O Canto do Vento nos Ciprestes, de Maria do Rosário Pedreira

Ausência

Maria João Cantinho
O Canto do Vento nos Ciprestes, de Maria do Rosário Pedreira
Gótica, 2001.

A pós uma interrupção de seis anos, Maria do Rosário Pedreira regressa à poesia com um terceiro livro que não hesito em classificar de magnífico. Correspondendo a um período da vida da poetisa, esta obra nasce da experiência da "perda". Apesar do seu lirismo, a autora jamais cede à facilidade da escrita, transformando os poemas num canto, como, por exemplo, o poema notável que é lido na contracapa:

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor —
a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos
agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,
meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos — a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

Trata-se de uma poesia que se constrói dolorosamente, a partir da ausência do ser amado que é, a cada instante, convocado, inscrevendo uma tensão dolorosa, sendo aí que, paradoxalmente, reside o desencanto (num sentido melancólico) e o encanto da obra, o seu sublime.

Constituída a partir de um conjunto de poemas sem título (que conferem ao livro a sua descontinuidade), esses poemas aparecem-nos, todavia, como uma unidade que se organiza sempre em torno de um mesmo núcleo temático. Nesta obra, marcada pela experiência da solidão e do abandono, o criador descobre-se na sua fragilidade, sustentando-se numa ausência que é permanentemente reavivada e atenuada pela rememoração poética. Poderíamos ainda afirmar que o "eu" se descobre como um ser trágico, numa suspensão de todos os laços que o ligam ao mundo:

[...] Mãe, eu quero ir-me embora — os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima [...]

É apenas a rememoração a sustentá-lo:

Se terminar este poema, partirás. Depois da
mordedura vã do meu silêncio e das pedras
que te atirei ao coração, a poesia é a última
coincidência que nos une [...].

Abrindo-se a partir de uma visão cosmogónica da realidade, enunciada no primeiro poema, A Criação do Mundo, e também confirmada no seu último poema, Anima Mundi, a autora inscreve a sua obra numa constante dialéctica entre o plano cosmogónico e o plano individual, reenviando-nos para uma dimensão essencial (e mágica) da poesia — a da rememoração ou evocação de uma aura originária:

Olhou as mãos em concha e viu arredondar-se
um sonho dentro delas — um mundo
que ninguém podia adivinhar, pois dele
fariam também parte os magos e os profetas.

A linguagem de Maria do Rosário Pedreira é de uma grande simplicidade (o que manifestamente resulta de um trabalho intenso, fugindo aos chavões de que, frequentemente, a poesia lírica padece, afirmando-se numa zona em que uma extrema sensibilidade se conjuga com uma sabedoria poética apurada. Fica-se sem muito que dizer, ao lê-lo.

Maria João Cantinho
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