Capitao de Navio, de Patrick O' Brien

Mais do que marinharia

Desidério Murcho
Capitão de Navio, de Patrick O'Brian
Asa, 2000, 442 páginas

Esta é a segunda obra de Patrick O'Brian publicada em Portugal. A primeira foi Capitão de Mar e Guerra. Trata-se talvez da melhor literatura naval alguma vez produzida sobre o período das Guerras Napoleónicas. Como sempre na melhor literatura, dizer que os romances da série Aubrey-Maturin são romances de marinharia é redutor.

Até à sua morte em Janeiro de 2000, aos 85 anos, O'Brian publicou vinte romances cujos protagonistas são o comandante Jack Aubrey e o médico, filósofo e espião Stephen Maturin. Os romances foram desde logo bem acolhidos pela crítica, mas o público levou algum tempo a reagir. Todavia, quando reagiu, transformou-o num dos autores mais populares de língua inglesa. E acaba de sair uma biografia de O'Brian da autoria de Dean King.

O autor "navega" com à-vontade nos pormenores de um dos muitos períodos absurdos da história europeia, quando a Inglaterra, a Espanha, a Holanda e a França se dedicavam a destruir o comércio marítimo uns dos outros. Foi o período áureo da navegação à vela. O'Brian conhece bem os navios que obviamente adora, mas também o linguarejar de então das gentes do mar, e é com precisão que nos oferece uma viagem a um universo que nos devolve um delicioso sentido de aventura.
Mas no universo de O'Brian há muito mais do que aventuras marítimas. Há música, amor, amizade, solidariedade, contrariedades, e uma galeria de personagens inesquecíveis. O gosto da música, partilhado por Maturin e Aubrey, origina conversas e episódios memoráveis. E deu até origem recentemente à edição de dois discos que nos apresentam algumas das peças referidas nas suas obras ("Musical Evenings with the Captain", da ESS.A.Y, com peças de Locatelli, Haydn, Handel e outros). Sobretudo, perpassa pelas páginas de O'Brian uma alegria de viver contagiante e um admirável distanciamento irónico dos protagonistas relativamente às suas próprias situações, por vezes bastante complexas e melindrosas.

De algum modo, como referia em Março último Ian Williams na Salom.com, O'Brian oferece-nos em Maturin e Aubrey a arquetípica oposição entre o intelecto e a emoção espontânea — mas também a amizade difícil mas deliciosa, feita de diferenças, a completa solidariedade e a alegria da aventura partilhada. Na ponte de comando de um navio, estes elementos da vida humana ficam sublinhados, por vezes com sangue e lágrimas. E por vezes as lágrimas são nossas.

"Capitão de Navio" começa, como habitualmente, em terra firme. Jack Aubrey não podia estar melhor: as suas aventuras descritas no último volume renderam-lhe proventos abundantes. Procura ainda a nomeação definitiva de Capitão de Mar e Guerra, mas está financeiramente à vontade. Aluga uma casa senhorial no campo, que partilha com Stephen Maturin e alguns dos seus homens. Jack e Stephen convivem então com a sociedade. E O'Brian oferece uma descrição irónica de uma sociedade frívola, cheia de códigos sociais absurdos. Este estado de acalmia, porém, não dura muito tempo. Jack sofre um rude golpe nas suas finanças e é obrigado a fugir. Como sempre, o mar surge para Jack como uma libertação, uma forma de deitar pelas costas um mundo demasiado frívolo e uma forma de fugir das dificuldades, mas simultaneamente de encontrar o seu elemento natural. Já no mar, sucedem-se as dificuldades, os anseios, os avanços e os recuos, até à conclusão empolgante.

Independentemente de gostar de romances históricos ou não, de gostar do espírito de aventura e solidariedade incondicional, os romances de Patrick O'Brian vão sem dúvida agarrá-lo da primeira à última página, tal como fazem a milhões de leitores em todo o mundo.

Desidério Murcho
Revista "Livros", "O Independente", Outubro de 2000
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