O Curioso Iluminismo do Professor Caritat, de Steven Lukes
Filosofia política

O melhor sistema político

Desidério Murcho
O Curioso Iluminismo do Professor Caritat
Uma Comédia de Ideias, de Steven Lukes
Tradução de Teresa Curvelo
Gradiva, 1996, 247 pp.

O subtítulo promete uma comédia de ideias e é isso que temos: Steven Lukes passa em revista as principais filosofias políticas actuais através da figura do professor Caritat, que percorre vários países em busca daquele que apresenta o sistema perfeito. Caritat é professor universitário de filosofia política, sendo a sua especialidade o Iluminismo. Infelizmente, vive numa ditadura militar e acaba por ser preso. É depois da sua rocambolesca fuga que começa a percorrer vários países em busca do melhor sistema político. Os países que percorre encarnam as diversas filosofias políticas actuais: o utilitarismo, o comunitarismo relativista, o marxismo e o liberalismo económico desenfreado. Uma questão literariamente interessante é a de saber se podemos considerar este livro um exercício de ironia ou uma sátira. Na verdade, parece por vezes que a deformação grotesca de alguns aspectos das doutrinas políticas nele descritas aproxima o romance perigosamente da sátira, afastando-o do exercício civilizado da ironia.

A galeria de personagens é, como convém numa obra deste género, povoada por personagens-tipo, representações de personagens típicos, e não por personagens com qualquer profundidade psicológica. O efeito é extremamente cómico e os próprios nomes dos personagens estão sempre relacionados com aquilo que eles representam. Outro aspecto interessante é o facto de o país marxista surgir não como um país que existe realmente, mas como um sonho que o prof. Caritat tem durante uma viagem de comboio. Significa isto que Lukes considera o marxismo impossível de alcançar? Talvez. Mas, nesse caso, subsiste a dúvida académica: SE o marxismo fosse possível, seria desejável? Acho que as perguntas insistentes que Caritat faz aos habitantes do país marxista mostram que a resposta é negativa.

Os capítulos talvez mais informativos para o leitor português são os dedicados ao relativismo. O relativismo é uma doença da civilização que se tem propagado mais depressa do que o vírus da SIDA. E o problema é que não só os seus partidários, mas toda a gente, parece estar convencida de que o relativismo é uma doutrina magnífica. Na verdade, o relativismo é uma forma disfarçada de ditadura, como Lukes mostra muito bem nesta obra.

A narrativa é muito humorística mas sempre impassível, descrevendo o maior dos absurdos como se fosse coisa de somenos — uma espécie de Kafka alegre. O único aspecto que me parece fazer perigar a economia do romance são os diálogos do princípio do livro com vários personagens históricos da filosofia política. Esses diálogos não têm, tanto quanto consegui perceber, qualquer papel digno de nota — aparentemente estão lá só porque sim. Mas o leitor não deve desistir da leitura ao deparar-se com esses diálogos; o resto do romance vale bem esta pequena deselegância inicial.

Desidério Murcho
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