Blade Runner II
Livros

Um erro de continuidade

Desidério Murcho
Blade Runner II: A Fronteira do Humano, de K. W. Jeter
Tradução de Luís Cadete
Europa-América, 1998, 233 pp.

Blade Runner foi um dos melhores filmes da década de 80 e um dos únicos filmes realmente bons que Ridley Scott realizou, juntamente com Alien. Servido por uma magnífica banda sonora de Vangelis, Blade Runner rapidamente se tornou num filme de culto. Por estes motivos, é de estranhar que não se tenha feito uma continuação, um Blade Runner 2; essa situação deve estar a chegar ao fim: este livro apresenta um excelente argumento para a tão esperada continuação. Jetter procura escrever com o estilo dos policiais negros, estilo a que o filme tanto deve; no entanto, nunca consegue mais do que contar uma boa história: o modo como a conta nada tem de recomendável. Mas o livro recomenda-se como uma antevisão de uma possível continuação do filme; aliás, por vezes parece que estamos a ler um guião e não um livro.

O filme original era baseado num livro de Philip K. Dick, que participou na realização do filme, livro originalmente intitulado “Será que os Andróides Sonham com Carneiros Eléctricos?”. Para desespero daqueles que insistem em afirmar que o livro de Philip Dick era genial e o filme um lixo, o próprio autor acha que o filme é muitíssimo bom e fiel ao livro. Para este Blade Runner II Jeter baseou-se sobretudo no filme, mas também, em alguns aspectos, no livro. A figura de Isidore, “médico” de bonecos animados, que tinha sido suprimida no filme, surge agora uma vez mais no livro de Jeter; mas, verdade se diga, a sua presença na economia narrativa é um pouco forçada. O aspecto mais positivo do livro é o modo como concebe uma continuação para o filme, baseando-se nos seus mais pequenos detalhes e recorrendo a ideias que aprofundam a questão fundamental que o filme e livro originais levantavam: o que é realmente ser um ser humano?

Como um exemplo do engenho de Jeter, refira-se o aproveitamento de um erro de continuidade do filme. Bryant refere primeiro que há 6 replicantes fugitivos, para no fim dizer que há apenas 5, os cinco que Deckard persegue. Este “deslize” do filme original é aproveitado por Jeter, constituindo parte essencial da trama narrativa.

As personagens originais do filme são reaproveitadas de diversos modos pelo autor. O temível Batty (inesquecivelmente interpretado por Rutger Hauer), o último replicante que quase matou Deckard na cena final do filme, reaparece, assim como o primeiro Blade Runner, que é alvejado logo ao princípio, ainda no prólogo do filme. Reaparece também Pris, a terrível replicante que era magistralmente interpretada por Daryl Hanna e que Deckard alvejou em casa de Sebastian, que também reaparece agora.

Não vou contar-lhe mais pormenores da história para não lhe estragar a leitura. Espero agora que a mesma equipa, comandada por Ridley Scott, se reúna para filmar esta continuação, com a música inesquecível de Vangelis.

Desidério Murcho
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