Náufragos no Paraíso
25 de Março de 2006 ⋅ Livros

Os verdadeiros Robinson Crusoes

Desidério Murcho
Náufragos no Paraíso: As Incríveis Aventuras dos Robinson Crusoes de Carne e Osso, de James C. Simmons
Tradução de Paulo Faria
Lisboa: Antígona, 2007, 355 pp.
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Viver numa ilha deserta, longe das complicações da civilização, é um sonho romântico recorrente. A ideia ingénua é que nessas condições se realizaria o sonho de Rousseau. Mas a realidade é muito diferente. A vida nestas condições raramente é aprazível, muitas vezes é miserável, e os raros casos de sucesso são conseguidos pelo empenho do náufrago em transformar a sua ilha num pequeno quintal suburbano.

Um dos casos raros de sucesso foi Alexander Selkirk, cujo relato inspirou o famoso romance de Daniel Defoe. Durante quatro anos e alguns meses, de Outubro de 1704 a Fevereiro de 1709, o escocês Selkirk habitou sozinho uma das ilhas de Juan Fernandez, situadas a cerca de quatrocentas milhas da costa do actual Chile. Selkirk pediu para ficar na ilha porque o navio em que seguia, o "Cinque Ports", estava em tão más condições que ele achava que jamais conseguiria chegar a Inglaterra se não fosse profundamente reparado — mas o capitão discordava dele. Depois de quatro anos de cativeiro voluntário, acabou por descobrir que, de facto, o navio naufragou na costa da actual Colômbia, salvando-se apenas seis dos seus tripulantes — que imediatamente foram presos pelas autoridades espanholas, tendo enfrentado ironicamente um cativeiro de quatro dolorosos anos.

Os oito capítulos deste livro único apresentam, numa prosa clara, as histórias apaixonantes de vários Robinsons reais que, voluntária ou involuntariamente, enfrentaram a vida numa ilha deserta — ou apenas habitada por povos indígenas. Cada capítulo conta a história dos vários náufragos ou exilados voluntários, dos menos conhecidos aos mais célebres. Na categoria dos primeiros está um inglês de nome desconhecido que conseguiu sobreviver um ano sozinho num rochedo, sem água, sem roupas, sem vegetação, sem fogo e numa latitude longe dos confortos tropicais — perto da costa escocesa, tendo por isso de enfrentar um rigoroso Inverno com neve. Na categoria dos segundos está Herman Melville, que viveu alguns anos entre os povos indígenas das Ilhas Marquesas, onde chegou mesmo a casar.

Uma das personalidades mais impressionantes é a do capitão americano Charles H. Barnard que, depois de salvar um grupo de ingleses naufragados numa das ilhas Falkland, foi por eles abandonado à morte certa nestas desoladas ilhas, desprovidas de árvores e servidas por um Inverno muitíssimo rigoroso. O seu sentido prático e capacidade de chefia permitiram-lhe viver em razoável conforto com os quatro homens que com ele foram abandonados pelos ingratos ingleses. Era um homem de tal modo engenhoso que, quando os outros quatro o abandonaram, fugindo para outra ilha no pequeno bote que lhes servia de transporte, acabou por sobreviver em melhores condições do que estes — que acabaram por se convencer que preferiam viver com o seu capitão a viver com o tresloucado inglês que os tinha levado a abandoná-lo com falsas promessas de confortos imaginários. Este inglês era de tal modo asinino e de má rês que o contraste com o engenho e bondade do capitão Barnard constituem, só por si, uma lição de vida.

Pleno de informação histórica rigorosa, este é um livro simultaneamente informativo e apaixonante, percorrendo quase todas as histórias razoavelmente documentadas de náufragos, em várias partes do mundo.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (10 de Dezembro de 2005)
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