Biliões e Biliões, de Carl Sagan

Conhecer a realidade

Desidério Murcho
Biliões e Biliões: Pensamentos sobre a vida e a morte no limiar do milénio, de Carl Sagan
Tradução de Francisco Agarez e Rita Silva Lopes
Gradiva, 1998, 252 pp.
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Foi finalmente publicada a tradução portuguesa do último livro do malogrado Carl Sagan, falecido em Dezembro de 1996. A obra está dividida em três partes, cada uma das quais está subdividida em 6-7 capítulos. No final podemos ler um epílogo da autoria da sua mulher, Anne Druyan, redigido já depois da morte de Carl Sagan. A tradução de Francisco Agarez e Rita Silva Lopes é não só correcta e elegante — o que só por si é um feito neste país — mas extremamente cuidada e muito inteligente. É caso para dizer que Francisco Agarez e Rita Silva Lopes estiveram à altura do grande autor que traduziram.

A primeira parte trata da quantificação, da inteligência do mundo que os números nos dão. A segunda parte trata dos problemas ambientais do nosso planeta, dos factos relevantes e do que podemos fazer. A terceira parte trata da incansável capacidade humana para a guerra, do aborto, das descobertas de Axelrod e termina com um capítulo redigido por Carl Sagan já depois de ter sido submetido a várias transfusões de medula óssea.

A primeira parte constitui um excelente antídoto para os que encaram com horror os números, a matemática, a precisão. Sagan mostra como a quantificação nos permite um conhecimento muito mais profundo do mundo que nos rodeia. Recomendaria vivamente este capítulo aos estudantes de letras portugueses — mas infelizmente, a divulgação científica não faz geralmente parte das preferências literárias destes estudantes, que se deixam subjugar por preconceitos irracionalistas anti-rigor e anti-matemática.

A segunda e a terceira partes são as mais brilhantes do livro. Aconselho vivamente a leitura da segunda parte a todos os "ecologistas" do mundo, para que percebam o que está realmente em causa. Uma das desgraças do mundo contemporâneo consiste no facto de toda a gente querer usar as mesmas estratégias que os publicitários usam para vender detergentes e pensos higiénicos. O resultado último deste deplorável estado de coisas é o facto de alguns dos temas de discussão mais importantes — como os temas que dizem respeito ao meio ambiente — se tornarem patéticos: manifestações de rua de duvidosa racionalidade nas quais não se apresentam razões nem dados, manifestando-se apenas uma veemente negação (quando a negação, sem explicação, não basta). Suspeito aliás que muitas pessoas terão aderido a tais manifestações sem conhecerem muito bem a realidade — que, a propósito, tem de ser quantificada de forma rigorosa.

A leitura deste grupo de capítulos é por isso imprescindível. Neles se dá conta do verdadeiro estado ecológico de alguns dos aspectos do nosso planeta, como o efeito de estufa provocado pela combustão intensiva de produtos derivados do petróleo e o problema do ozono provocado pelos CFC. Sagan oferece ao leitor dados mais que suficientes para que se perceba realmente o que se passa. E oferece soluções. A inteligência, a precisão e a moderação com que Sagan lida com os problemas é notável. Por exemplo, um dos aspectos mais atraentes dos combustíveis fósseis é o facto de ser barato (cerca de 20 dólares o barril), quando comparado com fontes de energia alternativa, como a solar e a eólica. Mas não estaremos enganados nas contas? Afinal, não devíamos acrescentar ao preço do petróleo as despesas militares de países como os Estados Unidos se vêm forçados a fazer para proteger as suas fontes de fornecimento? E o preço dos derrames (como o do Valdez)?

Se contabilizarmos estas despesas adicionais, o preço estimado sobe para qualquer coisa como 80 dólares o barril. Se agora somarmos a isto os custos ambientais provocados pelo consumo desse petróleo no ambiente local e global, o preço real é capaz de chegar às centenas de dólares o barril. E quando por causa da protecção do petróleo se desencadeia uma guerra, como foi o caso no golfo Pérsico, o custo sobe muito mais, e não apenas em dólares. (pág. 145).

Da terceira parte destaco o capítulo 15, sobre o aborto, e o capítulo 16, sobre os resultados de Axelrod. Em Portugal assistimos recentemente à triste "discussão" quanto à despenalização do aborto. As razões de um lado e do outro denotavam em geral um perfil de tal modo provinciano que fiquei assustado com o atraso cultural português. Em primeiro lugar, ninguém tem aparentemente dados precisos sobre o que quer que seja, nem conhecimento dos argumentos correntes da literatura filosófica sobre a matéria; em segundo lugar — mais grave — as pessoas não sabem o que é argumentar, não sabem o que é defender uma ideia com razões. Em terceiro lugar, toda a gente se acha intitulada a ter uma opinião que vale a pena ser ouvida, só porque é dela. Sugiro por isso fortemente que leiam, para começar, este capítulo do Carl Sagan. Ele defende uma posição moderada, com bons argumentos e ampla informação científica. Não quer dizer que a ideia de Carl Sagan tenha de ser aceita — com certeza que não! —, mas vale a pena tê-la em consideração.

Quando escolhi o livro de Peter Singer, How Are We to Live?, referi o excelente capítulo sobre o dilema do prisioneiro e a solução de Axelrod — o mesmo acontece no capítulo 16 de "Biliões e Biliões", intitulado "As Regras do Jogo". Sagan consegue mostrar de modo muito simples a importância da solução da estratégia de Axelrod para lidar com as situações que dão origem ao dilema do prisioneiro. Axelrod chamou "pagar na mesma moeda" ("tit for tat") a esta estratégia. A importância moral dos resultados de Axelrod é imensa. Na verdade, constituem nada mais nada menos do que a refutação empírica do preceito cristão de oferecer a outra face. A estratégia de pagar na mesma moeda consiste em começar por cooperar, fazendo de seguida ao outro o que ele nos fez a nós. A estratégia é boa porque não dá origem a círculos de não cooperação, nem permite que sejamos explorados. Esta estratégia tem ainda a vantagem de apresentar um padrão simples que a outra pessoa compreende rapidamente, o que lhe permite cooperar com segurança, dissuadindo-a ao mesmo tempo de não cooperar.

No último capítulo, "No vale das sombras", Carl Sagan faz a narrativa da sua infeliz doença. É um capítulo doloroso de ler — e ao mesmo tempo maravilhoso, pois Carl Sagan revela a sua imensa lucidez e inteligência numa situação onde é fácil perder toda a compostura. Carl Sagan foi um daqueles grandes espíritos acerca dos quais subsiste a dúvida de saber se a humanidade o mereceu. O meu cepticismo leva-me a pensar que não, mas esta é uma matéria que só o futuro poderá resolver. Só tenho uma maneira de prestar homenagem a um dos maiores seres humanos que alguma vez pisaram o nosso planeta: cultivar diariamente a tolerância e a bondade, o amor pelo conhecimento e pela justiça e estimular os outros a fazer o mesmo. Não posso fazer mais do que isto. Ninguém pode fazer mais do que isto.

Desidério Murcho
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