O Mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias, de Jorge Buescu
6 de Agosto de 2004 ⋅ Livros

A verdadeira cultura

Desidério Murcho
O Mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias: Crónicas das fronteiras da ciência, de Jorge Buescu
Lisboa: Gradiva, 2001, 224 pp.
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Platão convidou-nos a considerar, em A República, a hipótese de sermos como escravos numa caverna que, acorrentados, apenas entrevemos as sombras da realidade. O projecto da ciência, da filosofia e das artes tem sido sempre o mesmo: a libertação desta situação intolerável. Infelizmente, em Portugal há muitos apologistas das trevas cavernosas de Platão — místicos sem religião que encontram em palavras turvas a teologia pobrezinha para aquietar almas infantis. É com enorme, imenso, espanto que leio uma obra libertadora, de um português. De tão habituado que estamos a pensar que este tipo de livros tem de vir de fora, que se lê com sofreguidão o livro de Jorge Buescu — um livro ao nível do que de melhor se faz na divulgação científica em todo o mundo. E um livro que mostra uma vez mais que a cultura não é aquela coisinha das alminhas penadas em busca de paliativos infantis em falsas metafísicas palavrosas baseadas em etimologias selvagens. A cultura, a verdadeira cultura, que nos liberta, que nos encanta, que nos ajuda a transcender as nossas limitações e a conhecer de perto a nossa natureza íntima, como seres humanos — essa cultura não é alheia à ciência; aliás, nunca o foi. Os grandes escritores e artistas, os grandes filósofos e pensadores de todos os tempos sempre foram pessoas abertas à ciência e ao conhecimento. Só um romantismo mal digerido e uma divisão tonta entre as tristemente chamadas "humanidades" e as ciências pôde dar a ideia errada de que é possível ser-se culto sem saber o que é um número primo ou sem ter a mínima ideia do que é a teoria dos números ou a natureza óptica do pôr-do-sol. E isto é irónico: António Gedeão, um dos maiores poetas portugueses, foi um homem de ciência, e foi um homem que integrou como ninguém a ciência na poesia.

Este livro está dividido em 4 partes, todas elas compostas por pequenos textos de 5 a 8 páginas. Está de parabéns a revista Ingenium, onde estes textos foram originalmente publicados. A primeira parte, intitulada "Matemática", apresenta um conjunto de 20 textos que tratam, entre outros temas, do misterioso número de controlo que surge nos bilhetes de identidade portugueses, dos números primos e do último teorema de Fermat, do pi, e de muitos outros temas. A segunda parte ("Física") apresenta um conjunto de 6 textos sobre a bomba atómica, a física quântica, a "teleportação" de Star Trek e outros temas. A terceira ("Cepticismos") apresenta 5 textos sobre as tontices da pseudo-ciência e do pós-modernismo (denunciado por Sokal) e mostra como é possível prever que o Boavista não será campeão. A quarta parte, intitulada "Fronteiras", apresenta 4 textos sobre temas como o enorme tamanho aparente do Sol no ocaso e da Lua quando nasce, a vida e a obra de Paul Ërdos e a infame Lei de Murphy.

Todos os textos são divertidos, simpáticos, inteligentes, informativos, claros, profundos, estimulantes. Buescu apresenta uma visão lúcida da ciência e mostra os encantos que a ciência nos dá a conhecer. Uma das características inovadoras do livro (em termos nacionais…) é apresentar vários endereços de publicações da Internet sempre que isso vem a propósito.

Gostaria de chamar a atenção para o prólogo, onde o autor explica como se filtra o trabalho de investigação. Isto é muito importante, porque é precisamente o desconhecimento destes processos de controle de qualidade que explica o atraso português nas humanidades. Em filosofia, por exemplo, só há uma revista académica com submissões anónimas — que raramente recebe submissões nacionais! E presumo que nas outras áreas das humanidades as coisas não sejam diferentes. Qual é a importância do mecanismo da submissão anónima de artigos (e livros, se tivéssemos editores académicos)? A importância é o controlo do disparate. Submete-se um artigo a uma revista. Esse artigo é avaliado por dois ou mais especialistas na área, sem saberem quem é o autor do artigo. O objectivo da avaliação é determinar se o artigo não tem erros elementares, se o autor sabe do que está a falar — enfim, se não é uma impostura intelectual. Os especialistas fazem então um relatório em que dizem o que acham do artigo: que deve ser publicado ou não, e porquê. Sem este sistema, não há qualquer razão para pensar que os artigos têm realmente valor académico. É por isso que, como diz o autor, publicar artigos académicos em revistas sem submissão anónima não tem qualquer valor para o currículo do seu autor — ou não devia ter, se Portugal não estivesse tão atrasado a esse respeito, sobretudo nas humanidades.

Jorge Buescu é professor de Matemática no Instituto Superior Técnico, e doutorado em matemática pela Universidade de Warwick. E este livro é um marco na literatura portuguesa, revelando um autor que ultrapassou o provincianismo português típico, que sabe pensar, que está a par da discussão internacional de ideias e que tem o dom de nos abrir as portas ao maravilhoso mundo do pensamento lúcido. A ler e reler, a usar nas escolas, e a esfregar na cara dos sucessivos Ministros da Educação, que continuam a querer impingir a estudantes indefesos programas e manuais ultrapassados, doentios, errados e tontos. E agora é esperar impaciente por mais um livro de Buescu.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Texto publicado na revista Livros (n.º 24, Setembro de 2001)
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