O Banqueiro Anarquista, de Fernando Pessoa

Desembrulha e lê

Júlio Sameiro
O Banqueiro Anarquista, de Fernando Pessoa
Assírio & Alvim, 1999, 105 pp.

Conheço um banqueiro anarquista! Achas que um banqueiro pode ser anarquista?
— Um bem sucedido banqueiro?
— Sim...
— Que tem uma vida oculta? Financia grupos subversivos? Participa em algum deles?
— Acho que não... A resposta é não.
— Um anarco-hipócrita? Põe a máscara anarca para sacar alguma (ou algum) jovem anarco artista do seu anarco-círculo?
— Não.
— ... ou para escrever, sob pseudónimo, anarco artigos na revista da moda?
— Não.
— ... é uma espécie de anarco autoflagelante? Dessas coisas que dão na burguesia de vez em quando?
— Não, nada disso, nada de masoquismo ou consciência angustiada, aliás, nada de remorsos...
— Para impressionar? Para os amigos dizerem que ele é uma gracinha com aquelas conversas de anarca?
— Nada disso. É um banqueiro seriamente anarquista ...
— ... mas auto indulgente, perdoa-se por ter o anarquismo na gaveta enquanto espera a vaga da revolução social?
— Pode parecer... mas não, nada de auto indulgência...
— Inventou uma nova definição de anarquismo?
— Não. Desde o seu tempo de jovem proletário que identifica o anarquismo com a dissolução de todo o tipo de ficção social... por um estado de coisas em que o homem viva de acordo com a sua natureza.
— Ah! e ser banqueiro é o destino natural do homem?
— Não pá! O dinheiro é a maior das ficções...
— Humm... pois... ele está confundido ou confundiu-te?
— Nada disso! ... ou talvez me tenha confundido... Mas ele é pura lucidez!
— !?
— Pessoa muito inteligente, pensa por si, discute consigo mesmo, vive de acordo com as suas conclusões.
— Ah! Já sei, um filósofo! Os filósofos podem inventar tudo, baralhar tudo, justificar tudo... dizer o que lhes apetece e fazer o que os outros fazem...
— Deliras. Eu disse-te que ele vive de acordo com as suas conclusões e não que conclui de acordo com a sua vida...
— Ninguém pode ser tão extraordinário. Só vendo é que acredito.
— Essa é fácil, toma, desembrulha e lê.
— Hum... "O Banqueiro Anarquista" de Fernando Pessoa?
— São poucas páginas, até tu podes ler. Depois diz-me coisas. Os cafés estão pagos. Tchau.

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