O Périplo de Baldassare, de Amin Maalouf
Livros

O centésimo nome

Maria João Cantinho
O Périplo de Baldassare, de Amin Maalouf
Tradução de António Pescada
Difel, 2001, 402 pp.

Eis que nos chega o tão ansiado último livro de Amin Maalouf: O Périplo de Baldassare. De tal maneira esperado, que uma primeira edição teria sido enviada directamente às mãos dos livreiros e, agora já foi distribuída nas livrarias do país. Como o público amante de Maalouf se habituou, cada obra chega-nos como algo de precioso, rapidamente lido e com aquele intenso prazer que caracteriza o modo de contar histórias, como tão habilmente Maalouf nos habituou, desde sempre. Saído em 2000 em França, rapidamente foi traduzido durante este ano.

Para quem não conheça este ilustre escritor, basta dizer que foi o autor de livros tão aclamados como Samarcanda, O Leão Africano, As Cruzadas Vistas pelos Árabes (Prix Maisons de la Presse), Jardins de Luz, O Século Primeiro depois de Beatriz, o Rochedo de Tanios (Prémio Goncourt 1993), Escalas do Levante e Identidades Assassinas.

Nascido no Líbano em 1949 e vivendo em Paris desde 1976, tornou-se jornalista e um grande repórter durante doze anos, em mais de sessenta países. Posteriormente tornou-se editor de Jeune Afrique, embora consagre a maior parte do seu tempo à preparação dos seus livros.

A sua escrita divide-se entre o romance histórico e o romance propriamente dito e o Périplo de Baldassare inscreve-se na categoria do romance histórico, que nos é descrito e contado de forma admirável. Quem é Baldassare? Trata-se de um rico genovês, viúvo e que tem dois sobrinhos que irão acompanhá-lo neste estranho périplo ou viagem, na companhia de um criado, Hatem, e de uma bela mulher, em busca do marido desaparecido, Marta.

Afinal o que procuram todos? Um livro chamado O Centésimo Nome, obra mítica atribuída a al-Mazandarani.

Ora, como é sabido, os nomes de Deus para os muçulmanos são noventa e nove. O centésimo nome atribuiria poderes mágicos àquele que o conhecesse.

Todo o contexto histórico e cultural do romance passa-se no ano de 1666, ano em que se dizia ser "o ano da Besta", de acordo com os cálculos e previsões da alquimia e da cabala e, também, da astrologia. O ano em que todas as pessoas, à excepção de alguns cépticos e incrédulos, acreditavam na vinda do Anti-Cristo. Daí "ano da besta".

A história começa com a entrada, na loja do genovês Baldassare, do russo que trazia um misterioso livro em que era anunciado o apocalipse e que procurava a resposta para tal problema na mítica obra O Centésimo Nome, atribuído a al-Mazandarani.

E eis que uma misteriosa personagem, Idriss, um sujeito andrajoso, pobre e velho, vindo não se sabe de onde, se apresenta na loja do genovês Baldassare, propondo-lhe a venda de um livro e afiançando-lhe que se tratava de um tesouro. Embora desconfiado pela proposta do velho, Baldassare compra-lhe o livro e mais tarde levar-lhe-á a casa o dinheiro conseguido, que lhe servirá de grande ajuda financeira, dado o estado em que ele vive.

Em retribuição, Idriss resolve doar o bem mais precioso que possui, O Centésimo Nome. E é aqui que a aventura começa. Por um equívoco, o fabuloso livro é adquirido por um nobre francês que o pretendia levar para Constantinopla. Os sobrinhos, sabendo daquela equívoca venda, não admitiram que o tio se tivesse desfeito de um livro tão famoso e resolvem partir no encalço de Marmontel, para recuperar o livro.

A partir daí, o sentido do título do livro alcança toda a sua plenitude, pois é escrito à maneira de um diário, em que são reveladas todos os factos importantes que vão marcando e pautando os dias dos viajantes.

Pelo meio, como não podia deixar de existir num romance, surge a mais bela história de amor, entre Baldassare e a bela Marta, aquela que decidira ir procurar o marido, na esperança de o encontrar morto. Apaixonados, sabem de antemão que aquele amor é inconcretizável, daí que uma tensão permanente e ao mesmo tempo sublime paire sempre acima dessas personagens, emprestando-lhes uma dimensão algo trágica.

O brilho e a clareza da escrita de Amin Maalouf é o seu grande segredo, fazendo intercalar vários modos de introduzir vários níveis de discurso, seja ele o do narrador ou o diálogo. Uma fina e subtil ironia está sempre presente na sua escrita, bem como uma atenção constante à descrição historicamente correcta dos factos, se pensarmos que se trata de um romance histórico.

É, na verdade, um romance delicioso, que se lê de um fôlego, desde o seu início até ao final. Todas as personagens são finamente trabalhadas, quase ao pormenor, de tal forma que quase as vemos. Amin Maalouf, não será exagerado dizê-lo, é um dos grandes escritores da actualidade, pela sua frescura, pelo seu rigor e pelo domínio da escrita. Talvez possa afirmar que não possui o fulgor de Samarcanda ou de Leão, o Africano, mas é um livro belíssimo e a não perder.

Maria João Cantinho
mjcantinho@hotmail.com
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