Uma Casa em Portugal, de Richard Hewitt

Um país surrealista

Desidério Murcho
Uma Casa em Portugal, de Richard Hewitt
Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues
Gradiva, 1997, 218 pp.

Um retrato fiel dos absurdos portugueses, descrito com muito carinho por um americano que decidiu vir viver para Portugal com a sua mulher. O Portugal que nos surge neste livro está já um pouco datado (princípios dos anos 80), mas os problemas estruturais que com tanto carinho e humor Hewitt descreve (atraso, preguiça, burocracia kafkiana, desorganização) continuam actuais. Um livro capaz de chocar algumas sensibilidades que pensam constituir o falso elogio bacoco de Portugal um sinal de patriotismo, quando na verdade se trata apenas da defesa dos privilégios daqueles que os não merecem.

O livro inscreve-se num género literário pouco lido e ainda menos praticado em Portugal, apesar de ser muito popular em países como o Reino Unido: a literatura de viagens. Hewitt vem de carro com a mulher em direcção a Portugal e o primeiro sinal inequívoco de que já cá estão são as inúmeras manobras perigosas dos condutores nacionais, assim como os sucessivos acidentes que presenciam. Uma realidade infeliz que os Portugueses são incapazes de resolver.

Depois de temporariamente alojado em Sintra, Hewitt começa a procurar uma casa antiga para recuperar. Quando finalmente a encontra descobre que a aldeia não tem saneamento básico — e eis que começa o contacto de Hewitt com a kafkiana burocracia portuguesa.

O livro está escrito com imenso humor e carinho. As descrições deste nosso Portugal e das suas gentes são perspicazes e têm o valor inestimável de confirmar aquilo que os mais lúcidos já sabiam: este é um país verdadeiramente surrealista, que infelizmente perdeu o seu grande crítico com a morte de Eça de Queirós. À falta de um Eça de Queirós contemporâneo, leia o Hewitt: vai ver que vale a pena.

Desidério Murcho
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