Bizâncio, de Stephen Lawhead

Da Irlanda à Arábia

Ricardo Ribeiro
Bizâncio, de Stephen Lawhead
Tradução de Manuel Cordeiro
Bertrand, 2000, 755 pp.

O irmão Aedan havia sido escolhido para integrar a Peregrinação. Um conjunto de abadias britânicas e irlandesas desejavam oferecer um precioso livro ao Imperador do Sacro-Império, pelo que se impunha uma viagem à longínqua Bizâncio. Os seleccionados, treze ao todo, partem da Irlanda, para dar início a esta epopeia. Estamos no início do século X.

Preparado com esta súmula que é rapidamente explicada nas primeiras páginas da obra, o leitor recosta-se e pensa já que vai testemunhar indirectamente as aventuras do grupo de religiosos ao longo desta longa viagem. Será um percurso onde um pouco de tudo lhes vai acontecer, e no decorrer do qual conhecerão os mais bizarros costumes e gentes. Não. Nada disso. Porque logo após a largada, a embarcação em que pretendem viajar até Nice é atacada por Vikings. Naufragados, chegam a terra onde se abrigam na hospitalidade das gentes locais. Por pouco tempo. Durante a noite o mesmo grupo de nórdicos ataca a povoação, matando muitos, e levando como cativo Aedan. Para ele, e aparentemente, a Peregrinação terminou. Para os seus companheiros de viagem não se adivinha melhor sorte, antes pelo contrário.

É assim que o personagem principal desta história se encontra a viver em terras dinamarquesas, escravo de Gunnar, um amo bondoso, quase amigo. Conhece os costumes dos terríveis homens do mar e aprende a sua linguagem. Mas a estadia é curta. Harald, rei local, tem uma ambição: organizar uma expedição a Bizâncio, onde, segundo se diz, os servos possuem mais riquezas que o mais poderoso senhor da Escandinávia.

Aedan, que entretanto passou para a posse deste rei Harald segue com o grupo, para Sul. Através da rede fluvial da Europa Central atravessam o Continente, passando por Kiev e chegando enfim a Bizâncio, onde rapidamente se torna claro que não poderá ser bem sucedida qualquer tentativa de pilhagem. Perante a surpresa do imenso poderio do Império, Harald opta por se juntar ao Imperador, a soldo. É com este estatuto que todos partem para o Médio Oriente, para escoltar uma importante missão diplomática que deve firmar um tratado de paz com os árabes. Mas as coisas correm mal, e Aedan dá por si cativo e condenado a trabalhos forçados para o resto da vida, nas minas de prata do Califa. Aí vai encontrar, com grande surpresa, os seus irmãos irlandeses, que tinham caído numa misteriosa armadilha. Contudo, um golpe inesperado traz até si Faysal, o braço direito do emir que representou a nação árabe nas negociações. Tornam-se amigos, e Aidan vai ser adoptado pelo emir como seu conselheiro. Agora em terras árabes, Aidan é forçado a aprender uma nova língua, e estabelece-se uma ligação amorosa com a bela Kazimain, que não abandonara a borda do leito onde o monge recuperara dos maus tratos sofridos nas minas. Tornam-se noivos, mas os factos interpõem-se na felicidade de ambos. Todos têm que partir de novo para Bizâncio numa missão decisiva.

E por aqui me detenho no resumo da trama, tal como se impõe de forma a não retirar o interesse pela leitura desta excelente obra. De facto, dispersa ao longo de cerca de setecentas e cinquenta páginas, o romance é de tal forma vivo que com facilidade é lido em poucos dias. Como deixei antever, está cheio de aventuras, tendo como centro o irmão Aedan, um monge que vive atormentado com visões da sua própria morte e com uma falta de fé crescente. As mudanças de cenário são intensas, desde a verde Irlanda, passando pelo frio dinamarquês, pela opulência bizantina e, por fim, pelos modos requintados das Arábias. Naturalmente, a par com as alterações físicas e ambientais, sucedem-se mudanças nos costumes e atitudes dos povos que habitam estes lugares, e que sucessivamente interagem com Aedan. Por todas estas paragens o monge faz amizades, que perduram, e tornam a surgir de modo mais ou menos inesperado, um pouco mais à frente.

Trata-se de um romance ético, ou seja, em que o mal é permanentemente derrotado, e o bem é recompensado, nem sendo preciso chegar ao final do livro para que tal aconteça em apogeu. É como se se tratasse de pequenas histórias, ligadas entre si, e com fins distintos. Torna-se necessário sublinhar que, num plano superior, existe um fio condutor mais poderoso, que se vai sentindo e que culmina no final. É a face da intriga política ao mais alto nível, que inflige a Aedan o golpe mortal no pouco que resta da sua fé.

Um romance que me fará procurar com avidez outros títulos de Stephen Lawhead, mas que, infelizmente, me deixou com uma certa frustração. Assumindo-me como romântico convicto, foi com pesar e mesmo um pouco de irritação que vi que a encantadora princesa Kazimain se vê afastada de Aedan por acção do destino. Preferiria de longe encerrar o livro com a imagem de um Lawrence das Arábias medieval, vivendo até ao resto dos seus dias numa vida tranquila entre os novos irmãos árabes, com a bela princesa a seu lado. O autor assim não o permitiu.

A tradução de Manuel Cordeiro merece o nosso louvor.

Ricardo Ribeiro
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte