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6 de Setembro de 2003 ⋅ Livros

A catedral de Darwin

Desidério Murcho
Darwin's Cathedral: Evolution, Religion, and the Nature of Society, de David Sloan Wilson
Chicago: University of Chicago Press, 2002, 232 pp., $25.00
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David Sloan Wilson é professor de biologia e antropologia na Universidade de Binghamton (EUA), e é autor de The Natural Selection of Populations and Communities e co-autor, com o filósofo Elliott Sober, de Unto Others: The Evolution and Psychology of Unselfish Behavior. O seu último livro, Darwin's Cathedral: Evolution, Religion, and the Nature of Society (The University of Chicago Press, 2002, 268 pp.), é provavelmente o primeiro a conseguir o que muitos outros têm tentado: uma boa explicação científica do fenómeno religioso. Note-se, antes de mais, que esta explicação é razoavelmente independente de se crer ou não em Deus, apesar de arruinar um tipo de argumento que por vezes se ouve em círculos religiosos: que do facto de em praticamente todas as comunidades humanas existir alguma forma de religião se segue que Deus existe. Claro que os ateus defendem, ao invés, que a ubiquidade da religião aponta para a possibilidade de esta ser uma forma deficiente de explicação do mundo, a que os seres humanos recorrem quando não dispõem de explicações cognitivamente adequadas. Do ponto de vista da biologia evolucionista, esta última ideia é difícil de aceitar; pois se a crença religiosa é ubíqua, e se, além disso, os seres humanos nela investem tanto do seu tempo e energia, então a crença religiosa tem de contribuir positivamente para a evolução humana — a menos que se consiga mostrar que é uma desadaptação, um resultado infeliz de outra característica verdadeiramente adaptativa.

Wilson apresenta uma investigação científica sólida, procurando formular hipóteses que possam ser confrontadas com a experiência. Não estamos, pois, perante uma obra repleta de especulações mais ou menos arbitrárias. E o interesse desta obra ultrapassa o problema particular de procurar uma explicação evolucionista da religião: trata-se de uma obra fundamental para quem se preocupa com a questão de saber qual é a unidade fundamental da evolução. Richard Dawkins, por exemplo, tornou-se famoso por ter escolhido a metáfora do "gene egoísta" para ilustrar a ideia de que a unidade fundamental da evolução são os genes. (Recentemente, tive conhecimento de uma seita para-religiosa, o "genismo", que adopta esta metáfora como se fosse uma realidade, transformando as ideias de Dawkins, ateu convicto, no credo basilar de uma crença religiosa! As voltas que o mundo dá...) Do ponto de vista de Wilson, a evolução é mais complexa do que as metáforas populares de Dawkins podem fazer crer, existindo várias unidades diferentes evolutivamente relevantes — sendo as comunidades humanas uma dessas unidades, e é olhando para as comunidades humanas que se vê o papel evolutivo da religião. Este consiste, fundamentalmente, em estimular o comportamento altruísta e em punir o comportamento egoísta, através de mecanismos psicológicos de interiorização — o melhor polícia é o que nos policia os sonhos.

Ao apresentar os seus argumentos a favor da ideia de que os grupos humanos e os comportamentos altruístas no seio dos grupos são evolutivamente relevantes, Wilson aborda fenómenos sociais fascinantes, acerca dos quais todos devíamos ter consciência — nomeadamente a ficção da economia actual, que encara os seres humanos como seres a-sociais que procuram unicamente maximizar os seus interesses (o que deixa por explicar todo o altruísmo evidente nos comportamentos humanos). Em suma, trata-se de um livro que urge ler — e debater — em português.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Originalmente publicado no jornal Público (15-03-2003).
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