A Vida Sexual de Immanuel Kant
8 de Janeiro de 2005 ⋅ Livros

Do não-ser ao não-pensar

Desidério Murcho
A Vida Sexual de Immanuel Kant, de Jean-Baptiste Botul
Tradução de José Mário Silva
Cavalo de Ferro, 2004, 80 pp.

Jean-Baptiste Botul é um desses raros filósofos cuja importância crucial consiste no facto de nunca ter existido. Nem por isso, contudo, deixa de ser influente. Uma das palestras que nunca proferiu, para uma comunidade que nunca existiu, foi publicada em França em 1999 e surge agora numa edição portuguesa que tem a característica pouco habitual de existir realmente. Explorando os mais banais lugares-comuns românticos, este livrinho apresenta um arrazoado divertido, surpreendente e irónico sobre a vida sexual de Kant — isto é, sobre algo que nunca existiu, pois tanto quanto se sabe Kant nunca teve relações sexuais, o que não era pouco habitual entre os académicos daquele tempo. Entre esses lugares comuns encontra-se a ideia infantil de que é surpreendente que um grande filósofo — um grande pensador — seja ainda assim um ser humano, com as suas emoções e desejos. A caricatura romântica de Kant — que hoje sabemos falsa — faz do filósofo um ser mecânico, sem vida social, banal e sem humor, desumanamente metódico e preciso. Este é o mito da razão desumanizada, com base no qual é depois possível dizer, como se fosse surpreendente, que os filósofos também têm paixões.

Botul, não existindo, insiste na ideia de que a vida sexual de Kant, que igualmente não existiu, é de crucial valor para a compreensão das ideias do filósofo, precisamente porque não existiu. Adoptando um estilo que existe em abundância — sugerindo e manipulando o leitor, em substituição da afirmação clara e da argumentação cuidada — Botul tece uma série de considerações que mais não são do que associações selvagens de ideias, para conduzir o leitor às suas baralhadas ideias centrais. Da psicanálise barata, que o faz afirmar que para Kant a coisa em si é, na realidade, o sexo, à interpretação anedótica de algumas das ideias centrais do filósofo, Botul tudo usa para nos divertir, surpreender ou até irritar, se não se entrar no espírito brincalhão deste denso exercício hermenêutico.

Iniciando-se, como é de regra em tratados dementes, com amplas declarações de falsa modéstia ("não sou um especialista de Kant. Essa obra descomunal intimida-me. É uma selva onde não se entra facilmente e muitos dos que nela se aventuraram nunca mais foram vistos", p. 17), prossegue adiando explicações claras sobre a sua doutrina fundamental ("o celibato, longe de ser uma questão contingente, faz parte da própria essência da filosofia", p. 20), e acaba por concluir sem que se perceba a ligação entre os diversos elementos que conduziriam ao fim desejado. Citando a rebate as próprias obras de Kant, usando e abusando do lugar-comum e do "diz que disse", Botul, esse filósofo inexistente, até parece que existe.

Dividido em oito pequenos capítulos, que correspondem ficcionalmente a outras tantas palestras, este tratado extravagante disserta de forma erudita sobre temas tão profundos como a questão de saber se o filósofo deve arranjar mulher, sobre o desgosto de viver e as orgias suecas, sobre a esperma e a "pneuma", sobre o sublime e o obsceno, e sobre esse pensamento central na história da filosofia ocidental: "Coito ergo sum". Por entre a brincadeira, todavia, algo de muito sério está em causa: "Não direi que o nazismo nasce do kantismo. Mas digo que existe no kantismo, como em toda a moral que se pretende universal, um germe de perversão que basta activar para obter o genocídio e a exterminação em massa" (p. 67). Está em causa a ideia de que a racionalidade é perversa e perigosa, ideia romântica que as zonas mais fracas da cultura adoptaram acriticamente. A ideia de que a racionalidade é responsável pelo holocausto resulta de confusão e falta de pensamento crítico — precisamente o que deu origem ao nazismo e à ampla aceitação que este conheceu na Europa central. A origem no nazismo é a recusa da racionalidade e a ideia de que precisamos de um líder espiritual que nos conduza, porque não podemos pensar por nós próprios e porque o sangue, a pátria e a emoção primária falam mais alto do que a racionalidade. Apesar de não existir, e apesar de o seu livro ser uma paródia, Botul faz-nos pensar com horror aonde pode conduzir o irracionalismo.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Originalmente publicado no jornal Público (17 de Julho de 2004)
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