A Bolha da Supremacia Americana
15 de Outubro de 2004 ⋅ Livros

Ideologia e realidade

Desidério Murcho
A Bolha da Supremacia Americana: Corrigir o Abuso do Poder Americano, de George Soros
Tradução de Artur Lopes Cardoso
Lisboa: Temas e Debates, 2004, 170 pp.

George Soros é um milionário e filantropo americano. Desde 1979, a sua rede internacional de fundações, com o nome genérico de Instituto para a Sociedade Aberta, tem procurado promover a liberdade em vários países. Judeu de origem húngara, Soros conheceu primeiro o horror nazi e depois o horror comunista. Fugiu em 1947 para a liberdade, em direcção a Londres, onde se licenciou na London School of Economics, sofrendo forte influência de Karl Popper. A Temas e Debates publicou já deste autor os livros A Crise do Capitalismo Global (1999) e Globalização (2003).

Este novo livro proporciona uma leitura agradável e leve, pois apresenta-se num estilo muito informal e directo — lê-se como um bom artigo de jornal. Sem floreados nem exibições de falsa erudição, com simplicidade, Soros apresenta-nos as suas ideias fundamentais. Apesar de em alguns aspectos o pensamento de Soros ser um tanto superficial — está longe da sofisticação de Um só Mundo, de Peter Singer — trata-se de um livro importante, que veicula ideias fortes e interessantes.

Um importante contributo do livro de Soros é chamar a atenção para a diferença fundamental entre dois grupos de ideias que costumam confundir-se. A ideia de sociedade aberta, isto é, uma sociedade democrática, tolerante e livre, não é necessariamente a mesma coisa do que uma sociedade capitalista, cuja economia se rege pelos mecanismos de mercado. Os dois grupos de ideias são razoavelmente independentes, e é possível ter uma sociedade mais capitalista e menos livre, ou vice-versa. Um dos factores que torna os debates que envolvem o papel dos EUA no mundo bastante infrutíferos e demasiado calorosos é precisamente esta confusão. Pessoas como Soros ou Singer — ou clássicos como Mill ou Russell — denunciam os EUA por não constituírem verdadeiramente uma sociedade aberta, apesar da economia de mercado. Isto provoca irritação nos seus defensores, que entendem o capitalismo dos EUA como um sinónimo de liberdade e sociedade aberta. Ora, o argumento fundamental de Soros é que a economia capitalista é incompleta — o mercado não é adequado para fornecer vários tipos de bens, e o desenvolvimento capitalista não é o resultado das forças selvagens do mercado, mas das forças do mercado depois de devidamente regulamentadas. Evidentemente, a economia comunista é mais desastrosa ainda, e nem Soros nem Singer nem outros críticos importantes da sociedade americana desejam abandonar a economia de mercado. O que estes críticos não aceitam é o que Soros chama o "fundamentalismo do mercado" — a ideia falsa de que as forças do mercado são perfeitas e resolvem de maneira óptima todos os problemas. Este fundamentalismo do mercado conduz à ideia de darwinismo social, segundo Soros, que se tornou a ideologia oficial da actual administração americana. Este livro procura mostrar que esta ideologia é cega e está a provocar na política internacional o que nos mercados financeiros é conhecido como "bolha bolsista".

Nos mercados financeiros dá-se uma bolha quando os intervenientes não respondem adequadamente à realidade, baseados que estão em expectativas sem apoio empírico. Foi o que aconteceu com a bolha das "dot com". Mas uma bolha só é possível quando há alguns dados reais que parecem sustentar as expectativas dos intervenientes. O mesmo acontece, defende Soros, no que respeita à actual intervenção internacional dos EUA. As crenças dos intervenientes baseiam-se parcialmente na realidade, mas interpretam-na de forma errada, criando expectativas que não poderão ser satisfeitas. O objectivo do livro é mostrar que a administração Bush está emaranhada numa teia ideológica que não lhe permite responder de forma adequada à realidade. O 11 de Setembro e a ameaça terrorista foram descaradamente usados, segundo Soros, para fazer cumprir os planos para o "Novo Século Americano", uma ideologia fascizante (o termo não é de Soros) que defende que os EUA devem usar o seu poderio económico e militar para se impor no resto do mundo como potência única — alguns comentadores americanos chamaram curiosamente a isto "o imperialismo do bem".

Soros não disputa a ideia de que os EUA podem e devem usar o seu poder (político, militar e económico) para influenciar o resto do mundo, mas entende que o tipo de intervenção e influência desejável não é a que a administração de Bush defende. A intervenção e influência praticadas pela administração de Bush têm conseguido o resultado pouco invejável de tornar os EUA mais odiosos, fortalecendo o terrorismo que supostamente estariam a combater, e provocando divisões nas sociedades abertas, que deviam estar unidas no combate aos regimes totalitários, à violação dos direitos humanos, à pobreza e ao terrorismo. A política dos EUA é ideológica e pouco pragmática, defende Soros, acabando por ter os resultados contrários ao desejado pelos seus próprios defensores. O Iraque alberga hoje terrorismo, coisa que não albergava antes, a economia do Afeganistão baseia-se na droga, e o mundo árabe odeia ainda mais os EUA — e, por arrastamento, a democracia e a liberdade. Soros afirma que os EUA têm feito precisamente o que o terrorismo islâmico precisava para poder recrutar mais terroristas.

Soros argumenta que a administração de Bush não poderia estar mais distante do que é necessário para a construção eficiente de nações democráticas, livres e desenvolvidas. O Plano Marshall é impensável para a América de Reagan e Bush, mas é precisamente o que faz falta no mundo árabe e na Rússia — que foi vergonhosamente deixada entregue a si mesma. A ideologia de Bush e dos seus conselheiros não lhes permite ver a realidade: sem cooperação e ajuda pacífica não se consegue exportar democracia, desenvolvimento e liberdade. Como Soros sublinha, esta administração defende a ideia prosaica de que na relação entre países não há direito, há apenas força e poder. Dado que os EUA têm o poder para fazer o que quiserem, à margem das instituições internacionais, fazem-no. De modo que os métodos usados contradizem os fins desejados — pois supostamente deseja-se exportar o estado de direito, o respeito pelos direitos humanos e a liberdade, mas os métodos usados são a força militar irrazoável, o aprisionamento de pessoas sem direito a julgamento e a tortura "light" sancionada pelos seus mais altos dirigentes.

É difícil dizer até que ponto este livro é persuasivo. As posições moderadas têm muitas vezes o defeito de não agradar a gregos nem a troianos, e este pode ser um desses casos. Os defensores cegos dos EUA irão talvez achar que Soros é um idealista ingénuo quando propõe medidas concretas para estimular diferentes sociedades a introduzirem gradualmente a liberdade e o desenvolvimento. Quem ataca cegamente os EUA também não gostará da ideia de Soros de que se deve procurar exportar a democracia e os direitos humanos — porque estas pessoas defendem que tais ideais não são aspirações humanas universais, mas mero "folclore" ocidental, tão bom quanto o "folclore" árabe, no qual as mulheres não têm os mesmos direitos dos homens. Paradoxalmente, o facto de este livro de Soros ser tão pouco persuasivo, neste sentido, pode ser o seu maior trunfo.

Desidério Murcho
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