “Mockingbird”, no original, reside precisamente na escolha do título da obra, para o qual o tradutor chama a atenção logo no início do livro: o nome científico desta ave é “Mimus Polyglottus”, que designa uma espécie de ave canora característica de certas regiões das Américas do Norte, Centro e Sul, que possui a capacidade de imitar facilmente o canto das outras aves. Daí a alcunha de poliglota. À medida que progredimos na leitura do romance verificamos o quão feliz se mostra a escolha do título e o quão pertinente é a chamada de atenção do tradutor.

Depois há esse tal “robot”, Spofforth, quase humano, por isso mesmo indestrutível, que não quer mais continuar a "viver", por conta do seu tempo de operação que, desde a data da sua activação, já lhe deu mais a experimentar do que aquilo que alguma vez os seus circuitos neuronais sintéticos poderiam imaginar. Um “robot” que não esquece nada, jamais. A recordação fugidia de uma rapariga que outrora trajou de vermelho e por quem ele nutriu especial afecto assola a sua mente como um fantasma. Enamorou-se dela sem que esta, no meio do seu torpor alucinatório, o tivesse distinguido, uma vez que fosse, dos outros (e inúmeros) parceiros sexuais que teve ao longo da sua vida. Viu-a envelhecer, perder o seu ar trigueiro e maroto que tanto o encantou e, no fim, morrer, como qualquer outra pessoa que um dia Spofforth conheceu.

E há também uma mulher especial, Mary Lou, que, num surto, num lampejo de humana inteligência e sensibilidade, decide correr o risco de não mais consumir drogas. Vive sozinha num Jardim Zoológico, escondida da horda de "agentes de segurança" que zelam ininterruptamente pelo bem-estar e segurança dos seres humanos, pois para isso foram programados... por outros seres humanos!

É com Mary Lou que o terceiro personagem (o protagonista?), Bentley, se cruza, durante o seu processo de auto-conhecimento, antes impossível enquanto a luz da sua mente permaneceu embotada pela acção dos mesmos fármacos acessíveis a todos os habitantes do planeta.

Bentley é chamado por Spofforth quando este sente curiosidade pela mensagem contida nas legendas de um filme da época do cinema mudo, a qual, como iletrado, e à semelhança de todos (excepto Bentley), não consegue descodificar. Na senda deste primeiro trabalho, a tomada de contacto com os arquivos audiovisuais e com as bibliotecas escondidas dos olhos de todos vai precipitar as coisas, servindo de catalisador da mudança interna que Bentley vai experimentar, sensivelmente coetânea do primeiro encontro com Mary Lou, deixando-nos adivinhar uma espécie de correlação entre ambas as experiências. Qual delas a mais importante? Qual delas determina a outra? Caberá ao leitor responder, se o souber.

“A Ave-do-Arremedo” surge-nos assim como uma advertência, uma corrida contra o tempo para que não seja tarde de mais e a paisagem dos afectos humanos não se extinga, à semelhança do verde que, se nada for feito, nada mais será que uma pálida memória. Mas é também, e sobretudo, uma aventura, uma viagem ao mais recôndito de nós mesmos, dos nossos verdadeiros e profundos anseios. É certamente isto que espera o leitor deste admirável romance. Pois, se é verdade que nós lemos livros, também não é menos verdade, como já alguém o disse, que os livros também nos lêem. Cabe ao hipotético leitor dar o primeiro passo.

Pedro Oliveira
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